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Reinaldo Polito

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As minhas histórias com Jô Soares

O apresentador Jô Soares morreu na madrugada de hoje - Globo/Zé Paulo Cardeal
O apresentador Jô Soares morreu na madrugada de hoje Imagem: Globo/Zé Paulo Cardeal
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

05/08/2022 11h16

Estamos todos lamentando a morte de Jô Soares. Assim que abri o computador e vi as notícias pela internet deu um frio na espinha. Soube que o "homem dos sete instrumentos" havia nos deixado. No mundo das artes, podemos escolher qualquer atividade que ele, de uma forma ou de outra, passeou por ela.

E quase tudo com excelência: escritor, diretor teatral, músico, apresentador de programas de televisão e de rádio, dramaturgo, diretor de teatro, ator, humorista. Onde ele punha as mãos dava certo. Muito certo.

Se tantos estão falando sobre ele, por que caberia aqui mais este texto? Quero deixar registrado como ele foi importante na minha carreira como professor e como escritor. O fato de ter me levado duas vezes para ser entrevistado em seu programa chegou a ser um verdadeiro divisor de águas.

Nos anos 1990, muitos profissionais possuíam duas aspirações: ser entrevistado nas Páginas Amarelas da revista Veja e no programa do Jô Soares. Eu me lembro de pessoas que espalhavam faixas pelas ruas de São Paulo implorando: Jô, me entrevista. Era mesmo uma espécie de coroamento da carreira.

Eu já havia sido entrevistado para as Páginas Amarelas, mas ir ao programa do Jô Soares era um sonho distante. Pensava: até que seria interessante ir ao programa para dar umas dicas de comunicação. Com tantas pessoas aguardando na fila, entretanto, jamais teria essa oportunidade. O sonho distante se concretizou. Não uma, mas sim duas vezes.

A primeira vez em que fui ao seu programa, no SBT, em julho de 1999, foi para lançar o livro "Assim é que se fala", pela Editora Saraiva. Como acontecia às vezes, a entrevista foi ao ar de madrugada. Mesmo assim, por causa dessa nossa conversa, em uma semana a primeira edição estava totalmente esgotada. E foi para as listas dos livros mais vendidos do país.

Na segunda vez, já na Globo, em agosto de 2001, foi para lançar outro livro, "Um jeito bom de falar bem", pela mesma editora. O fenômeno se repetiu. Em uma semana, a edição da obra estava esgotada, e também foi para as listas dos livros mais vendidos do país.

Só esses dois fatos seriam suficientes para marcar a minha carreira. Ir ao seu programa, todavia, foi para mim um grande desafio.

Como professor de oratória, eu precisaria me sair muito bem. As pessoas estariam observando se o que eu ensinava aplicava também na prática.

Antes de ir à primeira entrevista, algumas pessoas fizeram verdadeiro terrorismo comigo. Cuidado, Polito, já vi muita gente ser tripudiada naquela cadeira. Ele não deixa o entrevistado falar. E, se não for com a cara do sujeito, é um Deus nos acuda. Ouvi a mesma história de vários conhecidos. Bem, mas se tudo corresse normalmente, poderia ser um bate-papo bastante agradável.

Aquele terrorismo era infundado. Fui tratado com muita gentileza e consideração. Nos momentos em que me interrompia, logo se desculpava e pedia para que eu concluísse o que estava dizendo. E tudo de forma leve e muito bem-humorada. Dois momentos só para ilustrar.

Falávamos da importância de as pessoas gravarem suas apresentações e depois assistir para corrigir os defeitos e acertar a sequência do discurso. Eu comentava que esse era o procedimento que adotávamos com os nossos alunos em sala de aula. Com o cuidado de só mostrar a eles os acertos e os aspectos positivos.

Com a sua presença de espírito rápida, instantânea, assim que terminei de falar, ele me disse: sabe, professor, eu não gosto de assistir às minhas apresentações. Toda vez que me vejo no vídeo me sinto gordo. Nem preciso dizer que a plateia explodiu em estridente gargalhada.

Outra tirada genial do mestre do humor. Ele havia pedido que eu explicasse melhor um dos capítulos do meu livro "Um jeito bom de falar bem": "Aprenda a falar no elevador". Dei as dicas todas de começar, desenvolver e concluir uma conversa no elevador entre três ou quatro andares.

Ele ouviu com atenção. Como havíamos comentado sobre o progresso de um ex-aluno que era conhecido por ter comunicação prolixa, Eduardo Suplicy, Jô não perdeu a chance de mostrar sua veia humorística: Polito, cá entre nós, essas técnicas não servem para o seu aluno Suplicy, né? Mais uma sacada que provocou reação imediata no público.

O meu primeiro contato com ele aconteceu em 1990. Ele foi um dos palestrantes no evento "Câmera 90", realizado no Maksoud Plaza. A plateia estava lotada. Assim que chegou ao palco, pediu a câmera de um fotógrafo e disse que queria também tirar umas fotos.

Apontou a câmera para os ouvintes, que estavam todos sentados, e pediu que se juntassem para caber todo mundo na foto. Bastou um segundo apenas para que todos se dessem conta de que seria impossível atender àquela solicitação. Gargalhada geral. Mesmo que não fizesse a palestra, só aquela tirada já teria valido o ingresso.

Um pouco dessa minha experiência com Jô Soares para demonstrar a profunda admiração e gratidão que sempre tive por ele. E de como estará sempre entre as minhas mais agradáveis recordações. Que descanse em paz.

Superdicas da semana

  • Somos um pouco de todas as pessoas que conhecemos
  • Algumas pessoas nos inspiram para vida e para a carreira
  • A vida levada com bom humor pode ser mais leve, descontraída e feliz
  • O humor quase sempre é contagiante

Livros mencionados no texto: "Assim é que se fala" e "Um jeito bom para falar bem", publicados pela Editora Saraiva.