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Reinaldo Polito


Bolsonaro e seus ministros não falam a mesma língua

Avener Prado/Folhapress
Imagem: Avener Prado/Folhapress
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

07/01/2019 13h19

Talvez Bolsonaro tenha se preocupado com todos os detalhes para iniciar bem o seu governo, mas parece que se esqueceu de um aspecto fundamental: a comunicação. Nem bem começou a governar, com dois ou três dias, ele e alguns ministros começaram a meter os pés pelas mãos, e a bater cabeça. 

Aqui vai um conselho de graça: alôôô, presidente, diga à sua tropa que, antes de passar a ordem do dia, é preciso combinar o que será comunicado.

Afinal, até os meninos de azul e as meninas de rosa do curso básico sabem quais serão os assuntos abordados: reforma da Previdência, taxa de juros, reforma tributária, demarcação de território indígena e teto de gastos. Podemos acrescentar aí mais dois ou três temas, e a lição de casa estará pronta.

Sabe quem pode explicar essa disputa entre os ministros de Bolsonaro? Aristóteles. Quatro séculos antes de Cristo, na obra "Arte Retórica", o grande pensador falava sobre a inveja. Dizia que sentimos inveja quando pensamos ter direito a certas vantagens ou quando a posse delas nos dá uma leve vantagem de superioridade ou de inferioridade. 

É isso. De acordo com o filósofo, sentirão inveja todos os que têm pares. A inveja existe entre os que são iguais por nascença, parentesco, idade, disposição, reputação, bens em geral. Ou não foi assim com Ayrton Senna e Alain Proust? Com Pelé e Maradona? Com Da Vinci e Michelangelo? 

Portanto, é normal que, em um ambiente onde os egos não cabem na mesma sala, haja disputa por espaço e protagonismo.

Alguns, macacos velhos, com longa quilometragem de estrada, de forma inteligente, ficam na deles. Ou será que você já viu um José Sarney, por exemplo, criticando ou menosprezando algum colega político?! 

Esses homens públicos experientes só usam sua artilharia verbal quando dirigida àqueles que sejam efetivamente adversários. Tivemos exemplos claros de políticos criticando ostensivamente oponentes. Foi assim com Lula e Fernando Henrique. Com Trump e Obama. E com tantos outros que desejavam enfraquecer a imagem e desconsiderar os feitos daqueles com quem disputavam posições políticas.

Com esses ministros, não falando coisa com coisa, Bolsonaro nem vai precisar de inimigos. Eles bastam para arrumar todas as encrencas de que o governo precisa. Diria mais: antes de ser governo.

Lorenzoni e Paulo Guedes começaram a medir forças já na fase de transição. Naquela oportunidade, o ministro da Economia repreendeu publicamente o ministro-chefe da Casa Civil. 

É interessante ressaltar que se trata de assunto recorrente: a reforma da Previdência. Lorenzoni disse que não havia pressa em fazer a reforma da Previdência. Diante dessa declaração, o mercado se ressentiu. Paulo Guedes não apalpou, e meteu a boca no trombone: "Houve gente falando que não tem pressa de fazer a reforma da Previdência. Onyx falou de banda cambial. Aí o mercado cai. É um político falando de economia. É a mesma coisa que eu sair falando de política. Não dá certo".

Toda vez que alguém do governo precisa vir a público para tentar explicar o que foi falado, significa que houve ruído na comunicação.

De maneira geral, nós só vemos a retórica quando está pronta. Dificilmente ficamos sabendo como foram construídos os andaimes que a sustentaram. 

Assim como Onyx se meteu na praia de Paulo Guedes, dissertando sobre questões econômicas, o "Posto Ipiranga" também perambulou em terrenos que estavam fora de suas fronteiras. Onyx, embora seja do DEM, o mesmo partido de Rodrigo Maia, não gostou nada de saber que o ministro da Economia deu apoio à reeleição dele à presidência da Câmara dos Deputados.

A polêmica não azedou ainda mais o relacionamento dos dois ministros porque deputados do PSL argumentaram que, sem Maia na presidência, corriam o risco de ficar de fora das comissões de Finanças e Orçamento e de Constituição e Justiça. Sem esses assentos estratégicos, teriam dificuldade para apresentar e aprovar os projetos vitais do governo.

E, só para não perder a viagem, essa possível entrega da presidência da Câmara, de mão beijada, a Rodrigo Maia nasceu, possivelmente, de outra falha de comunicação e de disputas com forte influência da vaidade.

Enquanto alguns deputados do PSL ficaram discutindo pela imprensa quem seria mais competente para ocupar a presidência, Maia, de leve, foi comendo pelas bordas. 

O próprio Bolsonaro, sem falar da agricultura, também tomou a iniciativa de pisar nuns tomates. Ao comentar sobre a reforma da Previdência, na entrevista que deu ao SBT, falou de propostas que, para o mercado, foram anêmicas e sem perspectiva de resultado efetivo. Mais uma vez, vazou combustível no "Posto Ipiranga".

Vai somando. Ah, e não estamos falando nos cem primeiros dias de governo. Trata-se apenas da primeira semana. Se os ministros e o presidente tivessem ficado calados nesses primeiros dias, o estrago talvez fosse menor. Observe que todos esses problemas poderiam ter sido evitados.

Mais uma bomba. Outra vez pela voz do capitão. Na sexta-feira, Bolsonaro falou em aumento nas alíquotas do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e do Imposto de Renda para pessoa física. O mercado ficou arrepiado. Como aumentar imposto se a proposta de campanha se sustentou em não aumentar impostos?!

E lá foi o Lorenzoni, de novo, tentar remediar o estrago. Disse que o presidente se equivocou ao se referir ao IOF e ao Imposto de Renda. E, se a lambança não pudesse ter fim, o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, colocou ainda mais lenha na fogueira. Deu entrevista dizendo que não haverá aumento de imposto. 

É como se o ministro e o secretário estivessem desmentindo o chefe. Teria sido muito mais adequado se o próprio Bolsonaro dissesse que havia se enganado. Dessa forma, não teria os subordinados desdizendo as palavras do presidente. 

Mais um conselho de comunicação gratuito, presidente. Quando alguém do governo falar o que não deveria --e parece, pelo rodar dos tanques, que muitos colocarão a boca na frente do cérebro--, mande o próprio causador do problema se explicar. Inclusive quando o senhor mesmo errar, como no caso do aumento de impostos. 

A não ser que seja verdadeiro o boato de que Paulo Guedes esteja fritando Onyx Lorenzoni. Nesse caso, quanto mais o colega falar, mais irritará o presidente e mais aumentará a fritura. E, antes que digam se tratar de fake news, já estou alertando que pode ser boato. 

Sei não. Foi estranho o Lorenzoni se preocupar em prestar reverência ao ministro da Economia quando falou sobre o déficit das contas públicas: "Paulo Guedes me ensinou que, antes de diminuir impostos, precisamos sair desse buraco de R$ 139 bilhões". Deu toda a pinta de que sentiu a batata assar.

E, se não bastasse Paulo Guedes para disputar protagonismo com Lorenzoni, eis que aparece na mesa ao lado outro possível desafeto, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Pelos rumores, os dois digladiam para ocupar o mesmo espaço político. Aristóteles foi gênio, não?

Nesse pacote de falas fora de lugar, já que se discute tanto a respeito de lugar de fala, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, ajudou a conturbar o quartel. Mesmo que ao dizer que menino veste azul e menina veste rosa tenha sido no sentido metafórico, nesse início turbulento, não foi apropriado tocar em tema tão polêmico, deixando que os ouvintes interpretassem o sentido a partir da leitura das entrelinhas.

E, para não fechar o livro com apenas uma página, criticou o fato de os jovens fazerem o Enem e terem de se mudar para outro extremo do país. Explicou que se tratava de vínculos familiares, mas deu pano para manga, incitando discussões e comentários negativos. Ricardo Velez Rodrigues, ministro da Educação, para não encompridar a polêmica, disse pela sua assessoria que "não cabe ao MEC comentar falas de ministros de outras pastas do governo".

Lógico que não vai acabar o mundo por causa desses contratempos oratórios, mas todos esses dissabores poderiam ter sido evitados com mais cuidado com a comunicação.

Só precisa de um pouco de tempo e dedicação. Não custa nada, não exige demissões nem despetização, e poderá proporcionar mais clareza no que o governo deseja fazer. 

Superdicas da semana:

  • Pense muito bem na mensagem antes de fazer qualquer pronunciamento
  • Se tiver de tratar de temas que envolvam várias pessoas, é preciso conversar antes para uniformizar as informações
  • Se a organização não tiver um porta-voz, o profissional, desde que autorizado, só deverá falar sobre a sua área de atuação
  • A melhor maneira de se preparar para perguntas é fazer um treinamento com simulações

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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