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Reinaldo Polito

Como o jogo de xadrez me ajudou na carreira

Jogo de xadrez - iStock
Jogo de xadrez Imagem: iStock
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

02/03/2021 04h00

Imagem da tática militar. Todos os bons capitães eram fortes no xadrez. Sério demais para jogo, fútil demais para ciência.
Flaubert

Você já assistiu à série "O Gambito da Rainha"? Se assistiu, e for como a maioria, deve ter se apaixonado pela história. Se não assistiu, ainda que não saiba nada sobre xadrez, precisa assistir. E mais, se não for iniciado nesse jogo, após acompanhar a série, muito provavelmente passará a ser praticante. O aumento na procura pelos tabuleiros e pelos jogos online multiplicou de maneira impressionante nos últimos tempos.

Embora não seja bom jogador, gosto muito de xadrez. Se não por outro motivo, porque esse jogo me ajudou a entrar no mercado de trabalho. A história é curiosa. Eu cheguei de mudança de Araraquara, no interior do Estado de São Paulo, para a Capital Paulista em 1972. Fazia estágio em estatística e econometria no Instituto de Economia Agrícola, quando vi no jornal um anúncio de uma empresa do setor financeiro. Procuravam estagiários.

Como não tinha nada a perder, fui lá ver do que se tratava. Meus olhos brilharam quando soube que o salário que pagavam era o dobro do que eu recebia no outro estágio. Além disso, havia gordas comissões por negócios realizados. Pensei: era tudo o que eu precisava na vida. O dinheiro que recebia era contadinho. Dava para pagar a faculdade, a pensão e as conduções. Não sobrava um tostão. Nada. Se eu tivesse de pagar um sanduíche extra, já estourava o orçamento.

O xadrez me abriu as portas

Para ser admitido, era preciso ter algum conhecimento de matemática financeira e passar por uma entrevista. Foi nesse momento que o xadrez me abriu as portas para aquele mercado de trabalho. O entrevistador pediu que eu falasse durante uns dois minutos sobre o meu hobby.

Naquela época, eu estava acompanhando com muito interesse o campeonato mundial de xadrez. Bobby Fisher acabara de ser campeão em cima do russo Boris Spassky. O mundo estava encantado com aquele jovem irreverente que havia desbancado os russos naquele jogo que até então, para eles, não havia concorrência.

Falei das partidas, das aberturas e finais espetaculares do norte-americano, de como todos estavam maravilhados com sua forma diferente e natural de jogar. Eu sabia tudo a respeito das disputas. Comentei sobre as vitórias, as derrotas e os empates. As informações brotavam de maneira muito espontânea da minha boca. Passei do tempo. Devo ter falado uns cinco minutos.

O objetivo era me testar

Ocorre que o objetivo do Marco Antonio Rodrigues, o entrevistador, ia além de verificar se eu era um jovem articulado e comunicativo. O que ele desejava saber é como eu reagiria diante das situações adversas.

Por isso, assim que terminei de falar, ele ficou em silêncio por algum tempo e me fulminou com um comentário provocativo: eu acho esse joguinho muito chato. Uma tremenda perda de tempo. Coisa de gente que não tem o que fazer na vida. Em seguida permaneceu em silêncio para ver como eu reagiria.

A vida é curta demais para xadrez
James Byron

Percebi logo que se tratava de um teste. Dificilmente alguém teria uma opinião tão distorcida sobre o xadrez. Pensei, não posso concordar com ele, mas preciso ser jeitoso no comentário. Com a tranquilidade que pude encontrar naquele momento, pois as pernas estavam trêmulas, eu disse mais ou menos o seguinte:

Não sei se já teve oportunidade de jogar xadrez alguma vez. Antes de conhecer as regras e jogar as primeiras partidas, minha opinião era bem parecida com a sua. Eu via aquelas pessoas sentadas durante horas em frente ao tabuleiro e pensava: deve ter coisa mais importante para esse pessoal fazer.

Depois que comecei a ter contato com o jogo, descobri que eu estava equivocado. Ele exercita o raciocínio, aumenta a capacidade de concentração e desenvolve a habilidade de planejamento. Quem não souber calcular, quem não vislumbrar as armadilhas que deverá enfrentar, será derrotado.

Sinto que depois de começar a jogar e acompanhar os jogos, como esse campeonato mundial, passei a estudar melhor o que poderia acontecer comigo em cada decisão que tomo. O resultado foi impressionante. Estar aqui hoje nessa entrevista, por exemplo, tem a ver com esse planejamento. Fui sincero na minha resposta. Era exatamente o que eu pensava.

Ele sorriu e me disse: temos dezenas de jovens sendo entrevistados. Todos estão aguardando resposta para saber se serão ou não admitidos. Vou antecipar minha decisão para o seu caso. Você está contratado, e acho que vai se sair muito bem aqui conosco. E foi mesmo um período de muito aprendizado e crescimento profissional.

Mais uma curiosidade, há alguns anos ele me procurou para fazer o curso de oratória comigo. Ou seja, além de um belo emprego, o xadrez me arrumou um aluno.

Retomei os estudos

Agora, com essa nova febre pela procura do xadrez, após o sucesso da série "O Gambito da Rainha", voltei aos meus estudos pelo jogo, e me lembrei daqueles momentos difíceis, de incertezas e procura quase desesperada para tentar me estabelecer numa cidade que me era desconhecida e tão desafiadora.

Além dos livros, todos podem hoje recorrer à internet, que não existia naquele tempo. Independentemente de ser ou não um bom jogador, de ganhar ou perder as partidas, o xadrez é fascinante. Para você, que ainda não começou a jogar, ou para você, que já é um aficionado deste jogo, vou dar aqui algumas sugestões.

Comece a estudar

Para começar compre um livro de xadrez. Nessa primeira fase qualquer um vai servir. Todos eles ensinam as regras básicas, como funcionam os movimentos das peças, as noções de abertura, meio jogo e finais. Depois dessa primeira fase, poderá estudar livros específicos de cada uma das etapas do jogo. Com calma, sem pressa, bem no passo a passo.

Em seguida, ou melhor, simultaneamente, acompanhe alguns blogs especializados em xadrez. No YouTube irá encontrar uma infinidade deles. Eles reproduzem jogos e comentam jogada por jogada, mostrando em que momento um ou outro jogador errou, acertou, e, principalmente, qual deveria ter sido a iniciativa mais adequada.

Como sugestão, acompanhe o blog do Raffael Chess. É um jovem do Rio Grande do Sul muito inteligente, comunicativo e bem-humorado. O Raffael é transparente. Se ele ganha uma partida, vibra e comemora sua façanha. Se ele perde, mostra as falhas que cometeu e elogia o adversário pelos acertos.

Pouca gente sabe que Machado de Assis, o grande escritor, gostava muito de jogar xadrez. O Raffael me prometeu que vai reproduzir e comentar todos os lances de uma das partidas do fundador da Academia Brasileira de Letras. Estou aguardando ansiosamente. Tomara que possamos assistir juntos.

Superdicas da semana

  • Dedique-se a um jogo que exija raciocínio, como o xadrez, por exemplo
  • Se for confrontado com opiniões adversas, procure reagir com calma
  • Ao rebater uma crítica agressiva, procure argumentar contra a ideia, não contra a pessoa
  • Reserve parte do seu tempo para se dedicar a um hobby
  • Vive melhor quem consegue dividir o tempo para o trabalho, a família e um hobby

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Oratória para advogados", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Assim é que se Fala", e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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