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O que Dilma poderia fazer para melhorar sua oratória

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

  • Ueslei Marcelino/Reuters

Dilma deixou o governo faz um bom tempo. Suas aparições em público são agora esporádicas. Vez ou outra se ouvem notícias de um discurso que tenha proferido no exterior ou em reuniões partidárias. Mesmo assim, é incrível como não passa uma semana sequer sem que alguém faça referência à sua inabilidade oratória.

É comum me perguntarem se um curso poderia resolver o problema de comunicação da ex-presidente. A resposta é simples e se baseia na experiência dos alunos que temos treinado ao longo das quatro últimas décadas: nunca houve uma pessoa que, com boa vontade, disciplina e aplicação, não conseguisse superar suas deficiências na arte de falar em público.

Já fiz referências aqui a alunos que se transformaram em bons oradores mesmo com todas as carências naturais para se apresentar diante das plateias. Como, por exemplo, algumas pessoas cegas, outras que não possuíam os dois braços e as duas pernas, e aquelas que mal sabiam ler e escrever.

Ora, se com esse grau de dificuldade para aprender a se comunicar, conseguiram se apresentar até diante de auditórios numerosos de forma competente, ninguém poderá afirmar que não tem condições de superar suas dificuldades de comunicação verbal. Tudo dependerá da sua determinação para atingir esse objetivo.

Outro exemplo curioso foram as três pessoas que treinei nos quatro episódios especiais intitulado "Olha quem fala", para o programa "Fantástico", da TV Globo. A Luzia chorava diante do microfone, o Wilson gaguejava e o João Henrique suava muito enquanto repetia o gesto de abrir e fechar as mãos.

Aos poucos, cada um deles foi se desenvolvendo e, em quatro semanas, conseguiram impressionar o país, fazendo com muita competência e desembaraço, diante de milhares de pessoas, a abertura de shows de artistas importantes como Zezé di Camargo e Luciano, Victor e Leo e Wesley Safadão. Hoje, são palestrantes.

E a Dilma, como poderia falar melhor em público?

É evidente que, para analisarmos a comunicação da ex-presidente, temos de deixar de lado qualquer tipo de antipatia ou simpatia política que possa existir. O que nos interessa aqui é o estudo da comunicação e, como Dilma é uma figura conhecida, fica mais simples compreendermos a aplicação da técnica.

Antes de darmos os caminhos que Dilma deveria seguir para aprimorar sua oratória, vamos analisar quais são os atributos de um bom orador. Para falar bem em público é preciso aspectos estéticos bem desenvolvidos, como voz, vocabulário e expressão corporal. Além dessas qualidades, quem fala em público deve saber estruturar corretamente o raciocínio, com começo, meio e fim.

A voz de Dilma

Qual o problema com a sonoridade? A voz de Dilma é estridente, áspera e, algumas vezes, demonstra agressividade. A impressão que passa em determinados momentos é que está dando ordens. Essa característica vocal pode afastar as pessoas ou criar resistências desnecessárias.  

Como melhorar? Com exercícios simples de respiração e ressonância, um fonoaudiólogo deixaria a voz dela menos estridente e dura. Embora não seja da sua personalidade, seria possível tornar a voz mais suave, aveludada e, porque não dizer, sedutora.

A dicção é boa. Ela pronuncia bem os sons, sem apresentar problemas de dicção. Os ouvintes conseguem compreender sem esforço as palavras pronunciadas. Nada a melhorar nesse quesito.

Qual o defeito na utilização das pausas? As pausas são muito importantes para valorizar a informação transmitida, criar expectativa sobre a sequência da fala e demonstrar domínio a respeito do tema abordado. Esse é um problema grave na comunicação da ex-presidente. Ela trunca as ideias com pausas inadequadas, interrompendo, às vezes, a compreensão da sequência do raciocínio.

Como melhorar? Um fato interessante nesse ponto é que Dilma sabe ler muito bem os discursos. E o exercício é exatamente esse: leitura em voz alta, fazendo marcação no texto, para que a pausa seja feita no local adequado. O que ela precisaria, portanto, é ter mais consciência dessas pausas. Poderia, ainda, ouvir os discursos que faz e repetir com acerto os trechos em que a pausa foi imprópria.

O ritmo chega a ser defeituoso? Sim. Dilma não alterna o volume da voz e a velocidade da fala como deveria. O volume é quase sempre elevado e a velocidade, inconsistente. Depois de algum tempo, os ouvintes têm dificuldade para acompanhar a mensagem.

Como melhorar? Esse exercício ela pode fazer sozinha. Não há nada mais eficiente para melhorar o ritmo que a leitura de poesia em voz alta. A cadência da poesia vai sendo transportada para o ritmo da fala. Aí é que está: quem imagina Dilma lendo poesias em voz alta todos os dias?!

O vocabulário de Dilma

O vocabulário é escasso? Esse é um problemão. A ex-presidente possui vocabulário limitado. Se, mesmo com essa escassez de palavras, ela conseguisse encontrar rapidamente os vocábulos de que precisa, teria condições de identificar rapidamente os pensamentos. Ela, entretanto, demora demais para buscar os termos, e a fala fica truncada.

E a desconexão das ideias? Quando a sequência do seu pensamento falha, o que não é tão incomum, ela lança palavras desconexas, tentando buscar por esse meio a continuidade do raciocínio.

Como Dilma se vale desse recurso com frequência, o resultado é negativo. Ela joga uma palavra, e o pensamento não vem. Tenta outro, e nada. Mais um e continua na mesma. Por isso, sem saber como agir, passa a defender aquelas teses estranhas, como ensacar vento e dobrar metas que não existem.

Como melhorar? Precisa diminuir esse péssimo hábito. Se essa dificuldade surgir de vez em quando, até jogar uma ou outra palavra pode tirar o orador da armadilha em que se encontra, já que os vocábulos têm também força de expressão e ajudam a associar novas ideias. No caso dela, é excessivo.

Para melhorar o vocabulário é preciso trabalhar duro. Não pode ter preguiça. Ela deveria ler com um lápis na mão textos de livros, jornais ou revistas. E fazer uma anotação sempre que encontrar uma palavra desconhecida ou da qual não tenha certeza do significado.

Em seguida, procurar no dicionário sinônimos, analógicos ou termos afins que pudessem elucidar a dúvida. Depois, incluir essas palavras nos próximos discursos e conversas para ampliar seu repertório e fazer com que esses termos participem do reflexo condicionado. Esse exercício simples, feito com disciplina, dá excelentes resultados.

A expressão corporal de Dilma

A postura dela é boa. Distribui bem o corpo sobre as duas penas e quebra a rigidez com pequenos movimentos do tronco, ao olhar de um lado e outro da plateia. Até aqui tudo bem.

Onde estão os problemas? Na comunicação visual, na gesticulação e no semblante. De maneira geral, ela olha para o vazio, demonstrando que não vê as pessoas. A gesticulação é repetitiva, sem alternâncias na posição de apoio. Os movimentos dos braços acompanham o ritmo da fala, mas não identificam o sentido da mensagem. O semblante quase sempre é rígido e, quando procura dar expressividade à fisionomia, às vezes, se expressa com ironia.

Como melhorar? Todas as vezes em que se apresentar em público deverá fazer o exercício de, conscientemente, olhar e ver os ouvintes. Com o tempo, se acostumará a manter esse contato visual efetivo, sem olhar para o vazio

Sugiro que Dilma assista aos vídeos dos debates entre Hillary e Trump, e observe como a candidata, de forma exemplar, segurava bem os gestos antes de voltar à posição de apoio. Esse comportamento demonstrava domínio e controle sobre os assuntos que abordava.

Dilma precisa aprender a ter mais simpatia no semblante. Essa atitude também pode ser treinada. Lógico que essa demonstração de interesse pelos ouvintes tem de sair de dentro, ser sincera – a fisionomia deveria ser apenas o espelho do que ela sente. Ocorre que, às vezes, pela pressão de ter de falar em público, o orador não se dá conta de que o semblante está pesado e, em certos momentos, até antipático.

A retórica de Dilma

Ela sabe organizar o raciocínio? Esse talvez seja o maior de todos os seus problemas. Não há concatenação lógica do pensamento. As ideias são truncadas. Ela tem bastante dificuldade para mostrar uma linha coerente do pensamento, com começo, meio e fim.

É comum observá-la em eventos com poucas frases preparadas sobre o que deveria dizer e, no meio da fala, se perder por falta de planejamento. Troca nome de autoridades, erra números e estatísticas, enfim, demonstra que não se preparou para estar ali.

Como melhorar? Não há assunto mais estudado no mundo que a retórica. A obra mais antiga que chegou aos nossos dias foi a Retórica de Aristóteles, século IV a.C. De lá para cá, uma infinidade de livros foi escrita com todos os pormenores e detalhes que se poderia desejar. Tudo o que precisamos saber para iniciar, preparar, desenvolver e concluir uma apresentação está à disposição nessas obras. Só que exige estudo e dedicação.

Dilma precisaria se dedicar a esse aprendizado. Saber o que fazer no início para conquistar os ouvintes. Como instruir a plateia para que compreendesse bem a mensagem. Ter domínio de toda argumentação disponível para reforçar e dar sustentação às suas ideias. Não ter dúvidas de como encerrar os discursos, fazendo com que os ouvintes pudessem refletir ou agir de acordo com a mensagem.

Se conversasse um pouco com seus assessores antes para saber que tipo de mensagem deveria transmitir, boa parte do problema estaria solucionada. Por exemplo:

  • Que evento é esse? Inauguração da obra de empacotamento.
  • Por que foi feita? No ano passado, tivemos uma solicitação do governador do Estado.
  • Quem prometeu que a obra seria realizada? A senhora, presidente.
  • Quanto investimos? R$ 300 milhões.
  • Quem vai se beneficiar? Toda a população. 550 pessoas serão empregadas, e haverá mais 800 empregos indiretos.
  • Quando entra em atividade? Já no próximo mês.
  • Quem estará presente? O governador Emílio Duarte. Os ministros Joel Santana e Gabriel dos Anjos. O prefeito Claudio Amaral. Os deputados Ricardo Oliveira, Jorge dos Santos e Gustavo Miranda.
  • Como posso encerrar? Falar da alegria em participar de um empreendimento tão importante, que gera tantos empregos e que dará mais qualidade de vida à população.

Pronto. Com mais uma ou duas informações, o discurso estaria pronto. Para isso é preciso se preparar.

Superdicas

  • Faça exercícios de leitura de poesia em voz alta para melhor o ritmo da fala.
  • Leia textos de jornais e revistas e anote com lápis as palavras que desconhece.
  • Em seguida, procure o significado das palavras no dicionário para tirar as dúvidas.
  • Quando falar em público, olhe para os ouvintes e veja-os, para ter um contato visual mais efetivo.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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