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Reinaldo Polito

Antevi que havia algo errado com o presidente só observando sua comunicação

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

14/07/2021 18h35

Nem por ter olhos se é necessariamente um observador.
Marie Von Ebner-Eschenbach

Algumas pessoas me escreveram surpresas com o texto que publiquei ontem nesta coluna sobre o presidente Bolsonaro. O título foi: Bolsonaro está por um fio, a ponto de explodir. Como a maioria sabe que escrevo meus textos no final de semana, não se conformavam como pude antever o que ocorreria com o chefe do Executivo. Na madrugada desta quarta-feira, ele precisou ser internado.

Chegaram a dizer que eu possuía informações privilegiadas sobre o estado de saúde dele, e que por isso pude relatar o que aconteceria. Não foi nada, nadinha além do que pude observar na comunicação do presidente ao longo da semana. Na quinta-feira, em particular, estava longe de ser o Bolsonaro de sempre.

Estava estranho

Ele, que é sempre vibrante e entusiasmado, teve uma participação quase apática na 58ª Cúpula do Mercosul, sem nenhum tipo de motivação. Leu o texto no teleprompter como se cumprisse uma tarefa penosa, só por obrigação. Em determinado momento, até cometeu um equívoco inusitado, em vez de dizer "durante a presidência do Mercosul", disse "durante a pandemia do Mercosul".

Ninguém pode tirar conclusões apenas por uma simples observação, mas senti que havia algo errado na sua maneira de se expressar. No mesmo dia, durante a live, tive certeza de que ele estava com algum problema. Ficou evidente o seu desconforto quando passou a esfregar nervosamente as mãos, fugir com os olhos, gaguejar, ter dificuldade para encontrar as palavras e concluir as frases.

Quem assiste às suas lives sabe que ele gosta "de jogo". Sempre tem um assunto extra para abordar ou um comentário adicional a fazer. Nesse dia, não. Pedia para que passassem rapidamente as perguntas formuladas pelos jornalistas da Jovem Pan e deixou quase todas para que outros que o acompanhavam respondessem. Queria encerrar depressa.

Deu sinais claros

Em vista de todos esses sinais, não tive dúvida em afirmar que o presidente não se sentia bem, que estava por um fio, a ponto de explodir. As pressões que tem recebido ultimamente da oposição, da mídia, da CPI, com constantes acusações, poderiam ter tirado o seu norte.

Pela dificuldade de respiração, pela tosse recorrente, imaginei que pudesse também ser um problema nos pulmões. Não era nos pulmões, mas hoje veio a notícia oficial de que eu estava certo em minhas observações sobre o seu estado de saúde precário.

Após ter realizado exames no HFA em Brasília, o Dr. Macedo, que foi o responsável pelas cirurgias no abdômen a que Bolsonaro se submeteu devido ao atentado ocorrido em 2018, ao constatar uma obstrução intestinal, resolveu transferi-lo para São Paulo. Ali fará outros exames para confirmar se será ou não necessário se submeter a uma cirurgia.

Podemos observar

Portanto, se nós ficarmos bem atentos às mudanças de comportamento das pessoas, será possível verificar se há atitudes estranhas, que não costumam ocorrer normalmente, e avaliar com boa margem de acerto o que poderia estar ocorrendo.

No meu caso, até foi bastante simples, pois como eu disse no texto, já escrevi 38 artigos analisando a sua comunicação. Sei quando ele está seguro, confiante em suas apresentações, ou quando demonstra fragilidade ao se expressar em público. A forma como estava agindo ia além de qualquer tipo de conduta corriqueira. E com demonstrações evidentes de que estava a um passo de estourar.

Concluí o texto dizendo: "Vamos acompanhar o que irá ocorrer nos próximos dias". Não precisamos esperar tanto assim. Na verdade, apenas um dia. Tomara que se recupere logo e que tudo não passe de mais um susto, como tantos outros que conseguiu superar. Seu passado de atleta pode ajudar muito em qualquer processo de recuperação.

Superdicas da semana

  • Se observarmos bem, teremos pistas do que está ao nosso redor.
  • Verificar a mudança no comportamento das pessoas pode nos ser muito útil.
  • Os pais que ficam atentos aos filhos descobrem se eles exigem cuidados.
  • Intuição e capacidade de observação são habilidades que podem ser treinadas.

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar os outros" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela editora Planeta.