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Reinaldo Polito

Como a imprensa manipulava as campanhas eleitorais no Brasil

Entrevista coletiva - Thomas Coex/AFP
Entrevista coletiva Imagem: Thomas Coex/AFP
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

14/12/2021 04h00

Atrás do jornal, não vemos os escritores, compondo a sós seu artigo. Vemos as massas que o vão ler e que, por compartilhar dessa ilusão, o repetirão como se fosse seu próprio oráculo.
Joaquim Nabuco

Ouvimos, com muita frequência, que a imprensa manipula as informações a favor ou contra este ou aquele candidato. Com certeza, sim. Afinal, por mais isento que pretenda ser um jornalista ou um veículo informativo, até pelo fato de estarem visceralmente envolvidos com as questões políticas, acabam por demonstrar suas preferências.

Mesmo que seja no uso de uma expressão, ou de um rápido e quase imperceptível comentário, nas entrelinhas, revela suas tendências. De maneira geral, não está mentindo quando emite sua opinião, apenas reforça os pontos nos quais efetivamente acredita.

A pluralidade

Ainda que o órgão de imprensa seja plural e preze pela imparcialidade, a "audição seletiva", uma espécie de predisposição, faz com que o leitor, ouvinte, telespectador ou internauta, ao criticar a informação como tendenciosa, observe apenas as notícias contrárias ao seu candidato e favoráveis ao adversário.

Vejo por mim aqui nesta coluna. Durante esses 15 últimos anos em que escrevo regularmente todas as semanas os meus artigos, já fui "acusado" de "mortadela" por uns e "bolsominion" por outros. Basta que a mensagem não seja favorável ao político de sua preferência para que se sinta agredido.

Não respondo a nenhum comentário dos leitores, mas leio todos. Pondero sobre o que escreveram, reflito a respeito do que publiquei e concluo que alguns tiveram razão em suas observações. Pela forma como abordei o tema, pode mesmo ter dado a impressão de que estava defendendo ou atacando este ou aquele candidato. Procuro melhorar sempre.

O Maksoud fechou

Há uma semana recebemos a notícia do fechamento do hotel Maksoud Plaza, local onde vivi grandes emoções. Ali proferi inúmeras palestras, realizei formaturas do meu curso de oratória, e, junto com o saudoso Ruy Leal, pela ONG Via de Acesso, que presido há 18 anos, promovemos anualmente os maiores fóruns de carreira para jovens do país. Foram 14 no total.

E foi ali, em uma de suas salas, que assisti em 1990 a um evento que jamais saiu da minha memória: "Câmera 90". O objetivo do encontro era o de falar de imprensa, jornalistas e entrevistas. O auditório estava abarrotado. Os palestrantes eram Jô Soares, Armando Nogueira, Flávio Gikovate e Belisa Ribeiro, mãe do Gabriel, o pensador. Engraçado que naquela época ele é que era filho da Belisa Ribeiro.

Armando Nogueira era a estrela

Jô Soares estava no auge dos seus shows pela televisão e no teatro. Belisa Ribeiro havia ajudado a planejar a campanha de Collor à presidência. Era admirada por sua competência nas apresentações dos programas jornalísticos de televisão e por sua beleza. Flávio Gikovate, um dos mais destacados psiquiatras do país, abordou um tema que fala de perto à minha atividade profissional: como ele venceu o medo de falar em público.

Armando Nogueira era o palestrante mais aguardado. Havia deixado o cargo de diretor de jornalismo da TV Globo e tinha, com certeza, muitas histórias para contar. Além de ser competente orador, possuía invejável memória e profundo conhecimento sobre os mais diferentes temas, especialmente, lógico, jornalismo. Sua palestra foi um bom contraponto sobre o que sabíamos a respeito das eleições presidenciais de 1989.

Nessas eleições, de um lado houve uma vantagem artificial da mídia para a vitória de Collor. Ao ser entrevistado pela GloboNews, Boni, que foi o todo-poderoso diretor da Globo revelou que a emissora, com suas edições, influenciou o resultado do pleito e favoreceu a vitória de Collor.

A maioria dos jornalistas era petista

Na outra ponta tivemos um depoimento revelador de Armando Nogueira. Ele contou que durante a campanha presidencial, como estava na direção de jornalismo da emissora, precisava ficar de olho nas mensagens dos repórteres. Como a maioria era partidária de Lula, vigiava todas as notícias. Comentou que a cada instante faziam de tudo para dar uma mãozinha ao petista.

Disse, por exemplo, que quando Collor ia a Manaus para cumprir os compromissos de campanha, o fato era noticiado mais ou menos assim: "Collor chega a Manaus a bordo de um jatinho". Enquanto que a chegada de Lula recebia este viés: "Lula chega a Manaus em cima da carroceria de um caminhão". Como se ele tivesse ido de São Paulo até o Norte do país sofrendo naquele transporte.

Portanto, quem pensa que essas preferências da imprensa por um ou outro candidato é novidade dos dias de hoje está enganado. Sempre foi e sempre será assim. Por isso que uma imprensa com posições diversificadas é importante para a avaliação do leitor. Enquanto lê em uma matéria opiniões que talvez favoreçam determinado candidato, ao lado, na mesma página, há outro texto mostrando qualidades do adversário. Cabe a quem lê fazer a sua própria avaliação. Isso é democracia!

Superdicas da semana

  • Nós nos revelamos até nas entrelinhas
  • A opinião plural é importante para que possamos refletir melhor
  • A nossa "audição seletiva" só nos deixa ver o que nos interessa
  • O tempo só muda o jeito de dar nossa opinião, mas nós continuamos os mesmos

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre o tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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