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Reinaldo Polito

Cão que ladra não morde: os arroubos de Bolsonaro

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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

31/08/2021 04h00

Enquanto se ameaça, descansa o ameaçado.
Cervantes

Estou com os cabelos arrepiados. Nos últimos 20 anos estive envolvido com estudos estratégicos de comunicação política nas aulas que ministro na pós-graduação em Marketing Político, na ECA-USP. Além disso, há 46 anos preparo candidatos para falar em suas campanhas em todos os cantos do país. Nunca presenciei situação semelhante a esta que estamos vivenciando.

Pela enésima vez Bolsonaro dá o "último aviso". Deu para perder a conta das vezes em que o presidente fez ameaças contundentes, mas ficou só no discurso. Sempre que estufa o peito e solta o verbo seus seguidores ficam animados - agora vai. Mas, vai para onde? Com certeza não pensa em chamar seus desafetos para uma briga de rua. Passa um dia, dois, uma semana, e tudo continua do mesmo jeito, como se ele não tivesse falado nada.

Eu me lembro de alguns valentões que conheci lá no interior. Falavam alto, esbravejavam, diziam que iam bater, mas depois se agarravam em algum amigo implorando: me solta, me solta que agora eu arrebento este desgraçado. Sabiam que a turma do deixa-disso colocaria panos quentes para defendê-los de suas bravatas. Havia também os moleques da escola, que pediam para esperar lá fora para brigar, e depois trocava o portão de saída na hora de ir embora.

Acabou, porra!

A primeira vez em que Bolsonaro vociferou foi com o famoso: "Acabou, porra!", em 28 de maio de 2020. Nessa oportunidade, ele se mostrou indignado com as ordens dadas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, para que a Polícia Federal cumprisse mandados de busca e apreensão em endereços de blogueiros e empresários apoiadores do governo.

E para explicar sua revolta, complementou: "Me desculpem o desabafo. Acabou! Não dá para admitir mais atitudes individuais de certas pessoas, tomando de forma quase que pessoal certas ações". Passado um tempo, e tudo continuou como dantes no quartel-general do Abrantes.

Os bolsonaristas se apressaram em explicar: sabe o que acontece? O Capitão é um tremendo estrategista. Aprendeu isso no exército. Aguarde só para ver. O que ocorreu, entretanto, foi que mais uma vez a tática ficou apenas na cartilha.

Eu autorizo

Em abril deste ano voltou a bravatear. Como ainda não havia cumprido nenhuma de suas advertências bombásticas, mais uma vez conclamou a população: "Estou aguardando o povo dar uma sinalização". E de novo explicou: "O Brasil está no limite". Pois é, no dia 1º de maio as pessoas foram às ruas em grande manifestação, com o grito na garganta: "Eu autorizo, eu autorizo".

Parece que até o próprio Bolsonaro se surpreendeu. Pela forma como se comportou, dava a impressão de dizer: peraí, vocês não levaram a sério essa história de pedir autorização, né? Nunca ouviram falar em força de expressão?! E para não ficar chato, renovou o contrato: "Vamos dar o último aviso". E como quem não quisesse deixar dúvida, alertou que dessa vez o contingente deveria ser absolutamente gigante, o maior já visto na história do Brasil.

7 de setembro

A turma comprou a briga e está se mobilizando para 7 de setembro. Parece que o encontro na Paulista será impressionante. Aí é que está o problema. E depois, o que o presidente vai fazer? Pegar um cabo e um soldado e bater na porta do STF dizendo: meninos, desocupem a área e vão procurar sua turma? Vai fazer um novo desfile de blindados em frente ao Palácio do Planalto? Bater na porta do Congresso e intimar para que abandonem seus cargos porque uma nova galera vai montar acampamento nesse território?

Não me parece que apesar de constitucional as Forças Armadas estejam tão dispostas a aplicar o artigo 142, que tem sido cantado em prosa e verso por boa parte dos apoiadores do governo. Se após uma manifestação monstruosa Bolsonaro não fizer nada, não vai adiantar dizer que, como joga dentro das quatro linhas da Constituição, precisará de um "novo aviso" da população às vésperas do Natal.

Ou vai ou racha?

Ao que tudo indica, por isso, dia 7 de setembro parece ser mesmo o último aviso, mas não para o STF ou para o Congresso, mas sim para o próprio Bolsonaro. Os acontecimentos levam a crer que não haverá final com meio-termo, e este momento talvez represente para o chefe do executivo um verdadeiro ou vai ou racha.

Se mais uma vez só ladrar, mas não morder, o desânimo da tropa poderá se transformar no seu próprio epílogo. Se não tiver como agir após a manifestação, a falta de iniciativa talvez seja vista como sinal de frouxidão e impotência. Por mais vontade que alguém possa ter para seguir a voz de comando do presidente, dificilmente terá ânimo para continuar.

Se "fraquejar", pode pegar o quepe, arrumar a vara de pescar, a bateia, e se preparar para novos desafios menos perigosos e estimulantes às margens do Rio Ribeira lá na sua Eldorado Paulista. O fracasso demonstrará que tomou decisões impulsivas, sem a devida reflexão.

Por outro lado, se tiver um coringa na manga, além do panorama que se vislumbra à primeira vista, e souber como aproveitar o clamor das ruas, sairá vitorioso dessa empreitada. Nesse caso, já poderia mandar tirar a faixa da gaveta, alisar os amassados e se preparar para recolocá-la no peito para nova posse.

Só mais um detalhe. Aprendi já no primeiro ano da faculdade de Ciências Econômicas, uma das minhas graduações, que deveria ficar atento ao ceteris paribus, ou seja, será assim se tudo continuar como está. Com a política se dá o mesmo. Tudo o que discutimos até aqui poderá ocorrer se nenhum detalhe do quadro atual for mudado. Por isso, pode ser que sim, pode ser que não e pode ser talvez.

Falta pouquíssimo tempo para fazermos essa constatação. O país inteiro, tanto os governistas quanto os oposicionistas, está de olhos atentos para o desenrolar das próximas ações. O próprio presidente disse: "Tenho três alternativas: estar preso, ser morto ou a vitória". Eu estou apreensivo, e você?

Superdicas da semana

  • Se pretende fazer, não ameace
  • Quem ameaça e não faz, perde autoridade e respeito
  • Se não puder cumprir, não prometa
  • Não coloque nas costas um fardo acima de suas forças

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar os outros" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela editora Planeta.

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