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Reinaldo Polito

Tom Jobim alertou que sucesso no Brasil é ofensa pessoal

Vinícius Junior - Masashi Hara/Getty Images
Vinícius Junior Imagem: Masashi Hara/Getty Images
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

05/07/2022 04h00

É tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja.
Balzac

Se você conhece alguém que só critica os brasileiros, conte a ele esta história relatada pelo ex-presidente da EMBRAER, Ozires Silva. O experiente gestor estava em um jantar em Estocolmo junto com três membros do comitê que faz indicação para o prêmio Nobel.

Aproveitando a oportunidade, resolveu perguntar por que o Brasil ainda não havia conquistado nenhum prêmio, sendo que países menos importantes já foram premiados inúmeras vezes. Ele disse que na hora ninguém respondeu. Pouco depois, entretanto, a sós com um deles teve a explicação:

Vocês brasileiros são destruidores de heróis. Todos os candidatos brasileiros que apareceram, contrariamente com o que ocorre com os de outros países, todo mundo joga pedra. Não têm apoio da população. Parece que um desconfia do outro ou tem ciúme.

É assim com a maioria dos casos. Se alguém brilha, muitos se sentem ofuscados. E pensar que temos tantos exemplos de brasileiros que podem elevar nossa autoestima.

Eu sempre tive um ídolo brasileiro para torcer por ele e me orgulhar dele. Ver a bandeira verde e amarela tremulando depois de uma vitória nos inspira. Nós nos envaidecemos em saber que os outros países estão reverenciando aquele feito.

Senna e Guga

Como a maioria dos conterrâneos, eu me levantava cedo no domingo, separava uma boa bebida, ligava a televisão e celebrava as vitórias de Ayrton Senna. Ver Prost com aquela cara de choro, pedindo colinho para Jean-Marie Balestre, depois de ter perdido mais uma para o nosso tricampeão mundial da Fórmula 1 era demais.

Depois vieram as conquistas de Guga no tênis. Era uma alegria inenarrável assistir às sovas que o catarinense dava nos "monstros" daquela época, como Peter Sampras e André Agassi. Como vibrei quando conseguiu ser o primeiro do mundo em 2000 e tri de Roland Garros em 2001. Não tem preço.

Ronaldo

Havia também os jogadores de futebol que se destacavam, como, por exemplo, Ronaldo, o grande fenômeno. Acompanhei sua trajetória por todos os times em que jogou, desde o Cruzeiro, passando pelo PSV, Barcelona, Internacionale, Real Madrid e Milan. Dispensava qualquer compromisso para ver suas atuações. As arrancadas espetaculares, os dribles, os gols. Só alegria. Diria mesmo felicidade.

Ronaldinho

Aí surge o bruxo, Ronaldinho Gaúcho. Mais driblador, mais alegre, mais irreverente, mais criativo. Fui às nuvens naquele jogo, no dia 19 de novembro de 2005, em que ele foi aplaudido de pé, em pleno Bernabéu, pelos torcedores do Real Madrid, maior rival do Barcelona. Até hoje me delicio vendo suas jogadas pelo YouTube.

Neymar

Quando pensei que a safra havia se esgotado, surge outro gênio da bola, Neymar. Tenho amigos que dizem não gostar dele. Não entendo a birra. Pergunto: por que você não gosta dele? Ah, ele é mala. Insisto: mala, por quê? Ah, é mala. Depois da terceira tentativa desisto

Outros querem explicar melhor sua antipatia: ele se preocupa muito com as noitadas e menos com o futebol. Quero saber se as festas interferem em seu rendimento, se sabem que ele é um dos que mais correm em campo, se estão cientes de que Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e Romário tiveram comportamento semelhante. A maioria fica silente.

Como alguém que chega à vice-artilharia em jogos pela seleção, com 74 gols, pode ser criticado com tanta veemência?! Vamos nos lembrar de que ele está apenas a três gols de Pelé, que chegou aos 77 ao longo da carreira. Se a jornada de Neymar não for interrompida por algo inesperado, irá suplantar o Rei em pouco tempo.

As "cassandras" procuram pelo em ovo. Já ouvi até de comentaristas esportivos profissionais: ah, mas o Pelé jogou menos partidas pela seleção. A média de gols do Rei por jogo é muito maior. Não resisto: você está comparando Neymar com Pelé para dizer que ele não é tão bom? Vá ter má vontade assim em outro planeta.

Ele estraçalha por onde passa. Foi assim no Barcelona, no PSG, na seleção. Mesmo no Santos eu não perdia um jogo. Era um espetáculo.

Vinícius Júnior

Pensei, bem, agora já deu. As grandes estrelas brasileiras já reinaram o suficiente. Grande engano. Apareceu outro do mesmo nível, Vinícius Júnior, o Vini Malvadeza. Está encantando o mundo com seu futebol. Quanto mais marcadores os adversários escalam para neutralizar suas jogadas, mais prazer ele sente em passar por eles.

Especialmente se puder meter umas canetas e dar uns chapéus. Driblador, "imparável" nas arrancadas, goleador, ótimo assistente de jogadas para os companheiros. E um cara do bem. Alegre, extrovertido, meio ingênuo.

Há pouco tempo, o jornal espanhol Marca divulgou a lista dos 100 melhores da Europa. Vini ficou em terceiro lugar, atrás de dois companheiros de equipe, o artilheiro Benzema e o goleiro Courtois. É só ter jogo do Real Madrid que me planto na frente da telinha para ver o show de Vini.

Logo vem a copa do mundo. Uma nova safra de ídolos extraordinários pode se revelar. Tomara, porque assim terei mais dias felizes para comemorar. Eu e a maioria dos brasileiros.

Superdicas da semana

  • Admiremos as pessoas que se destacam e sejamos felizes
  • A inveja não traz nenhum benefício, só amargura
  • O brilho do outro não pode ser visto como a sombra que nos empalidece
  • Ninguém é obrigado a gostar de alguém, mas a antipatia não pode ser por causa da inveja

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Como falar corretamente e sem inibições" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 minutos para falar bem em público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.