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Roberto Jefferson liga a metralhadora verbal e amedronta os políticos

Twitter/Divulgação
Imagem: Twitter/Divulgação
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

12/05/2020 04h00

O jogador perfeito nunca move a peça que se espera, e muito menos a peça que seu adversário desejaria.
Baltasar Gracián

Roberto Jefferson já mudou a história do país. Ele foi o estopim que explodiu a prática do mensalão. Quem não se lembra de quando teve peito para confrontar aquele que nenhum político ousava desafiar, José Dirceu? Sua frase ficou famosa e ecoa até os dias de hoje: "Vossa Excelência desperta em mim os instintos mais primitivos". E para o mesmo então Ministro da Casa Civil: "Sai daí, Zé. Sai daí logo antes que você faça réu um homem inocente". Dois dias depois José Dirceu deixava o cargo de Ministro.

A partir de suas declarações muita gente graúda foi parar na cadeia. E, por ironia das circunstâncias, até ele mesmo. Roberto Jefferson fez da oratória uma de suas armas mais poderosas. Até seus mais ferrenhos oponentes reconhecem que ele é ótimo orador. Para enfrentá-lo num debate é preciso estar muito bem preparado e ter os nervos sob controle.

Um adversário terrível

Na verdade, desconheço alguém que quisesse digladiar com ele. O debatedor pode tentar agredi-lo com os ataques verbais mais violentos que ele não se altera. É como se o sangue não corresse em suas veias. No meio da mais feroz batalha verbal, sua voz, seu semblante e seu raciocínio não dão sinais de perturbação. Ele permanece impassível como se não existisse adversário. Não é à toa que seu livro tem este título: "Nervos de aço".

Na hora de atacar, entretanto, sem se perder emocionalmente, age como se fosse um animal encurralando sua vítima. Pronuncia as frases sem nunca hesitar. As palavras brotam num ritmo estonteante. Fala de improviso como se tivesse dedicado horas no preparo do discurso. É um fenômeno!

Muitos já me perguntaram como alguém pode chegar a esse nível de comunicação. A resposta é bastante simples: ele se preparou a vida toda. Logo no começo da carreira foi estudar com a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller, com quem tive a honra de dividir o palco algumas vezes para proferir palestras. Mesmo tendo boa voz, estudou canto com a professora Denise Tavares. Aprimorou a respiração e a colocação da voz.

Nunca para de aprender

Mesmo com toda fama que angariou como orador, teve humildade e disciplina para me procurar. Eu disse a ele: você é uma referência na oratória, o que veio fazer aqui na minha escola? Ele me respondeu: Polito, alguém que dá aulas de oratória há mais de 40 anos, com certeza terá muito a me ensinar. Ficou tão feliz com o resultado que compareceu às aulas também com sua filha.

Sua aplicação me fez lembrar de Pelé. Já era o maior jogador do mundo, mas estava sempre se preparando. Quando terminavam os treinos, ele continuava em campo exercitando chutes a gol para aperfeiçoar a precisão das faltas que cobrava. Não é diferente com Cristiano Ronaldo, que montou uma academia na sua casa para nunca deixar de fazer exercícios. Os melhores jamais deixam de aprender e de se aprimorar.

Depois de um tempo sumido dos meios de comunicação, eis que Roberto Jefferson retorna com toda força ao cenário político nacional. Voltou para botar combustível na fogueira ao falar em suas entrevistas que Rodrigo Maia estava tramando a queda do presidente Bolsonaro. Deu detalhes dessa manobra. Explicou como Maia preparou a queda de Bolsonaro em troca de sua reeleição como presidente da Câmara. Incitou o chefe do executivo a botar a boca no trombone e revelar o "plano maquiavélico dos adversários".

Deitou falação também nos prefeitos e governadores que, segundo ele, receberam do STF a incumbência de administrar o problema da pandemia, mas querem jogar a culpa no colo de Bolsonaro. Segundo sua visão, o presidente só tem uma obrigação, a de mandar dinheiro para os estados e municípios, e isso ele está fazendo. Se o fogo político estava brando, essas palavras funcionaram como gasolina regando as labaredas.

Esse tempo de ausência não comprometeu sua qualidade oratória. Continua sendo um orador articulado, combativo e contundente. Sua voz não perdeu a vitalidade, preservou a sonoridade e a potência. Parece que a experiência deu consistência maior à sua linha de raciocínio, pois é possível notar uma lógica mais apurada na sua argumentação. Organiza o pensamento com precisão quase matemática.

Se a língua era afiada, agora faz uso dela sem nenhuma reserva, já que não se incomoda em ferir suscetibilidades. Por causa desse seu jeito de ser, encontra sempre boa parcela da mídia interessada em ouvir suas teses a respeito dos comportamentos conspiratórios de alguns políticos. Várias emissoras de rádio e televisão reservam horários inteiros de sua programação para entrevistá-lo. Ele dá audiência.

Defende e ataca

Ninguém esperava por isso, mas foi uma das vozes que o Planalto encontrou para servir de couraça contra os ataques que recebe. Ele não só defende o presidente contra as "artimanhas" de alguns parlamentares, governadores e da imprensa, como também revida cada ofensa que os adversários desferem contra Bolsonaro. É como se ele próprio estivesse sendo atacado. Roberto Jefferson não deixa pedra sobre pedra.

Não importa se estamos contra ou a favor de Bolsonaro, se gostamos ou não de Roberto Jefferson como político. Deixemos um pouco de lado essas preferências ideológicas. Tomemos consciência de que existe vida além desses envolvimentos partidários. Pelo menos por alguns instantes, aproveitemos a oportunidade para aprender um pouco mais de comunicação com esse que é um dos maiores oradores do país dos últimos tempos.

Comecemos a pesquisar na internet e vamos a assistir aos seus discursos e entrevistas. Analisemos sua postura diante do público, a maneira como imprime um ritmo agradável, alternando o tempo todo o volume da voz e a velocidade da fala. Observemos como as palavras se transformam em um dorso sobre o qual seus pensamentos transitam livremente até os ouvintes. Notemos as pausas, pois elas falam com a expressividade do silêncio. Fiquemos atentos aos argumentos. Vejamos como cada informação se torna uma premissa que será utilizada no final para suas conclusões.

Por enquanto ele elegeu como vítimas o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, o presidente do Senado, David Alcolumbre e alguns governadores e prefeitos. Com certeza, outros virão. Sua metralhadora giratória verbal poderá fazer muito estrago. Para nós, que nos preocupamos com o estudo da comunicação, é importante analisar a qualidade da sua oratória para que possamos aplicar também no dia a dia. Vale a pena.

Alguns oponentes poderão ainda questionar: ah, mas e o aspecto ético? Esse não é um ponto prioritário na oratória? Sim, a verdade, a sinceridade, a ética são os sustentáculos essenciais para quem se apresenta em público. Por isso, vou repetir o que disse há mais de uma década a respeito desse mesmo orador. Uma frase que foi citada com destaque em seu livro:

"Se as suas palavras encontrarem respaldo na sinceridade, poderá ser considerado um dos maiores oradores da nossa história. Se, entretanto, sua mensagem estiver divorciada da realidade, poderá ser considerado apenas um bom ator"

Superdicas da semana

  • Os melhores nunca param de aprender
  • A oratória é a melhor arma para qualquer tipo de combate
  • Quem consegue manter os nervos sob controle enfrenta qualquer adversário
  • Os inimigos e desafetos são os únicos que jamais nos trairão

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Reinaldo Polito