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Reinaldo Polito

Moro sobe no palanque e muda o estilo de se comunicar

Sergio Moro discursa ao oficializar sua filiação ao Podemos em cerimônia em Brasília - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Sergio Moro discursa ao oficializar sua filiação ao Podemos em cerimônia em Brasília Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

11/11/2021 18h06

Nunca melhora o seu estado quem muda somente de lugar, mas não de vida e costume.
Quevedo

Quem imaginava que Moro não tinha cacoete para a política deve ter se surpreendido com o discurso que ele fez nesta quarta-feira, 10, quando se filiou ao Podemos. Era uma incógnita, pois a maioria se lembrava dele como um desastre na oratória. No ministério já havia melhorado um pouco, mas, como juiz, sua comunicação era uma lástima.

Nesse discurso de posse foi outro Moro. Muito mais comunicativo e palanqueiro. Suas primeiras experiências fora do tribunal foram para debater por diversas vezes com os membros do Congresso Nacional. Como naquele momento não estava com intenção de concorrer a nenhum cargo eletivo, nem vamos considerar.

Serviu de treinamento

Se continuasse com a mesma comunicação sem graça da época em que atuava como juiz na primeira instância de Curitiba, não encantaria nem os próprios amigos e familiares. Era ruinzinho demais. A voz de aprendiz de falsete não ajudava muito. Os problemas de dicção, mesmo não comprometendo a compreensão dos ouvintes, indicavam uma linguagem descuidada.

Para um juiz, tudo bem, já que não precisaria correr atrás de votos. Como candidato a algum cargo político, todavia, sua forma de se expressar era sua primeira adversária. Os embates com os deputados e senadores, na época em que foi ministro, serviram como espécie de treinamento para subir nos palanques. Corrigiu alguns aspectos da sua oratória. Soltou mais a voz, gesticulou com firmeza e eliminou o excesso de ruídos nas pausas. Para se candidatar, porém, ainda precisaria de outros aperfeiçoamentos.

Melhorou muito

Parece que se preparou bem. No seu discurso de filiação, Moro foi diferente do que era. Soltou a voz com mais confiança, caprichou na emissão para que não saísse tão agudizada e se esmerou nas pausas. A cada frase completa, fazia silêncio expressivo, dando oportunidade para que o público assimilasse bem suas informações. E mais, ficava em silêncio sem desviar os olhos da plateia. É como se estivesse repetindo, sem fazer uso de palavras, a mensagem importante que acabara de transmitir.

Deixou der lado aquela postura negligente, quase sempre com a cabeça torta, que não demonstrava convicção. Posicionou-se de maneira elegante, sem afetação e sem rigidez. Manteve contato visual com toda a plateia, olhando ora para a esquerda, ora para direita. Sem pressa, sem precipitação. Esse comportamento projetou com firmeza a sua personalidade.

Adequado para a posse

O discurso foi bem pensado. Adequado para um momento de posse. Muitos criticaram porque ele não tocou em temas sensíveis, como, por exemplo, a conduta autoritária do STF (Supremo Tribunal Federal) nos casos de prisões mais recentes. E que ainda não mencionou as questões de corrupção que precisam ser combatidas. Afinal, alguns envolvidos talvez estejam ao seu lado nos palanques da campanha. Não era o momento para esses temas. Terá muitas oportunidades para tratar desses assuntos. Criticou Bolsonaro e Lula de forma discreta, nas entrelinhas.

Vi um Moro renovado, mais incisivo, com a faca nos dentes e disposto a enfrentar de peito aberto essa nova batalha. Se vai decolar ou não, uma infinidade de fatores deverá ser considerada. Por enquanto ainda não foi atacado, nem admoestado.

Vamos ver como se comportará no momento em que os adversários embainharem as espadas e partirem para o confronto. Política não é tribunal. E na hora de pegar o touro com a unha não terá o presidente para abraçá-lo no estádio de futebol diante das torcidas.

Superdicas da semana

  • Todos podem melhorar a comunicação
  • Basta ter vontade e determinação para isso
  • Quando surgir a oportunidade para falar, precisa estar pronto
  • Cada circunstância exige comunicação adequada

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Conquistar e influenciar para se dar bem com as pessoas", "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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