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Reinaldo Polito

Moro está instável com sua oratória

Agência Brasil
Imagem: Agência Brasil
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

21/12/2021 04h00Atualizada em 21/12/2021 06h20

Correr não adianta; é preciso partir na hora.
La Fontaine

Quando nos lembramos de Sérgio Moro como juiz da 13ª vara criminal de Curitiba, vem à nossa mente um orador muito ruim. Ele se expressava com aquela voz de taquara rachada, agudizada e sem graça. Costumava preencher os momentos de pausa com os irritantes éééé, ãããã. Falava de maneira arrastada.

Moro tinha problemas de dicção tão acentuados que, para entender o que dizia, às vezes, era preciso recorrer ao contexto do seu discurso. Suprimia sílabas inteiras de determinadas palavras, como, por exemplo, "coupção", "pobema", "púbico", "pcisa", "criminaização", "profissionaização", "necessaiamente", etc. Ou seja, dava nó na língua e se enrolava para pronunciar o "r" e o "l". Sem falar no famoso "conge" que disse no lugar de "cônjuge".

É preciso esclarecer que as formas pelas quais nos comunicamos são escolhas linguísticas que fazemos. Elas tornam possível nos relacionar de maneira mais adequada e autêntica com as pessoas à nossa volta. A pronúncia clara de uma palavra, nesse sentido, facilita a compreensão da mensagem, evitando ruídos, facilitando o entendimento de quem ouve. Não há certo ou errado. O ponto mais importante aqui é a adequação à circunstância.

A pronúncia defeituosa de uma palavra ocorre geralmente por hábito e até por preguiça. No caso de Moro, como sempre falou desse jeito, continuou a se expressar assim. Tanto é verdade que, em algumas situações, caprichou e a pronúncia foi clara. Afinal, como juiz, não se via na obrigação de fazer nenhum esforço para mudar.

Melhorou um pouco como ministro

Ao assumir o ministério da Justiça e Segurança Pública, que era um cargo mais político, melhorou um pouco. Passou a falar com firmeza e de maneira clara. Nos embates na Câmara dos Deputados teve de se expressar com veemência e, como consequência, sua comunicação ficou mais compreensível.

Esse mesmo comportamento entusiasmado foi repetido nas entrevistas que concedia. Como ministro, uma de suas atribuições era falar com as emissoras de rádio e televisão. Deu uma boa melhorada, mas a maior parte de seus defeitos persistia, especialmente os problemas de dicção. Em todo caso, o progresso era perceptível, a tal ponto de receber alguns elogios.

Depois de sair do ministério e ingressar na política a mudança surgiu a olhos vistos. No discurso que proferiu para oficializar sua filiação ao Podemos, no início de novembro, era outro orador. Estava muito bem posicionado, com postura elegante diante do público. Caprichou na comunicação visual com os ouvintes, olhando ora para a esquerda, ora para a direita. Fez pausas silenciosas. Cuidou um pouco mais da dicção. E a voz deu uma boa encorpada.

Quem te viu, quem te vê

Até a mensagem havia adquirido outro contorno. Aproveitou, por exemplo, o fato de ter sempre sido criticado por causa da voz, para fazer ironia: "O Brasil não precisa de líderes que tenham voz bonita. O Brasil precisa de líderes que ouçam e atendam a voz do povo brasileiro". Quem te viu, quem te vê, hein, Moro! Já estava trilhando um bom caminho para a terceira via.

Depois da "avant-première" na política, Moro fez algumas apresentações aqui e ali, tentando mostrar a imagem do bom concorrente aos dois principais adversários, Lula e Bolsonaro. Foi mais ou menos em determinados casos e nem tanto em outros. Resultado nada mau, entretanto, para quem está engatinhando nessa espécie de aprendizado de candidato.

E o Lula?

Uma das críticas que começara a receber era o fato de só dirigir acusações a Bolsonaro, poupando Lula de suas investidas. Como é que alguém que conhece de cabo a rabo os malfeitos do ex-presidente poderia se calar sobre ele em seus pronunciamentos?! O objetivo claro era o de tentar abocanhar parte do eleitorado bolsonarista que estava descontente com o presidente. Parecia, porém, uma estratégia eleitoreira demais.

Lula resolveu dar uma mãozinha e cutucou a fera com vara curta. O ex-presidente atacou Moro, que, em resposta, gravou um vídeo contra-atacando, e chamando Lula de mentiroso. Opa, agora a campanha começava a esquentar.

O pré-candidato pelo Podemos falou com semblante austero, pesado, para mostrar sua indignação. Não apresentou seus tradicionais vícios de grunhir éééé, ãããã nas pausas. Olhou firme para a câmera, como se estivesse conversando diretamente com o ouvinte. Mas a sua comunicação teve uma recaída.

Altos e baixos

Ele fez pausas inadequadas no meio das frases, truncando a sequência das ideias. O ideal seria treinar as pausas no lugar certo para assim dar ritmo fluente à sua apresentação.

Moro não explorou adequadamente a gesticulação. Falou a maior parte do tempo com a mão fechada. Esse tipo de gesto pode ser utilizado de vez em quando para dar mais ênfase às informações fortes e que exijam expressividade robusta. Ao não alternar mais vezes os movimentos, demonstrou que ainda não está totalmente à vontade.

O trajeto de Moro será longo e espinhoso. Já melhorou, mas precisa melhorar muito. Há atitudes em sua comunicação que exigem cuidados de curtíssimo prazo. Como é inteligente, tenho certeza de que ao assistir à própria apresentação também não deve ter gostado. O problema é que, quando estamos no olho do furacão, nem sempre percebemos onde estão as falhas.

Corre, Moro. Para pegar essa terceira via e chegar galopando no segundo turno vai precisar de muita prática, dedicação e estudo. Só depende de você. Lembre-se de que os concorrentes já largaram há um bom tempo e conseguiram grande dianteira. Daqui para frente, quem correr muito estará só andando.

Superdicas da semana

  • Os erros são úteis quando nos educam
  • Todos podem melhorar a comunicação, desde que estudem e sejam persistentes
  • O que é defeito na comunicação de uma pessoa, pode ser qualidade em outra
  • O orador deve ser avaliado de acordo com o contexto, suas características e seu estilo

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre o tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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