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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escolhas e posicionamentos do governo causam parte da inflação atual

Alessandra Ribeiro

Alessandra Ribeiro

Economista e sócia da Tendências Consultoria

03/09/2021 04h00

A inflação tem surpreendido de maneira negativa nas principais economias do mundo e especialmente no Brasil. Há elementos que são comuns aos países, mas há fatores domésticos que potencializam a inflação, gerando custos importantes à sociedade brasileira, em especial nos segmentos de mais baixa renda. A inflação é uma limitação à expansão da atividade econômica nos próximos trimestres.

Uma parte dessa inflação tem causa comum aos países: a pandemia e seus efeitos. De um lado, a pandemia afetou de maneira adversa a produção e logística de bens, gerando, portanto, um contexto de oferta restrita. De outro, por causa dos efeitos nocivos da pandemia para a atividade econômica, os principais países do mundo implementaram políticas fortemente expansionistas do ponto de vista fiscal e monetário para ajudar o processo de recuperação da economia, tendo como estratégia o controle da pandemia, especialmente com avanço da vacinação e/ou o duro controle do contágio.

A rápida recuperação da demanda devido aos fortes estímulos fiscais e monetários em contexto de oferta limitada tem gerado aumento relevante de preços de bens e commodities. No caso brasileiro, há elementos particulares que potencializam a inflação: questões climáticas (estiagem e geada) e percepção de risco elevada diante do quadro fiscal e político/institucional.

A questão climática afeta diretamente os preços de alimentos e energia elétrica, o primeiro pelo efeito negativo na produção de grãos, alimentos in natura e mesmo na produção de leite. O segundo, pela necessidade de se recorrer à geração de energia mais cara, via termelétricas.

A percepção de risco mais elevada diante da condução da política fiscal e do ambiente político/institucional afeta a precificação de ativos como os juros futuros e a taxa de câmbio, além de manter o nível de confiança dos agentes econômicos mais abalado, com consequências nocivas para as decisões de consumo e investimento. Especialmente pelo canal do câmbio, os preços em reais aumentam de maneira mais expressiva para bens e commodities em relação ao observado nos mercados internacionais.

O real tem se mantido descolado de seus fundamentos que são principalmente: a) dólar, b) termos de troca, c) diferencial de juros e d) risco. A explicação é que há um componente de risco que os mercados embutem na precificação que não está sendo captado pelas variáveis acima mencionadas. Alguns exercícios da Tendências apontam que se o câmbio estivesse em linha com os fundamentos, a inflação ao consumidor de 2020 teria sido 1,2 ponto percentual menor, ou seja, 3,3% em vez de 4,5%. Para 2021, os exercícios apontam impacto de 0,9 ponto percentual. Assim, a projeção atual para o IPCA, de 7%, seria mais próxima de 6%.

Assim, nota-se que há uma parte da inflação ligada a fatores sobre os quais se tem pouca influência, como pandemia e condições climáticas, entretanto, há outra parte que está totalmente relacionada a escolhas e posicionamento do atual governo.

Os efeitos nocivos da inflação para a sociedade brasileira já são claros, em especial para o segmento de mais baixa renda. Esse efeito é magnificado pelo contexto de gradual recuperação do mercado de trabalho à luz dos efeitos da pandemia. Pelos dados da Pnad, que capta a evolução do mercado de trabalho de maneira mais ampla, considerando formais e informais ligados ao setor privado, setor público, trabalhador doméstico, empregador e empregado por conta própria, o país ainda tem um contingente de pessoas empregadas 6,9 milhões abaixo do nível pré-pandêmico (considerando os dados de fevereiro de 2020).

Pelo cálculo de massa de renda total das famílias feito pela Tendências, que considera, além da renda proveniente do trabalho, outras fontes como Previdência, transferências sociais e lucros, aluguéis e outros, a queda esperada para este ano é de 3,2%.

Quando se desagrega por classes de renda, o quadro é ainda mais dramático para as classes D/E e C. Para a primeira, a queda projetada é de 14,6%, enquanto para a segunda é de 3,1%. De acordo com os critérios da Tendências, classes D/E compreendem famílias com renda mensal domiciliar de até R$ 2.700 e classe C engloba famílias com renda mensal domiciliar entre R$ 2.700 e R$ 6.500.

Outro cálculo que evidencia a queda no poder de compra das famílias está relacionado ao percentual da massa de renda total que sobra após o desconto dos gastos com itens essenciais como alimentação, habitação, transporte, educação e saúde. Itens, inclusive, que concentram boa parte da pressão inflacionária recente. Para a classe D/E, a estimativa aponta retração de 18,5% na massa de renda disponível para outros gastos em relação ao ano passado. Para a classe C, a estimativa é de queda de 6,6%.

Em suma, em um contexto de recuperação gradual do mercado de trabalho, a inflação mais alta tem efeitos nocivos importantes para a sociedade brasileira, em especial para o segmento de mais baixa renda. A triste constatação é de que parte dessa inflação poderia ter sido evitada com compromissos e credibilidade com relação à condução da política econômica, em especial em seu pilar fiscal, e pela boa coordenação do ambiente político, com sinais de respeito às regras do jogo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL