ipca
-0,21 Nov.2018
selic
6,5 31.Out.2018
Topo

Coluna

Reinaldo Polito


Bolsonaro e Haddad falaram o que o povo queria ouvir, e de um jeito simples

Arte UOL
Imagem: Arte UOL
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

08/10/2018 15h57

Ouvi e li com bastante atenção as opiniões de muitos analistas políticos a respeito dos resultados das eleições do último domingo (7). Comentaram à exaustão. Analisaram com todos os pormenores a ida de Bolsonaro e de Haddad para o segundo turno. Quase nenhum deles, entretanto, tocou no motivo mais importante: a comunicação.

Especialmente na avaliação sobre os perdedores, indicaram todas as causas por terem tido votação pífia. Mas, de verdade, por que será que Geraldo Alckmin, um dos políticos mais bem preparados, depois de ter governado o estado de São Paulo por tantos anos com relativo sucesso, ficou abaixo dos 5% dos votos? Porque, mesmo sabendo falar, não soube se comunicar.

Falta de tempo de rádio e de televisão é que não foi. Alckmin fez coligações em grande escala, e por isso ganhou o direito de falar à vontade. Dos 12 minutos e 30 segundos que compunham cada um dos dois blocos, coube a ele uma eternidade: 5 minutos e 32 segundos. Mesmo que pouca gente tenha tido interesse no horário eleitoral gratuito, seria impossível não ouvir suas mensagens em algum momento.

E Marina Silva, que chegou a ter mais de 20 milhões de eleitores, sem ter feito, aparentemente, nada de errado para perdê-los, por que chegou a essas eleições só a 1% dos votos? É inacreditável que, com todo seu passado político e sua experiência, tenha ficado atrás até do folclórico Cabo Daciolo, que conquistou 1,3% da votação! Sem falar de Meirelles, que gastou uma grana para ficar apenas com 1,2% do total apurado.

Ah, mas Marina não teve tempo de televisão. Só pode contar com os debates e entrevistas nos programas de que participou. Ué, mas com Bolsonaro foi diferente? Também teve de se contentar com os minguados oito segundos de tempo, quase zero. Alguns dos candidatos que ficaram à frente de Marina também passaram longe do horário eleitoral gratuito.

Lados opostos

Bem, vamos às explicações óbvias. Haddad conseguiu a proeza de ir para o segundo turno, mesmo sendo um ilustre desconhecido (basta lembrar que foi chamado pelo pessoal do Nordeste de "Andrade"), porque teve ao seu lado todos os simpatizantes da esquerda e, mais importante, a bênção do maior líder petista de todos os tempos: Lula.

Bolsonaro, por sua vez, ficou do outro lado: bateu pesado no PT, jogando nas costas do partido todas as mazelas que o Brasil tem enfrentado, desde o endividamento até o monstruoso desemprego, que ultrapassou os 13 milhões. Fez parte também do seu discurso o combate à criminalidade e à corrupção, com que muitos graúdos do Partido dos Trabalhadores estão envolvidos.

Como não teve tempo de rádio e televisão para fazer suas pregações, lançou mão das redes sociais. E de forma tão competente que suas mensagens geravam pauta para quase todas as mídias. Só falavam dele nos programas de rádio, televisão, nas matérias de jornais e revistas. Ah, e nas infindáveis discussões na internet. Opa, estava quase me esquecendo da facada.

O que as pessoas realmente querem ouvir

Enquanto Alckmin e Meirelles, só para citar os dois, ficavam batendo bola no meio do campo, falando de planos mais consistentes para o governo que pretendiam concretizar, deixaram de fazer uma correta leitura dos anseios dos eleitores. Não avaliaram o que as pessoas efetivamente desejavam ouvir.

Esse é um princípio básico da comunicação --falar o que as pessoas precisam e desejam ouvir. Mas, atenção: o que as pessoas precisam e desejam "mesmo" ouvir.

De nada adianta falar em construção de escolas e hospitais se o que interessa ao eleitorado naquele momento é saber como combater a corrupção. Assim como não adianta dizer que o nível de criminalidade caiu drasticamente nos últimos anos, se a população continua com medo de sair de casa.

Linguagem que o povo entende

Sem contar que discursos complexos, empolados e abstratos, além de serem incompreensíveis para a maior parte da população, provocam desinteresse já na segunda frase.

Como dizia [o teólogo Martinho] Lutero ao ensinar como os pregadores deveriam se comunicar com as pessoas mais simples: "Ao pessoal simples é preciso dizer branco é branco e preto é preto, de modo bem singelo, com palavras simples e claras --e mesmo assim quase que não entendem. Ah, como nosso Senhor Jesus Cristo se esforçou por falar com simplicidade! Ele usava as parábolas sobre videiras, velhinhas, árvores etc., tudo para que o pessoal compreendesse, assimilasse e guardasse".

Não é diferente com a política. O político precisa saber que temos uma população formada de cerca de 70% de analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que têm enorme dificuldade para compreender o que leem e o que ouvem. Por isso, nessa circunstância, também deveriam seguir os conselhos de Lutero e falar que branco é branco e preto é preto.

Os dois vencedores chegaram ao segundo turno porque souberam mais que os outros falar a linguagem que o povo soube entender e prometeram fazer o que as pessoas queriam "efetivamente" receber. Aplicaram com bastante competência esse princípio tão simples, mas, ao mesmo tempo, tão poderoso da comunicação.

Agora começa a campanha para o segundo turno. Aquele que souber comunicar com mais habilidade e sabedoria esses recursos provavelmente poderá tocar o sentimento dos eleitores e fazer com que escolham o seu nome para ser o próximo presidente do Brasil. Será rapidinho. Vamos aguardar.

Superdicas da semana:

  • Falar o que as pessoas desejam ouvir não significa contar mentiras
  • Só fale o que as pessoas precisam e desejam mesmo ouvir
  • Nem sempre o que você imagina ser bom para os ouvintes está de acordo com o que eles desejam
  • A linguagem deve ser sempre adequada à compreensão das pessoas

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "Vença o medo de falar em público", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "Superdicas para falar bem", "As melhores decisões não seguem a maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Site – www.polito.com.br
Siga no Instagram - @reinaldo_polito
Siga pelo Facebook - facebook.com/reinaldopolito