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Moro e Bolsonaro tremeram na hora de falar?

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

05/05/2020 04h00

Ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la
Agatha Christie

Você acha que Moro e Bolsonaro ficaram nervosos no pronunciamento que fizeram na sexta-feira, 24? Afinal, aquele foi um momento de grande tensão para ambos, pois sabiam que suas palavras e atitudes poderiam modificar a história do país e influenciar suas reputações. O próprio Moro declarou que estava se demitindo para proteger sua biografia.

Nesses instantes cruciais, por mais experiente que seja a pessoa, não é fácil manter o controle dos nervos. Certa vez, Pelé, ao contar o que havia sentido no momento em que estava para bater o pênalti que o levaria à marca do milésimo gol de sua carreira, afirmou que, com toda a sua experiência como jogador profissional, suas pernas tremeram antes de bater na bola.

Não foram poucos os oradores que, apesar de muito traquejo no uso da palavra em público, tremeram diante da plateia. Há pouco tempo, por exemplo, recebi um advogado, credenciado com todos os títulos acadêmicos, e dizendo precisar de aulas de oratória porque estava se sentindo inseguro para fazer a defesa de cátedra. Era o momento mais importante de sua vida, e não podia falhar.

A experiência conta muito

Na obra "Outliers" (Fora de série), Malcolm Gladwell afirma que para ser bom em alguma atividade uma pessoa precisa se dedicar a ela por 10 mil horas. Embora seu livro tenha feito muito sucesso, posicionando-se entre os mais vendidos em todo o mundo, há resistências aqui e ali com relação às suas teses. De uma forma ou de outra, entretanto, não há dúvida de que a prática é essencial para que alguém desempenhe bem suas tarefas.

O ex-ministro Sérgio Moro tem nas costas 22 anos de magistratura e mais um ano e meio à frente do ministério. Supondo que ele tenha trabalhado em média seis horas por dia, nos cinco dias úteis da semana, onze meses por ano, daria mais ou menos 30 mil horas de prática. Três vezes mais que o número recomendado por Gladwell. Sem contar que só os seus enfrentamentos com os políticos nesse ano e meio como ministro foram tão intensos que já valeriam metade das horas exigidas.

Bolsonaro, por seu lado, não fica atrás. Embora a jornada de um político não seja composta de tantas horas quanto a de um juiz federal, seus 30 anos como vereador, deputado federal e presidente, em contendas constantes com os mais combativos adversários, já foram suficientes para que ele cumprisse sua cota.

Li em diversos textos que os dois ficaram nervosos durante o pronunciamento que fizeram. O que não faltou foi explicação. Alguns disseram que este ou aquele desviou os olhos. Outros afirmaram que as mãos de um deles estavam trêmulas. Houve ainda quem dissesse que a voz de um ou de outro falhou em determinados momentos.

Até por dever de ofício, eu prestei muita atenção e não percebi nenhuma insegurança que pudesse desestabilizá-los. Se ficaram nervosos de alguma forma, não demonstraram. Imagino que esses comentários se basearam mais na sensação que as pessoas tiveram se colocando no lugar de um dos dois. Mais ou menos assim: eu morreria se tivesse de falar no lugar deles. Ou, então, em um sentimento de antipatia, torcendo para que aquele de quem não gostam não se saísse bem.

Os momentos que antecederam os pronunciamentos

Talvez, na noite que antecedeu seu pronunciamento, Moro não tenha dormido com facilidade. Embora tenha tido muito tempo para se preparar, pois foi ele quem tomou a iniciativa de se demitir e de fazer as acusações que fez, as horas que precedem esses momentos decisivos são angustiantes. Imagino que tenha revirado de cabeça para baixo aquele roteiro que utilizou para sua apresentação. Uma falha poderia ser fatal.

Bolsonaro não teve tanto tempo. Entre o pronunciamento de Moro e o seu discurso foram algumas poucas horas. Aparentemente foi apanhado de surpresa. Mesmo que esperasse um pedido de demissão, o que não acredito, jamais imaginaria que ocorresse naquelas circunstâncias. Com certeza, essa foi uma estratégia proposital de Moro - pegar o adversário desarmado.

Técnicas distintas

Os dois lançaram mão de recursos distintos para fazer o pronunciamento. Moro se valeu de um roteiro escrito, lendo e comentando cada etapa de sua exposição. Enquanto Bolsonaro resolveu falar de improviso. É evidente que uma fala como essa nunca é de improviso total. Ele deve ter estudado muito bem o que iria dizer, apenas não leu o discurso. Exceto nos minutos finais.

A vantagem de Moro foi o fato de dizer tudo o que pretendia, sem se esquecer de nenhum detalhe. Coisa de juiz muito experiente. A desvantagem foi passar a ideia de premeditação. Como se tivesse planejado cada vírgula das acusações que fez. Nesse caso, perde um pouco da espontaneidade e as falhas não seriam perdoáveis.

A vantagem de Bolsonaro foi a de mostrar autenticidade no que falou. A percepção que as pessoas teriam com sua fala improvisada é a de que foi tão sincero com suas palavras que nem precisou recorrer à leitura. A desvantagem seria a de dizer algo que não poderia ser mencionado, ou se equivocar e passar a impressão de que houve contradição. O fato de falar de improviso jamais justificaria esse tipo de deslize.

Sobreviveram à contenda

"Noves fora nada", sobreviveram. E muito bem. A não ser que alguém queira analisar com viés ideológico, que nessas ocasiões turva o bom senso e a capacidade de julgamento, os dois, nas circunstâncias em que se encontravam, fizeram o melhor que poderiam fazer. Pelo teor dos pronunciamentos, a verdade ainda precisa ser buscada. Esse, entretanto, é um capítulo a que ainda iremos assistir.

Daqui para frente, entram em cena os depoimentos na justiça, a apresentação de provas e contraprovas, as testemunhas de um lado e de outro. Enfim, serão outros rounds nesse ringue político. Independentemente de quem vença essa contenda, uma certeza já se avizinha, o maior perdedor será o povo brasileiro. A essa altura, com todos os problemas que assolam o nosso país, o que menos precisaríamos era de uma briga como essa. Que pena!

Superdicas da semana

  • Para ser bom em alguma atividade é preciso praticar muito
  • Pegar o adversário de surpresa pode ser uma vantagem
  • Quem acusa apresenta uma tese
  • Quem defende apresenta uma antítese
  • Do choque entre a tese e a antítese, o que não for destruído será a síntese

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito