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Na Funarte, Dante Mantovani protagoniza a volta de quem não foi

Dante Mantovani em coletiva de imprensa da Funarte no Rio - RafaeL Godinho/ UOL
Dante Mantovani em coletiva de imprensa da Funarte no Rio Imagem: RafaeL Godinho/ UOL
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

06/05/2020 13h41

O que me atormenta é que tudo é por enquanto, nada é sempre.
Clarice Lispector

Quando eu era menino, fazíamos em Araraquara, no interior de São Paulo, um tipo esquisito de brincadeira. Eram frases que não tinham pé nem cabeça. Uma das mais conhecidas era "ele estava nu com a mão no bolso". Por sinal, fiquei surpreso quando recebi um exemplar do livro lançado por João Mellão Neto exatamente com esse título. Havia outra também que, se for invertida, define muito bem o que aconteceu com o ex-futuropresidente da Funarte, Dante Henrique Mantovani: "a volta de quem não foi".

Complicado, né? Vamos lá. O maestro Dante Mantovani já foi presidente da Funarte. Recebeu o bilhete azul assim que a secretária especial de Cultura, Regina Duarte, foi empossada no cargo. Depois de assumir, a secretária exonerou o maestro. Nada de anormal, pois quem chega, de maneira geral, quer ter sob seu comando gente da sua confiança.

Uma surpresa

Não sei se já estavam achando a história da saída do Moro página virada, ou se queriam notícia que nos fizesse esquecer um pouco essa pandemia, o certo é que resolveram botar tempero no noticiário. Surpresa! Na terça-feira (5), fomos sacudidos com a informação de que o ex-presidente da Funarte estava reassumindo suas funções.

E já que a conversa é sobre cultura, vamos parodiar a famosa música "A volta do boêmio", interpretada magistralmente por Nelson Gonçalves:

"Cultura, sabendo que andei distante,

Sei que essa gente falante vai ironizar:

Ele voltou! O maestro voltou novamente.

Partiu daqui tão contente. Por que razão quer voltar?"

Bochicho geral na Esplanada dos Ministérios. Ops, parece que a secretária da Cultura estava sendo desautorizada. Mais emoção nos ares brasilienses —vaza um áudio da Regina dizendo: "acho que ele está me dispensando". Teria a ver com a volta do maestro? Quem tem um pouco de neurônio ficou perplexo: por que passar por cima da secretária da Cultura? Afinal, com a pandemia correndo solta, ela não teve condições ainda de fazer quase nada. Está aproveitando esse período de hibernação para pôr ordem na secretaria.

A missão da Funarte

O mais estranho desse rebuliço todo é que a Funarte tem como missão primordial promover e incentivar a produção, a prática, o desenvolvimento e a difusão das artes no país. E veja só que ironia. Cabe a esse importante órgão cuidar de atividades artísticas envolvendo circos, teatros, dança, música popular, de concerto e de bandas, e artes visuais. Ok, e daí?

Daí que se pegarmos o discurso de posse da Regina Duarte, vamos constatar que, em quase metade dele, ela mencionou como planos de sua gestão exatamente esses objetivos da Funarte. Como pode, então, um órgão que se mostra tão importante nas ações da secretária especial de Cultura ficar nas mãos de uma pessoa que ela havia retirado do cargo?!

Sei lá quem foi o "pistolão" que resgatou o maestro para a função, mas, por todos os motivos, foi uma tremenda pisada na bola. Tanto assim que a mancada nem esquentou a cama. Na mesma terça-feira, logo no começo da noite, o ministro-chefe da Casa Civil, Braga Netto, usou sua caneta para revogar a portaria que havia reconduzido o maestro Mantovani ao cargo. Ou seja, houve duas portarias publicadas no Diário oficial, uma pela manhã com a nomeação, e outra na edição extra tornando a anterior sem efeito.

Não se sabe o motivo da volta nem da partida

O que se questiona é: qual teria sido o verdadeiro motivo para esse "arrependimento governamental"? Parece que mais uma vez o peixe morreu pela boca. Tudo leva a crer que foi o que Mantovani disse, e não o que ele fez que o retirou do cargo. Em entrevista à revista Veja, revelou seus planos para atenuar os problemas causados aos artistas pelo coronavírus.

Disse que lançaria um edital emergencial para garantir trabalho e remuneração aos artistas nesse período de pandemia. Os artistas receberiam para fazer apresentações nos canais virtuais da Funarte. Nada demais, já que estava querendo mostrar serviço antes mesmo de botar a mão na massa. O problema parece ter sido o que disse na sequência da entrevista.

Ao ser questionado se achava que Regina Duarte, que o havia demitido, ainda continuaria no governo, ele respondeu: "É uma decisão dela, você tem que perguntar a ela". E, para não perder a oportunidade de dar uma cutucada na secretária, complementou dizendo que, diferentemente de Regina Duarte, não ficaria enclausurado em sua casa.

Que estranho!

Dante Mantovani tem um bom currículo. É mestre em linguística e doutor em estudos da linguagem. Também se graduou em música e fez especialização em filosofia política e jurídica. Não há dúvida de que pelo menos quanto à formação acadêmica ele sempre esteve credenciado para o cargo.

Nem tudo, entretanto, é perfeito. O maestro defende umas teorias para lá de polêmicas. Logo que assumiu o cargo pela primeira vez, ele disse que "o rock leva ao aborto e ao satanismo". Afirmou também que a abertura das Olimpíadas de 2016 foi feita por aberrações sonoras. Defende ainda que alguns discos foram utilizados por agentes soviéticos infiltrados na CIA para realizar experimentos até com crianças.

Quem não está familiarizado com essas histórias acha tudo muito estranho. Somando aqui, subtraindo ali, descontando acolá, tudo conta para tentar explicar os motivos que o tornaram um presidente que voltou sem ter partido, e que partiu sem ter voltado.

Superdicas da semana

  • Nem a alegria nem os percalços são perenes
  • A confiança é que sustenta uma equipe
  • Às vezes o preparo e a experiência não são suficientes
  • O pior erro é pôr a própria felicidade nas mãos dos outros

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito