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Reinaldo Polito

Por que CPI da Covid quer que os depoentes respondam com sim ou não?

Senador Renan Calheiros (MDB-AL) discursa na CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
Senador Renan Calheiros (MDB-AL) discursa na CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

01/06/2021 04h00

A pergunta formulada por um sábio traz metade da resposta.
Shlomo Ibn Gabirol

Entre os trabalhos que desenvolvi nesses 45 anos como professor de oratória estão os treinamentos e cursos ministrados àqueles que precisaram prestar depoimentos em CPIs. Por mais poderoso e experiente que pudesse ser o depoente, nesses momentos quase todos se sentiam muito fragilizados.

Em muitos casos, se não tivessem se submetido aos exercícios simulados, mesmo sendo inocentes, teriam se comportado como se culpados fossem. Portanto, sei bem qual é o sentimento de quem está sentado ali naquela cadeira.

Acompanhar a CPI da Covid tem sido o programa de muitos brasileiros. Eles dedicam boa parte do seu tempo para observar com interesse o desenrolar das sessões. Como os atritos entre os participantes são frequentes, para alguns as reuniões até funcionam como entretenimento.

Em matéria publicada na Folha de São Paulo (27/05), Carolina Moraes e Isabella Menon comentam: CPI da Covid atrai público que ficou órfão do BBB e decola na era da 'política pop'. País parou para saber quem é o responsável pelo cenário da pandemia como num crime que se desvenda.

Um grande vacilo

Como o governo não acreditou na instalação da CPI, vacilou na indicação de seus membros, e deixou por conta da oposição os cargos mais importantes. A presidência está com o senador Omar Aziz (PSD-AM), a vice-presidência com o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) e a relatoria com o senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Dos onze membros da comissão, apenas quatro são governistas. Com essa exposição ostensiva, a oposição fez da CPI um verdadeiro palanque político. Decidem quem serão os depoentes e a forma como serão arguidos. Ainda que queiram demonstrar imparcialidade, a maneira como tratam os convocados deixa claro suas intenções.

Habeas corpus

A forma como o ex-secretário Especial de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten foi pressionado durante o seu depoimento, até com ameaça de prisão, acendeu uma luz amarela. Tanto que o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello e a secretária deste mesmo ministério, Mayra Pinheiro, tiveram o cuidado de se resguardar munidos de um habeas corpus.

Muitos pensaram que essa iniciativa foi tomada porque estavam com intenção de ficar em silêncio. Para surpresa da maioria, responderam a todas as perguntas formuladas. O habeas corpus funcionou como um tipo de freio para que fossem mais respeitados. Mesmo assim, em certos momentos, os senadores partiram para cima, exigindo que as respostas fossem dadas, segundo o senador Marcos Rogério (DEM-RO), "de acordo com a conveniência deles".

O viés do depoente

Aí entra um aspecto extremamente relevante nas perguntas formuladas. Todos aqueles que de alguma maneira estavam aliados à oposição foram tratados com muita cortesia e amabilidades, como, por exemplo, o diretor do Instituto Butantã, Dimas Covas. Nesses casos, todos puderam dar as respostas sem interrupções.

Ao contrário, quem é visto como favorável ao governo sofreu uma espécie de interrogatório, como, por exemplo, a secretária do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro. Esses convocados não tiveram vida fácil, pois assim que iniciavam as respostas eram interrompidos pelo presidente ou pelo relator. Em certas ocasiões até com agressividade.

Sim ou não?

Algumas pessoas estranharam o fato de os senadores, especialmente o relator, exigirem que os depoentes respondessem às perguntas de maneira objetiva, com sim ou não. Praticamente todos se recusaram a dar esse tipo de resposta simplificada. Primeiro porque estavam muito bem preparados para dar explicações dentro do contexto de cada questionamento, depois porque se atendessem a esse pedido, cairiam em uma armadilha.

Há situações em que uma resposta dada sem contexto irá incriminar o depoente em qualquer hipótese. Sem entrar no mérito das perguntas, mas apenas para exemplificar. Se o senador perguntasse: o senhor avisou o presidente de que ele havia falhado nas aquisições das vacinas?

Observe que esse questionamento se constitui em um tipo de dilema, que é um argumento com duas proposições contrárias, que se tornam condicionais e se juntam para chegar à conclusão pretendida.

Uma resposta comprometedora

Se a resposta fosse sim, ele estaria concordando com o fato de o presidente ter falhado. Se, ao contrário, dissesse não, estaria confirmando as duas falhas, a do presidente, e a dele por não ter avisado do erro. Para evitar essa arapuca é preciso contextualizar as informações, tomando o cuidado de explicar que o presidente não havia falhado, e que por isso não precisava ter sido avisado.

Com características semelhantes foram formuladas várias perguntas. Os senadores contavam com o nervosismo natural dos depoentes para que dessem uma resposta comprometedora. Devido ao preparo e boa dose de tranquilidade, não se deixaram levar. Essa atitude segura chegou a perturbar tanto o relator quanto o presidente.

Todos nós em algum momento da vida podemos ter de passar por situações que exijam preparo e segurança. Os questionamentos das bancas avaliadoras nas defesas de dissertações de mestrado, teses de doutorado, disputas de cátedra requerem que o candidato esteja pronto para esses desafios. Na vida corporativa, ao defender um projeto ou uma proposta, da mesma maneira a preparação será sempre fundamental.

Em todas as situações, cuide com antecedência dos mínimos detalhes para que possa se sentir seguro e estar atento às pegadinhas. Sempre pode aparecer alguém querendo colocar cascas de banana no nosso caminho.

Superdicas da semana

  • O preparo é o melhor recurso para dar boas respostas
  • Explicar o contexto evita as armadilhas
  • Nem sempre uma pergunta deve ser respondida com sim ou não
  • Por mais agressiva que seja a pergunta, a resposta pode ser sempre com equilíbrio

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante.

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