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Reinaldo Polito

Trump vai vencer as eleições

 O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - Nicholas Kamm/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Imagem: Nicholas Kamm/AFP
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

11/08/2020 04h00

A profecia é uma arte inútil.
Carl Sagan

Trump vence as próximas eleições. Uma chamada como essa deixaria os conservadores Republicanos exultantes, e, ao mesmo tempo, provocaria indignação nos opositores Democratas. Sim, porque quando se fala em política, na verdade, em políticos, as reações, de maneira geral, são quase irracionais. O julgamento é feito na base da torcida, não das ponderações.

E não adianta selecionar os melhores e mais equilibrados argumentos. Se o leitor concordar com a tese, quem a concebeu ganha passaporte para o paraíso. Se, entretanto, desgostar quem a lê, seu idealizador vai arder no fogo do inferno. Cai no vazio o alerta de que entre o preto e o branco há um campo cinzento que precisa ser considerado.

Tenho exemplos a minha volta, tanto em família, no círculo social, na vida corporativa, quanto junto aos alunos. São pessoas que sabem do objetivo das minhas análises: sempre buscam na comunicação as explicações para os fenômenos do dia a dia. Nada disso vale. Até nas aulas que ministro há 20 anos nos cursos de pós-graduação em Marketing Político na ECA-USP, onde as questões políticas são o pão nosso de cada dia, as reações também não são lá muito sensatas. Com os leitores desta minha coluna semanal, então, nem preciso dizer. Basta ler os comentários que fazem.

Trump era zebra

Lembro-me perfeitamente de quando Trump "ousou" se candidatar a candidato ao Partido Republicano. A imprensa americana, e a brasileira a reboque, se inflamaram nas críticas. Falastrão, despreparado, tosco, inconveniente, preconceituoso, e uma infinidade de adjetivos que transformariam o mais desqualificado dos homens num lorde quando comparado a ele.

Eu lia aqui, ouvia ali e não conseguia encontrar um comentário sequer que pudesse dar a ele um fiapo de esperança às suas pretensões à Casa Branca. Comentei aqui em um texto "corajoso" o que estava acontecendo e, com mais "topete" ainda, o que poderíamos esperar daquela campanha eleitoral, levando em conta a maneira pouco ortodoxa como ele se comunicava com os norte-americanos. Apanhei como prisioneiro de guerrilha.

Ao participar do primeiro debate juntamente com outros nove pretendentes que pleiteavam ser o candidato dos republicanos, foi massacrado pela imprensa. As pessoas não engoliam seu jeito debochado, irônico, agressivo. Diziam que ninguém levaria a sério esse maluco.

Ele não se dobrava às críticas. Estava disposto a enfrentar o que julgava adequado combater. Sabendo das resistências que encontraria, foi o único a afirmar que não descartava a possibilidade de concorrer como independente, caso não conseguisse a vaga entre os Republicanos. Foi vaiado por isso. E para não fugir à sua própria regra, fez um comentário pra lá de polêmico: atacou a jornalista Megyn Kelly, afirmando que ela o combateu com agressividade porque estava menstruada. As feministas e seus simpatizantes espumaram.

Um jeito diferente de falar

Eu comentei nos meus textos, que estão aqui registrados, que esse jeito diferente de se comunicar, quebrando todas as regras ditadas pelo "bom senso" poderia dar a ele a vitória. Trump fugia da curva e ia ao encontro daqueles que estavam cansados do excesso do politicamente correto, que beirava o mi-mi-mi. E isso antes mesmo de ser escolhido para ser o candidato dos Republicanos. Vieram as pesquisas e ele apareceu com surpreendentes 24% entre os pré-candidatos.

Na sequência analisei os debates em que Trump participou com Hillary Clinton. A partir de avaliações técnicas, considerando apenas os aspectos relacionados à comunicação, mostrei que ele estava vencendo os confrontos e poderia ganhar as eleições. E a imprensa, quase sempre torcendo pela sua derrota, dizia que a ex-primeira-dama já estava com a vitória assegurada.

Fiz uma aposta com meu amigo César Souza, um dos mais competentes consultores e palestrantes do país - um bom vinho. Eu apostei no Trump, e ele na Hillary. Até hoje ele me diz: fui dormir com o vinho nos braços e a Hillary eleita, mas acordei sem o vinho e com o Trump como presidente. Assim como a imprensa americana, ele disse que Trump não aguentaria três meses na presidência. Aproveitei para apostar na reeleição.

Tudo como dantes

Agora a situação é muito parecida. A imprensa criticando o presidente norte-americano, atitude recorrente desde que se candidatou há mais de quatro anos, e as pesquisas dizendo que os Democratas estão na frente. Sinto que mais uma vez os comentários e o levantamento de aceitação estão apoiados mais na torcida que na realidade. O líder estadunidense continua falando para a massa silenciosa que concorda com a sua mensagem.

Em todos esses anos à frente da presidência, Trump foi pressionado pela oposição e pela imprensa diuturnamente. Estavam fazendo acusações e pedindo seu impeachment o tempo todo. Assim que era inocentado num caso, lá vinha nova bordoada para desgastá-lo. E, na maior parte das vezes, o objetivo era esse, pois com a maioria do Senado formada por Republicanos não havia como ser derrotado.

Há pendências que poderão atuar como verdadeiras cascas de banana para o mandatário norte-americano, como, por exemplo, a quebra de braço entre os Democratas e Republicanos para tentarem o protagonismo na ajuda aos desempregados pela pandemia. Quem está no governo toma cuidado para que a economia não seja abalada. Por outro lado, os Democratas, que estão fora do poder, sempre apregoam que os recursos disponibilizados nunca são suficientes.

Sem nos esquecermos também desse verdadeiro jogo de xadrez que são os embates constantes entre americanos e chineses. Cada lado tem esticado a corda até o limite do confronto, depois recuam. Ninguém pode prever, entretanto, se haveria ou não um vacilo nas negociações. Dependendo do resultado, poderia ser fatal para as pretensões de Trump. Pela forma como tem agido, demonstra saber quais são essas fronteiras.

Obama é mais orador

Obama foi, e ainda é, sem dúvida, melhor orador que Trump. O ex-presidente sempre se apresentou de maneira elegante, com argumentos sólidos e desempenho impecável. Vira e mexe aparece alguém ensinando técnicas de oratória a partir dos exemplos de Obama. Eu mesmo escrevi aqui nesta coluna diversos textos a respeito da sua comunicação.

Havia nos Estados Unidos, todavia, uma faixa do eleitorado que aspirava por mudanças, algo diferente do que Obama defende. E Trump encarnou esses anseios. Não que dissesse sem convicção aos eleitores o que eles apenas desejavam ouvir. No pleito da população há um leque abrangente de desejos. O presidente elegeu nesse amplo pacote os aspectos considerados prioritários.

Dessa forma, usando a habilidade oratória e essa competência para fazer uma leitura perfeita do que movimentava e ainda movimenta a vontade dos eleitores, Trump direciona seus discursos, às vezes agressivos e até inconvenientes, para o coração dos norte-americanos. Por isso, mais uma vez, deve vencer as próximas eleições.

Ninguém precisa concordar ou discordar. As eleições americanas estão aí, batendo às portas. Em pouco tempo saberemos o resultado. Se eu errar, pago o vinho para o meu amigo Cesão e reconheço que falhei. Afinal, tantos erraram nas eleições dos Estados Unidos, e a partir de contorcionismos retóricos tentaram explicar o inexplicável. Para mim, com tantas informações adversas talvez seja mais simples. A ver.

Superdicas da semana

  • As regras servem para ajudar, não para escravizar
  • Às vezes o melhor caminho é aquele que foge dos trilhos
  • As pesquisas são um retrato não um filme
  • Quem torce tem dificuldade para analisar

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Reinaldo Polito