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Reinaldo Polito

Foto eloquente da Folha foi um argumento persuasivo

Deputado Fernando Lyra - Agência Folha
Deputado Fernando Lyra Imagem: Agência Folha
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

23/02/2021 04h00

Pinta-me como sou. Se omitires as cicatrizes e as rugas, não te pagarei um xelim!
Oliver Cromwell

Uma enorme coincidência! Fiquei muito surpreso quando soube que a Folha estava aproveitando a comemoração dos seus 100 anos de existência para lançar uma coleção de livros: "Coleção 100 anos de fotografia pelas lentes da Folha". Uma seleção das melhores fotos que estamparam suas páginas ao longo de um século.

Conheço bem o arquivo fotográfico da Folha. Há mais de 30 anos eu tive de passar dias inteiros nas dependências do jornal, revirando fotografias nas centenas de pastas separadas por datas. Naquela época eu estava publicando meu segundo livro, "Gestos e postura para falar melhor", uma obra totalmente ilustrada com fotografias das mais importantes personalidades da nossa história.

A história contada por fotos

Foram meses de pesquisa. Como resolvi escolher pessoas diferentes para ilustrar cada gesto indicado pela técnica, a tarefa foi árdua, pois não havia computador, portanto, nada de banco de imagens. Pelos meus cálculos, pesquisei mais de 200 mil fotos. O resultado foi excelente. No livro é possível observar fotos que chegam a contar um pouco da nossa história política.

Vemos ali, em momentos expressivos revelados pelas fotos, Leonel Brizola, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros, Juscelino Kubitschek, Franco Montoro, Luiz Carlos Prestes, entre dezenas de outros. Talvez não exista uma figura de destaque das últimas décadas que não esteja no livro. Valeu a pena a dedicação. Já, já revelo porque comecei dizendo que o lançamento do livro da Folha agora é uma enorme coincidência.

Uma surpresa desagradável

Antes quero contar uma história curiosa: como uma foto da Folha salvou um importante evento que realizei. Nós fazíamos solenidades de formatura para os alunos que concluíam o nosso curso. Eram festas pomposas, muito bem organizadas, que recebiam centenas de convidados. Sempre escolhíamos alguém muito conhecido e bom de oratória para ser o paraninfo.

Precisava ser muito bom de microfone, porque não ficava bem levar um paraninfo que tivesse deficiências de comunicação. Por isso, selecionávamos essa pessoa com bastante antecedência. Ocorre que em um dos eventos o paraninfo roeu a corda em cima da hora e, dois dias antes, disse que não poderia comparecer. Era quinta-feira à noite, e a formatura seria no domingo pela manhã.

O momento era desesperador. Tudo organizado e sem a figura principal que era o paraninfo. Fui para o telefone e comecei a fazer os contatos. Encontrar alguém qualificado para aquela função era praticamente impossível. Ainda que a pessoa estivesse com a agenda liberada, sabia que tão em cima da hora só podia ser para tapar um buraco.

Depois de dezenas de tentativas, fiz uma ligação para o gabinete do deputado federal por Pernambuco Fernando Lyra. Ele havia sido Ministro da Justiça e era um orador de primeira linha. Para minha surpresa, atendeu o próprio deputado. Quase um milagre encontrar um deputado em seu gabinete numa sexta-feira. Eu disse rapidamente do que se tratava, e que nos sentiríamos honrados com sua presença como paraninfo.

Quem vou substituir?

Muito experiente, ele perguntou: professor, quem eu vou substituir? Se eu dissesse que ele estava com a razão, com certeza não aceitaria. Também não podia mentir. Por isso, eu disse a verdade que podia ser contada: Ministro, nós o consideramos um dos mais competentes oradores do país. Se, por acaso, não pudermos contar com a sua presença, preferimos fazer a solenidade sem paraninfo.

Como bom político, ele não recusou no momento, mas preparou o terreno para fazer a negativa. Ele disse: vou ver como estão os meus compromissos em São Paulo e darei a resposta o mais rápido possível. Pedi a ele, então, que me desse o endereço, pois queria enviar um material que o deixaria muito satisfeito. Ele estar em São Paulo naquele fim de semana foi outro milagre, já que era de Recife.

A foto foi sedutora

Enviei para o local onde ele estava hospedado um exemplar do livro "Gestos e postura", sugerindo que ele olhasse a página 130. Eu sabia que ficaria muito bem impressionado, pois ali estava uma foto dele de página inteira, falando numa tribuna de maneira eloquente. Provavelmente a melhor foto dele como orador. Um espetáculo!

No sábado, véspera do dia da formatura, ele me telefonou dizendo que aceitaria o convite com muito prazer. Lyra começou o seu discurso dizendo que havia hesitado muito antes de aceitar o convite: domingo, o único dia livre que tenho para passar com a família. Acho que não vou aceitar. Mudou de ideia quando abriu o livro e viu a foto. Comentou ainda que aquela solenidade havia sido um dos momentos mais felizes da sua vida.

A coincidência

E a coincidência? Depois de 23 edições bem-sucedidas, no ano 2000, pedi a editora que interrompesse a publicação, pois pretendia fazer uma revisão e atualização completa do livro. Por um ou outro motivo, não fiz as mudanças que pretendia. Sabia que seria muito trabalhoso, e estava constantemente envolvido com outros projetos editoriais.

Agora na pandemia, passados 20 anos, resolvi arregaçar as mangas e revirar o livro de cabeça para baixo. Ficou pronto agora, exatamente na época em que a Folha faz o lançamento da sua coleção de livros fotográficos. Eu me lembrei de algumas das fotos mostradas na publicidade da coleção. Voltei àqueles momentos em que me lançava à aventura de escrever o livro.

Até hoje, é o único livro específico ensinando gestos e postura para falar em público. Há outros que falam sobre gesticulação e postura, mas não dedicados apenas a esse tema. Tenho certeza de que vou ler os livros da Folha e me emocionar muito ao me deparar com as fotos que passaram pelas minhas mãos durante aquela fase de pesquisa.

O livro está na editora pronto para a revisão. Quando a 24ª edição for publicada, eu aviso.

Superdicas da semana

  • Quando tudo parecer perdido, tente mais uma vez
  • Se não der certo, havendo tempo, tente mais uma
  • Os argumentos podem surgir de onde menos esperamos
  • A verdade é o mais eficiente de todos os argumentos
  • A oratória pressupõe sempre a verdade
  • Se não for verdade, não é oratória, é teatro

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Comunicação a distância", Gestos e postura para falar melhor", "Oratória para advogados", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "Assim é que se Fala", e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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