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Reinaldo Polito


Silêncio de Moro diante das críticas de Gilmar Mendes é aula de refutação

Jane de Araújo/Agência Senado
Imagem: Jane de Araújo/Agência Senado
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

08/10/2019 04h00

Faça o que você sente que está certo em seu coração, pois você será criticado de qualquer maneira. Você será condenado quer faça ou não.
Eleanor Roosevelt

Não é de hoje que o ministro Gilmar Mendes se dedica a atacar o ministro Sergio Moro. Desde que Moro era juiz na 13ª Vara em Curitiba, Gilmar Mendes não perde oportunidade para alfinetá-lo. Naquela época o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) se limitava quase que exclusivamente a criticar as inúmeras e longas prisões temporárias.

Sem se rebelar, com paciência de Jó, Moro costumava apresentar números que neutralizavam as acusações de Gilmar Mendes. No auge do embate, em 2017, o juiz de Curitiba mostrou que até aquela oportunidade cerca de cinco dezenas de pessoas haviam sido presas temporariamente. Argumentou também que, embora o número pudesse parecer elevado, era pequeno diante da quantidade de casos investigados e que nem dez continuavam na prisão.

De lá para cá, Gilmar não parou de atacar Moro. Sempre que tem chance, dá uma cutucada. Na sessão do plenário do STF do dia 2 deste mês (quarta-feira), entretanto, o ministro da Suprema Corte bateu pesado. Dedicou boa parte do seu pronunciamento para fazer duras críticas ao ministro da Justiça e da Segurança Pública.

Tomando como base as mensagens hackeadas da Lava Jato, entre tantas acusações, disse que hoje se sabe de maneira muito clara que se usava a prisão provisória como elemento de tortura, e quem defende a tortura não pode ter assento na Corte Constitucional. Ou seja, fez campanha ostensiva para impedir que Moro chegue ao STF.

Sem medir palavras, Gilmar disse também que a operação torturava os investigados, desrespeitava o processo penal, perseguia ministros do Supremo e articulava um projeto político. Se não bastasse, ainda afirmou que "isto aparece nas declarações do Intercept feitas por gente como Dallagnol, feitas por gente como Moro. Portanto, é preciso que se saiba disto. Que o Brasil viveu uma era de trevas no que diz respeito ao processo penal".

A reação de Moro

Acompanhei os pronunciamentos que Moro fez após receber essas críticas. Em nenhum momento ele se rebelou ou partiu para o revide. Em todas as situações, limitou-se a firmar sua posição de ter cumprido a lei, no combate às organizações criminosas e à corrupção. Sem alterar a voz, sem se abater, sem demonstrar nenhum tipo de contrariedade.

Talvez a tese defendida por Emilio Mira y López na obra "Quatro gigantes da alma" explique as atitudes de Gilmar Mendes e o comportamento de Sergio Moro. Esse renomado psicólogo foi professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Barcelona e orientador profissional da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. Segundo ele, o medo, a ira, o amor e o dever são sentimentos que atuam ora de forma antagônica entre si, ora como parceiros para regular as ações humanas.

Sem entrarmos nas questões profundas da psicologia humana, podemos refletir: qual é a vantagem de alguém que, depois de ser atacado de forma tão agressiva, se comportar como Moro tem se comportado? Será que ele não deveria reagir para demonstrar que as acusações foram infundadas? Mesmo que não quisesse mencionar o nome de Gilmar Mendes, não seria importante apresentar dados que refutassem seus ataques?

A solidariedade dos ouvintes

Quando nos apresentamos diante de um grupo, e um ouvinte nos interpela de maneira agressiva, ele é o algoz e nós somos a vítima, e, por isso, temos, no mais das vezes, a solidariedade do público. Se reagirmos emocionalmente, também retrucando com veemência, o papel pode ser invertido, pois nos transformamos em agressores, e o ouvinte passa a ser visto como agredido, e dessa forma podemos perder a cumplicidade da plateia.

Quanto mais serenos e equilibrados nos mostrarmos, mais serão as chances de sairmos vitoriosos nesse tipo de embate. Não é tarefa simples, pois quando somos atacados é natural que queiramos revidar à altura. Essa não é, entretanto, na maior parte das vezes, uma atitude sensata nem inteligente.

Há momentos em que o silêncio chega a ser mais eloquente que as palavras. Quando boa parte dos brasileiros dá a Sergio Moro a primazia de ser a pessoa de popularidade mais positiva no país, ao mesmo tempo em que vê Gilmar Mendes como uma das personalidades mais detestadas, fato constatado nas últimas manifestações da população que foi às ruas, ficar quieto talvez tenha sido mesmo a melhor estratégia.

Para chegar a esse estágio, é preciso muita experiência e amadurecimento. É um verdadeiro aprendizado da arte de engolir sapos. E mesmo depois de imaginarmos ter aprendido como nos comportar, de vez em quando, não resistimos, temos recaídas e soltamos cobras e lagartos.

Às vezes, temos de reagir

Há situações, todavia, em que não dá para contemporizar. Se alguém nos acusa de ladrão ou desonesto, por exemplo, não dá para ficar em silêncio ou reagir com placidez. Nesses casos, temos de demonstrar nossa indignação e declarar, se for o caso, que iremos denunciá-lo pela calúnia.

Essa não é uma regra matemática. Vários aspectos precisam ser levados em consideração. Há situações em que será necessário deixar toda essa teoria para trás e partir para cima daquele que nos agride. Em outras circunstâncias é recomendável agir como Moro e fazer ouvidos moucos. O tempo, a experiência, a observação, o erro e o acerto nos darão condições de nos comportarmos de maneira correta.

Superdicas da semana:

  • Quem ataca quase sempre perde a solidariedade dos ouvintes
  • Há situações em que as agressões precisam de respostas à altura
  • Uma boa forma de nos prepararmos para reagir às agressões é prevê-las com antecedência
  • Em certas situações, o silêncio é a melhor resposta

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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