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Reinaldo Polito

Muitos dizem ser conservadores ou progressistas sem saber o que é isso

Manifestação do PT na Avenida Paulista  - Leonardo Martins/UOL
Manifestação do PT na Avenida Paulista Imagem: Leonardo Martins/UOL
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

12/10/2021 04h00

O princípio moral das revoluções é instruir, não destruir.
Thomas Paine

Nunca se falou tanto nos conservadores e nos progressistas. Muitos dizem pertencer a uma ou outra corrente sem ter noção clara do seu conceito. Algumas pessoas não gostam de ser rotuladas em uma ou outra condição. Tanto que, quando indagadas se são progressistas ou conservadoras, respondem com uma pergunta que demonstra a dificuldade de explicar seu significado:

Mas o que é ser conservador ou progressista para você? Se for a defesa de princípios éticos, familiares, religiosos, morais, sim eu sou conservador. Mas se esses valores estiverem do outro lado, também posso ser chamado de progressista.

Edmund Burke e Thomas Paine

Uma das possibilidades de análise dessa questão, ainda que como outras também possa ser contestada, é o estudo comparativo entre o pensamento de Edmund Burke e Thomas Paine. Para isso teríamos de retroceder ao final do século 18, época da Revolução Francesa e da Revolução Americana. Foi nesse período que surgiram as sementes do que hoje se conhece como pensamento conservador e progressista.

Há um livro que explica de maneira clara as diferenças entre esses dois pensadores, "O grande debate", de autoria de Yuval Levin. Nessa obra o autor mostra as principais diferenças na maneira de pensar entre Burke e Paine. Demonstra a partir dessa análise como surgiu o pensamento conservador e o progressista.

O conservador

Edmund Burke é considerado por muitos como sendo o pai do conservadorismo moderno. Ele nasceu em Dublin, na Irlanda, em 1729, e faleceu em Beaconsfield, na Inglaterra, aos 68 anos, em 1797. Atuou como filósofo, escritor e político. Como deputado na Inglaterra defendeu a autonomia das 13 colônias, célula inicial dos Estados Unidos, assim como esteve ao lado das ideias de liberdade da Irlanda e da Índia.

Foi um severo crítico da Revolução francesa. Ele não concordava com o processo de ruptura utilizado pelos franceses para estabelecer uma nova ordem. Apresentou suas ideias em várias publicações, sendo a mais conhecida "Reflexões sobre a revolução na França", editada em 1790. Winston Churchill diz que nessa obra estão os conceitos fundamentais para servir de orientação ao conservadorismo em qualquer época.

Para Burke, de maneira bastante resumida, o conservadorismo deveria se apoiar em três pilares fundamentais:

Respeito às tradições - para ele, a experiência e o conhecimento adquiridos pelas gerações passadas teriam de ser aproveitados nos processos de mudanças. Não concordava com as rupturas radicais.

Organicismo - Burke defende que as questões coletivas devem prevalecer sobre os interesses individuais. Uma de suas frases mais célebres nos ajuda a compreender sua visão a respeito desse tema: "O indivíduo é tolo, mas a espécie é sábia".

Ceticismo - Para Burke é preciso existir o ceticismo político, desconfiar do excesso de ideias, de teorias e dessa vontade desenfreada de impor princípios abstratos na realidade. O grande erro está no fato de imaginar que ao estabelecer teoricamente uma sociedade perfeita, esses conceitos poderiam ser aplicados na prática.

O progressista

Thomas Paine nasceu em Thetford, na Inglaterra, em 1737, e faleceu em Nova Iorque, em 1809. Foi político, revolucionário e considerado um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos. Durante algum tempo manteve bom relacionamento com Edmund Burke e chegaram a se encontrar algumas vezes. Com seu espírito irrequieto participou das revoluções francesa e americana.

Paine foi um liberal democrata, que se contrapôs às ideias de Burke. Defendia o imposto de renda sobre a herança. A arrecadação desse imposto comporia um fundo que proporcionaria renda básica para todas as pessoas acima de 21 anos, independentemente da condição social ou econômica de cada uma.

Defendia também a atuação do Estado para garantir a sobrevivência das pessoas. Afirmava que tendo o que comer, o que vestir e onde morar podiam aproveitar de maneira mais plena sua liberdade. Entre as causas que advogava estavam a liberdade econômica, a abolição da escravidão, os direitos individuais, o livre-cambismo e a propriedade privada.

Paine responde a Burke

Em 1791, um ano após o lançamento da obra de Burke, Paine dá uma resposta com a publicação do livro "O direito do homem". Ele combate os principais pontos defendidos por aquele que se tornara o seu grande oponente intelectual. Defende a ideia de que os homens não são escravos das gerações passadas, como defendia Burke.

Para entender a diferença entre os dois pensadores, podemos recorrer à explicação dada por um historiador francês chamado Pierre Manin. Ele diz que Thomas Paine é um liberal mais à esquerda que um liberal poderia ser, mantendo-se como liberal; e que Edmund Burke é um liberal mais à direita que um liberal poderia ser, mantendo-se liberal.

Superdicas da semana

  • O liberal conservador deseja mudanças sem perder de vista as conquistas das gerações passadas
  • O progressista deseja mudanças a partir da ruptura
  • As bases do conservadorismo são: tradicionalismo, organicismo e ceticismo
  • O liberal progressista deseja a atuação do estado para garantir as necessidades básicas das pessoas

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar os outros" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela editora Planeta.

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