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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que você deve se preocupar com o aumento da taxa básica de juros

Ana Hutz

Ana Hutz

Economista, historiadora e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

09/07/2021 04h00

Algumas semanas atrás o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou a taxa de juros básica da economia brasileira, a Selic, para 4,25% ao ano. Essa taxa deve sofrer novos aumentos até o final de 2021, segundo o consenso dos economistas. É possível que chegue em 6,5% ou 7% até o final deste ano.

Mas, afinal, para que serve a Selic e o que ela tem a ver com as nossas vidas? Dito de outra forma, por que você que não trabalha no mercado financeiro deveria entender os impactos da Selic no seu dia a dia?

Como eu já disse, a Selic é a taxa de juros básica da economia brasileira. Ela norteia todas as outras taxas de juros que são cobradas no sistema financeiro brasileiro. Ela é a grande referência quando falamos em aplicações financeiras: nenhum investidor quer receber juros inferiores à Selic nos seus investimentos de renda fixa (ou seja, cuja rentabilidade é atrelada à taxa de juros).

Quando a Selic aumenta, os juros do seu cheque especial acabam subindo; quando ela diminui, o financiamento imobiliário também fica mais barato. Por outro lado, quando ela aumenta, sua aplicação financeira, seja na poupança, seja em CDB, também vai ter seus rendimentos aumentados. O inverso vai acontecer quando ela cair.

Mas a taxa Selic não é importante somente para nossos investimentos e empréstimos. Manipular a taxa de juros básica da economia é o instrumento mais utilizado pelas autoridades monetárias mundo afora. No Brasil, o principal motivo pelo qual o Banco Central altera a taxa básica é controlar a inflação. Influenciar o nível de emprego e o ritmo de atração de capitais externos são outros objetivos, subordinados ao principal.

A nossa taxa de juros sempre foi uma das mais altas do mundo, e o motivo para isso, na opinião da maioria dos economistas, foi a busca pelo controle da inflação - com a ajuda de forte atração de capitais, que ajuda a derrubar a cotação do dólar, e a despeito do impacto negativo dos juros altos sobre a questão do emprego. Deixando de lado a atração de capitais externos, vamos entender por que a Selic influencia tanto a inflação como o emprego.

Quando a inflação está alta, ou seja, os preços em geral estão subindo, o Banco Central tende a querer aumentar a Selic para desestimular a demanda (ou seja, o consumo e o investimento), acreditando que isso irá pressionar os preços para baixo. Isso aconteceria sobretudo porque o crédito tende a ficar mais caro e, assim, fica mais caro comprar de forma parcelada ou obter um empréstimo no banco. Também fica mais interessante para as empresas deixar seus recursos aplicados no mercado financeiro, comparativamente a arriscar-se a investir na ampliação da sua capacidade de produção.

O objetivo final, como eu disse, seria fazer os preços subirem mais devagar ou mesmo caírem. Se isso acontece, de fato, é tema para outro artigo. De toda forma, ao desestimular o consumo e o investimento, esse mesmo movimento acaba por prejudicar o emprego. É nessa gangorra que o Banco Central faz sua política monetária. Há pouco tempo, com a inflação atipicamente baixa, o BC diminuiu os juros para estimular o emprego. No momento atual, tanto emprego como inflação são um problema e o BC de certa forma escolhe uma batalha (a do controle da inflação e não o emprego) em detrimento de outra.

A política monetária não é a única arma que o governo tem, mas já faz um tempo que parece que virou palavrão sugerir ou mesmo pensar em outras políticas para melhorar os níveis de emprego de outras formas, enquanto a inflação é controlada. Os auxílios financeiros nesse momento da pandemia são absolutamente fundamentais, assim como o Bolsa Família também é mesmo fora da pandemia. Mas convenhamos que nosso problema não se iniciou em 2020.

Programas de transferência de renda são importantes porque tiram as pessoas da miséria ao mesmo tempo em que movimentam as economias locais, dão liberdade para mulheres chefes de família e garantem uma vida digna que permite aos filhos estudarem. Mas isso não basta. O país tem uma série de setores com gargalos que representam oportunidades de investimento. Se esses investimentos forem feitos, vão gerar empregos e, assim, estimular o consumo. Hoje em dia preferimos deixar tudo nas mãos do setor privado. Mas, sinceramente, se nem o governo investe em certos setores, por que os empresários deveriam investir quando ganham muito mais nas aplicações financeiras?

E assim voltamos para a Selic. Quando ela sobe, as aplicações mais seguras pagam um valor expressivo, sem que o recurso do empresário tenha que passar pelas dificuldades de se abrir e sustentar um negócio. Assim fica mais difícil ainda gerar novos empregos.

É por essa razão, que quando a Selic cai ou sobe ela impacta diretamente você e eu. Seja nos nossos empréstimos, nas nossas aplicações ou na criação de postos de trabalho. Ou seja, cara leitora, caro leitor, economia é um assunto que deveria te interessar e que não pode ficar somente a cargo do mercado financeiro ou dos especialistas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL