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Reinaldo Polito

A polarização entre Lula e Bolsonaro continua em alta e deve aumentar

Manifestação contra o Presidente Jair Bolsonaro - EMANUEL ROCHA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Manifestação contra o Presidente Jair Bolsonaro Imagem: EMANUEL ROCHA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

04/01/2022 04h00

Aprendi em Fidelino de Figueiredo: 'Com os mortos não se deve polemizar e com os vivos não vale a pena'.
Carlos Drummond de Andrade

A campanha eleitoral ainda nem teve início, e Lula e Bolsonaro já começaram a se alfinetar. Daqui para a frente a tendência é a de que esse quadro se agrave ainda mais.

Você poderia perguntar: e os outros candidatos? Para participar dessa rinha terão de ganhar musculatura. Por enquanto só estão procurando um lugar na fila. Até aqui nada indica de forma clara se estarão ou não afiados para esse confronto.

As diferenças ideológicas no país se agravaram nas eleições de 2018 e tendem a crescer ainda mais no período que antecede o pleito de 22. O fato curioso é que ambos os lados acusam o adversário de ser o responsável por criar esse antagonismo.

Até os remédios entraram na dança

Chegamos ao cúmulo de polemizar até a eficácia de remédios para combater a Covid-19. Um lado se respaldou em estudos e cientistas que defendiam o uso do medicamento, enquanto a outra banda se apoiou em opiniões distintas. Tanto é verdade que houve ideologização no tema que os pareceres de estudiosos nas duas alas eram sempre coincidentes à forma de pensar delas.

O Instituto Ipsos realizou em 28 países interessante pesquisa a respeito da polarização. Embora esse estudo tenha se valido de aspectos não muito palpáveis, já que os respondentes falaram a respeito de seus sentimentos, a ideia geral não deixa dúvida no que se refere a essa tendência. As respostas mostraram que as pessoas tinham a percepção de que havia "muita" ou "muitíssima" polarização.

O Brasil está mal, mas não é dos piores

Mesmo as divergências ideológicas sendo extremamente elevadas, pois superaram os 80% na opinião dos entrevistados, no Brasil esse indicador situou-se na 9a posição em comparação com outros países, como, por exemplo, Coreia do Sul, Estados Unidos e Hungria. Ou seja, é um dado preocupante para nós, mas, se é que esse tema admite ironia, estamos bem acompanhados.

Com relação a outros dados da pesquisa, como diferenças de etnias, classes sociais, nível econômico, entre outros, ainda que tenhamos atingido percentuais elevados, acima da média global, há muitas nações com a taça na mão ocupando o pódio.

Um resultado curioso diz respeito às diferenças entre pobres e ricos. Também nesse caso estamos em posição elevada, mas atrás de países como Coreia do Sul, Chile e Hungria. Nenhum resultado merece comemoração. Ao contrário, são números que nos agridem, pois não há no horizonte nenhuma luz que indique os rumos para a solução.

Uma ampla pesquisa

Por outro lado, talvez, a opinião de muitas dessas 23 mil pessoas pesquisadas pelo Instituto tenha sido influenciada por notícias não só da imprensa, mas também, e principalmente, das mídias sociais, que de certa forma acabam por alimentar essas discussões. Ou seja, podemos estar diante mais de sensações que de fatos reais. Seria assim uma espécie de tênue esperança de que as diferenças não sejam tão acentuadas.

Os próprios grupos minoritários, que defendem suas causas, com toda a razão, vez ou outra se apaixonam por certos argumentos e os utilizam para atacar com tanta virulência aqueles que consideram seus algozes que nem percebem a consequência de suas ações. E, em seguida, reclamam da polarização. Isto é, querem que a divergência de posições desapareça, desde que o outro lado ceda.

A briga vai começar

Agora, com o início da campanha eleitoral, vamos assistir a ofensas de todos os lados. Lula e Bolsonaro já estão se engalfinhando. E a cada xingamento haverá reclamação de que a outra parte está radicalizando. Neste caso, esse comportamento faz parte do espírito belicoso dos contendores. Se a mudança de atitude resultasse em votos para os candidatos, talvez houvesse chances de mudança. Como, entretanto, a vida toda usaram as divergências para marcar suas posições, dificilmente teremos trégua nessa batalha. E os eleitores seguirão os mesmos passos em seus debates.

Podemos constatar que essa polarização não é novidade, já que sempre nos acompanhou ao longo do tempo, bem antes desses dois adversários terem nascido. Observamos também que não chega a ser um fenômeno apenas nosso, pois outros países estão em situação ainda mais grave. Exigir bom senso das pessoas envolvidas emocionalmente com essas questões é quase ingenuidade. Ainda mais desses dois briguentos contumazes. Então, qual seria a solução?

Será que tem solução?

Talvez o caminho a ser seguido pudesse vir de fora. Se outros países dessem o exemplo, quem sabe poderíamos embarcar na nova onda. Infelizmente, como vimos, essa alternativa está muito distante da realidade. Nós podemos fazer a nossa parte não jogando ainda mais combustível nessa fogueira.

E quem estiver muito indignado, e achar que precisa partir para a contenda, pense apenas por um instante sobre os benefícios que conseguirá com essa atitude beligerante. Alguns poderão até se surpreender com a própria resposta. Ou permanecerem na sua trincheira ainda que não vejam vantagens em agir assim. Como disse um amigo dos mais radicais que conheço: já pensei - tolerância zero!

Superdicas da semana

  • A pessoa que defende uma ideia nem sempre está contra nós, mas sim a favor dela
  • Há muitas situações em que não vale a pena discutir
  • Quando o interlocutor estiver emocionalmente envolvido com a causa, pense na vantagem de se calar
  • Temos de aprender a discutir ideias e não a divergir da pessoa

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre o tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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