PUBLICIDADE
IPCA
1,06 Abr.2022
Topo

Reinaldo Polito

Em poucos minutos, suas informações podem ir para o lixo

Demonstrações gráficas - Getty Images/iStockphoto/meronn
Demonstrações gráficas Imagem: Getty Images/iStockphoto/meronn
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

22/03/2022 04h00

O que passou e já não tem mais remédio, lastimar não devemos.
Shakespeare

Era final dos anos 1980. Eu ministrava cursos em Santa Catarina para um grupo de empresas. Um dos participantes me convidou para assistir a uma palestra que seria proferida naquela noite por importante jornalista da televisão. Aceitei.

Ela falaria por cerca de uma hora para empresários supermercadistas. Todos muito experientes e atuando no mercado há décadas. A expectativa era grande. Afinal, uma estrela de primeira grandeza do jornalismo estaria ali em carne e osso para falar sobre a atividade deles.

Recebida com entusiasmo

Antes mesmo de cumprimentar a plateia, a oradora já fora ovacionada com entusiasmo pelo público. Mais ou menos como se dissessem: estamos aqui prontos para gostar. Tinha tudo para dar certo. Expositora craque no uso da palavra, plateia receptiva, assunto de interesse de todos.

Depois de mais ou menos dez minutos de apresentação percebi que o semblante dos ouvintes já estava meio carrancudo. Era demonstração clara de descontentamento. Como eu havia sentado na última fileira ao lado do aluno que me fizera o convite, pude perguntar a ele o que aconteceu para a plateia mudar tão bruscamente de atitude.

Dados desatualizados

Ele sussurrou: professor, essas estatísticas e dados que ela apresenta estão desatualizados, muito fora da nossa realidade. Trabalhar com esses números é quase o pão nosso de cada dia. Esses empresários estão decepcionados. Já perceberam que jogaram dinheiro fora contratando essa palestra.

No final o público aplaudiu. Foi mais um aplauso de alívio, de solidariedade. Até hoje não sei se ela percebeu ou não o que havia ocorrido. Talvez sim, pois era muito experiente e deve ter feito a leitura da reação da audiência. Para mim foi um excelente ensinamento. Nunca mais na vida me esqueci dessa lição. Em qualquer circunstância é preciso estar sempre atualizado com as informações.

Piorou com a internet

Se era assim naquela época em que não contávamos com a internet, dá para deduzir como hoje as notícias se desatualizam muito mais rapidamente, a cada minuto. Essa é uma realidade assustadora para quem precisa tomar decisões ou orientar grupos de pessoas.

Um exemplo de como podemos nos comportar é dado pelo professor Luiz Marins, um dos mais requisitados palestrantes do país nas últimas décadas. Marins acorda muito cedo no dia em que vai proferir palestra, por volta das cinco da madrugada.

Notícias do dia

Abre os principais jornais e portais do mundo, e faz pesquisa completa sobre o tema que vai abordar. Verifica com cuidado se não existe alguma informação relevante a ser atualizada. Nunca corre o risco de ser surpreendido com questões desconhecidas. Há ocasiões em que inclui em seus slides dados que acabaram de ser divulgados no próprio dia. Fez dessa iniciativa uma rotina em sua preparação de palestras.

O ombudsman da Folha, José Henrique Mariante, no último domingo, dia 20, levantou o problema enfrentado pelos jornais diários impressos sobre atualidade:

A melhor edição de tudo o que aconteceu em um dia deveria estar naquilo que carrega certo ar definitivo, a edição impressa do dia seguinte, no papel ou na versão digital. Na prática, porém, essa melhor edição já nasce amanhecida. Tudo o que está lá já foi lido.

É quase desesperador. Um vacilo de minutos pode fazer com que a informação vencida permaneça como notícia que ainda vigora. Pior quando um órgão de imprensa concorrente traz novo dado com todas as modificações.

Luta do dia a dia

Essa tem sido a luta constante de quase todos os profissionais, especialmente daqueles que devido à responsabilidade de suas funções não podem cometer erros. É impossível acompanhar a vertiginosa mudança a cada minuto, ou a cada hora, mas todos nós podemos e devemos nos empenhar para passar aos ouvintes ou leitores o que conseguirmos encontrar de mais atual sobre determinada matéria.

Quem usa pesquisas ultrapassadas, estatísticas vencidas, resultados envelhecidos, talvez esteja dando indicações de que o seu momento se assemelha à idade das informações emboloradas. Por isso, antes de expor é preciso verificar, checar, conferir quantas vezes forem possíveis e necessárias. É até questão de sobrevivência profissional.

Superdicas da semana

  • Em minutos a informação pode envelhecer
  • Apresentar informação vencida pode comprometer a imagem profissional
  • É preciso conferir a atualidade de uma informação muitas vezes
  • O mundo está na ponta dos dedos, basta boa vontade para se atualizar

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como falar corretamente e sem inibições", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar as pessoas" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.