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Reinaldo Polito

O vice de Lula é bem melhor que ele no debate

Lula e Alckmin durante debate - Maurício Lima/AFP
Lula e Alckmin durante debate Imagem: Maurício Lima/AFP
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

25/01/2022 04h00

Toda discussão se reduz a dar ao adversário a cor de um tolo ou a figura de um canalha.
Paul Valéry

Lula é bom orador. Quase ninguém contesta. Nos debates, entretanto, é apenas razoável. Até sofrível. Nunca teve bom desempenho.

Levou surra de Collor em 1989. Tanto que um dos motivos da sua derrota naquelas eleições foi não ter sabido superar os argumentos do adversário nas contendas pela televisão.

Nas duas eleições seguintes, nas disputas com Fernando Henrique, não foi possível avaliar sua participação. Em 1994, FHC compareceu a apenas um debate. Todos os candidatos saíram do confronto, realizado na TV Bandeirantes, reclamando da quantidade de participantes. Em 1998 o tucano não participou de nenhum.

Em 2002, Lula venceu as eleições presidenciais pela primeira vez. Enfrentou José Serra no segundo turno. Nada excepcional. Dizem as más-línguas que ali teve início o teatro das tesouras. Teoria da conspiração à parte, a verdade é que seu concorrente se comportou mais como um compadre que como adversário.

Serra não foi nem sombra do aguerrido político que empolgava plateias com seus discursos eloquentes exercitados desde a época de estudante. Por isso, não deu para medir bem a competência de Lula.

Apanhou de Alckmin

Com Alckmin em 2006, embora tenha vencido as eleições, Lula amargou mais uma sova nos debates. Em vez de refutar os argumentos do tucano, na maioria das vezes, se defendia apenas com ironias e sarcasmos. Como gozava de extraordinária popularidade, mesmo que não abrisse a boca venceria.

Apesar do péssimo resultado obtido nas eleições de 2018, por causa do seu equivocado posicionamento nas propostas de campanha, de seu erro nas coligações e do fato de ser chamado sempre de picolé de chuchu, Alckmin é de longe o político que mais sabe debater.

Sua memória para guardar dados e associar informações é admirável. Dá a impressão de que todas as suas respostas foram milimetricamente planejadas, quando, na realidade, as informações brotam espontaneamente, quase de improviso.

Argumentação lógica

Até Ciro Gomes, que hoje pode ser considerado um dos melhores oradores da política brasileira, como debatedor não chega aos pés do ex-governador de São Paulo. Além da impressionante capacidade de memorizar números, cifras e datas, Alckmin desenvolve uma argumentação lógica difícil de ser contestada.

Para combatê-lo os adversários tentam desestabilizá-lo com discursos enérgicos e emocionais. Essa estratégia, embora chegue a impressionar, não o perturba. Tem gelo no sangue.

Lula tem consciência da sua fragilidade como debatedor. Em conversa com jornalistas na semana passada, deu a entender que talvez não aceite participar dos debates. Para justificar sua ausência, argumentou que esses encontros, nos moldes tradicionais, não funcionam.

Para ele o tempo de um minuto destinado às perguntas e de dois para as respostas, seguido da mesma duração para a réplica e a tréplica não beneficia a compreensão do eleitor.

Não tem como delegar

Infelizmente para Lula não dá para arrumar uma desculpa e escalar o seu possível vice para entrar na arena. Sobram para ele duas opções: a primeira seria a de não comparecer, atitude que já tomou em eleições passadas. E, como vimos, ele e praticamente todos os candidatos à presidência.

A segunda a de enfrentar as feras e correr o risco de ser derrotado, visto que hoje sua posição é ainda mais delicada, já que teria de se defender de muitas acusações e quase sem condições de atacar.

Falta quem está na frente

Geralmente se ausenta dos debates quem possui larga vantagem na preferência dos eleitores. Como ainda falta muito tempo para que os políticos tomem essa decisão, será preciso observar as pesquisas antes de bater o martelo.

Parece que o receio de participar dos debates já começa a se alastrar. Bolsonaro confirmou que participará de todos, com a condição de que não ataquem seus filhos. A oposição julga, todavia, que é só conversa, pois não acreditam que ele comparecerá.

Bolsonaro ainda não debateu

O presidente ainda não teve condições de demonstrar suas habilidades para discutir com os adversários frente a frente. Nas últimas eleições Bolsonaro conquistou a vitória sem ter participado dos debates. Aceitou apenas ser sabatinado em programas jornalísticos de televisão.

A oposição afirma que ele fugiu, mas sua ausência ocorreu por causa da facada que levou. O período necessário para recuperação não lhe deu condições de enfrentar desafios tão estressantes.

Agora já está melhor de saúde e, se desejar, poderá ir para o embate. Se ninguém fugir, embora o desempenho de Bolsonaro seja uma incógnita, pelo menos terá a vantagem de enfrentar Lula e não Alckmin.

Superdicas da semana

  • Nem todo bom orador é bom debatedor
  • A memória do orador é recurso fundamental nos debates
  • Às vezes um candidato ganha mais se ausentando do debate
  • Para debater bem é preciso saber argumentar e também refutar

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.