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Reinaldo Polito


Michelle Bolsonaro aproveita a posse para encantar o país com seu carisma

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

02/01/2019 13h56

Cada vez mais surgem exemplos de que sempre é possível usar a criatividade, especialmente com a comunicação. Por mais tradicional e cristalizado que seja o fato, se as pessoas usarem a imaginação, haverá condições de descobrir um meio diferente para tornar o momento ainda mais marcante. Foi o que aconteceu na posse do presidente brasileiro. Eu me refiro ao discurso da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Sempre ouvi, com orgulho, que a grande primeira-dama do Brasil foi a minha conterrânea Ruth Cardoso. Embora ela não gostasse nada de ser tratada como primeira-dama, esteve nessa posição de 1995 a 2003. Ruth era uma mulher inteligente e muito bem preparada. Aos 18 anos, deixou Araraquara, no interior de São Paulo, para estudar Ciências Sociais na USP (Universidade de São Paulo), na capital paulista. Foi casada com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso desde 1953, com quem teve três filhos.

Ela nunca abandonou sua paixão pela vida intelectual. Além de concluir o curso de Ciências Sociais, também pela USP, fez doutorado em Antropologia, e lecionou em universidades de diversos países, como Chile, Estados Unidos e França. Sobre essas atividades atuou, entre diversos órgãos, como membro associado do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Como primeira-dama foi a criadora e presidente do programa Comunidade Solidária e criou a ONG Comunitas, na qual participou ativamente até à sua morte. Pela elegância, maneira discreta de se apresentar, preparo intelectual e intensa atuação em causas meritórias, Ruth Cardoso é sempre lembrada, particularmente, com saudade pelo tempo em que foi a primeira-dama do Brasil.

Tivemos no Brasil 37 primeiras-damas. Como a primeira-dama não precisa ser necessariamente esposa do presidente, tivemos esse número, embora tenham sido 33 esposas de presidentes. Como Dilma chegou ao governo divorciada, perdemos a chance de ter também pela primeira vez um primeiro-cavalheiro. Esse é um papel que pode ser visto como irrelevante, pois a primeira-dama não tem nenhuma obrigação, mas se ela for atuante, essa função chega a ser importante e útil para o país.

Marcela Temer foi uma primeira-dama discreta. Tão discreta que foi chamada de "bela, recatada e do lar". Mesmo assim, foi importante para a imagem do ex-presidente Michel Temer. É uma pessoa tão simpática que em determinados momentos o governo pensou em requisitá-la para criar com sua presença um ambiente mais favorável para o marido.

Além de chamar a atenção do mundo pela sua singular beleza (eleita miss cidade de Paulínia e vice miss São Paulo), foi a embaixadora do programa "Criança feliz", criado com o objetivo de dar assistência médica e psicológica para crianças com idade de zero a três anos. Mesmo não tendo atuação direta no programa, foi importante para sua divulgação. O programa terá continuidade com a nova primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Esse curto histórico nos ajuda a entender a participação exuberante de Michelle Bolsonaro no dia da posse do presidente. Pela primeira vez uma primeira-dama usa a palavra no momento do discurso de posse do presidente. Ela quebrou o protocolo e não fez um discurso qualquer. Esbanjando carisma, Michelle discursou usando a Libras (Língua Brasileira de Sinais), criada para que a comunidade de surdos possa se comunicar.

E ela provou que é do ramo. Com impressionante desenvoltura e demonstrando muita simpatia e segurança, encantou o país com seu discurso. Estava tão à vontade que, no meio da apresentação, atendendo aos pedidos do público que a acompanhava atentamente, interrompeu a comunicação para beijar o marido. Foi tão emocionante que a intérprete que a auxiliava com a leitura do discurso quase foi às lágrimas. A plateia delirou. 

Foram vários objetivos atingidos ao mesmo tempo. Mostrou que seu interesse pelos surdos é genuíno, pela forma competente como se comunicou. Ajudou Jair Bolsonaro a afastar a imagem de que menospreza as mulheres, já que se ele não valorizasse mesmo as mulheres jamais a deixaria se apresentar no momento do seu segundo discurso como presidente e seu primeiro pronunciamento diretamente ao público.

Além dessas conquistas, há outras que poderiam ser consideradas, como, por exemplo, o fato de se tratar de um assunto que desperta enorme interesse no país, tanto assim que recentemente se tornou tema da redação do Enem: "Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil". Portanto, o tema certo, pela pessoa certa, no lugar mais certo ainda. 

Com certeza, tudo havia sido muito bem planejado, mas duvido que os organizadores do evento da posse e o próprio Bolsonaro pudessem supor que o resultado seria tão positivo. Ninguém tem dúvida de que depois dessa estreia vitoriosa de Michelle Bolsonaro ela terá participação mais ativa que a inicialmente pensada. Ela poderá ser muito importante para o trabalho do presidente e, principalmente, para o povo brasileiro.

Quem sabe um dia possamos nos lembrar dela com a mesma admiração como nos lembramos de Ruth Cardoso. O primeiro momento foi impressionante e incomparável, agora vamos acompanhar os próximos passos. Tem tudo para ser bem-sucedida.

Superdicas da semana:

  • Sempre haverá uma forma mais criativa de realizar qualquer evento

  • Mesmo sendo repetida há anos, não significa que uma atividade não possa ser melhorada

  • Use o Kaizen, uma metodologia japonesa que significa melhoria contínua

  • Depois de pronto, pergunte: o que poderia ter sido melhor?

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Reinaldo Polito