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Carla Araújo


'Amigo de Bolsonaro' cobra dinheiro da Secom para ajudar governo

O chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten - André Coelho/Folhapress
O chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten Imagem: André Coelho/Folhapress
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

03/06/2020 20h30

O secretário de Comunicação da Presidência (Secom), Fábio Wajngarten, e o Secretário de Publicidade, Glen Valente, convocaram uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira (3) no Palácio do Planalto para tentar explicar dados levantados pela CPMI das Fake News, que identificou 2 milhões de reproduções de anúncios do governo em canais de conteúdo considerado inadequado.

Wajngarten tentou rebater o material produzido pela CPMI, mas dividiu os holofotes na coletiva de hoje quando abriu o microfone para eventuais perguntas. Isso porque o primeiro a tomar a palavra não fez questionamentos e praticamente deu uma bronca - com transmissão ao vivo pelas redes do Planalto - ao cobrar verba pública para ajudar o governo.

"Sou Hélio Lima, JBC News. Encaminhei um documento para a Secom, busquei a resposta ontem e foi negativa", disse. Ele então continuou a reclamar que os pequenos sites precisariam de anúncios para sobreviver, disse conhecer Bolsonaro há anos. Segundo ele, "um site pequeno, que está querendo crescer e ajudar o governo" não pode disputar com grandes grupos e ficar sem verba publicitária.

"Fui vizinho do Bolsonaro no Rio, sou amigo pessoal dele há 38 anos, os filhos dele estudaram no mesmo colégio dos meus", afirmou Lima, ao pedir mais uma vez para entregar uma proposta à Secom.

"Preciso agendar para a gente conversar, por favor", disse, exaltado.

Diante do constrangimento, Wajngarten evitou comentar e coube ao secretário de Publicidade, Glen Valente, tentar amenizar a situação. "Sem problemas, vamos agendar."

No site de Lima, que aparentemente está em construção, já há pelo menos dois anunciantes. Um deles a Havan, rede do empresário Luciano Hang, apoiador do presidente e alvo do inquérito que apura disseminação de fake news. Há também um banner do governo do Distrito Federal, comandado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), que também tem se alinhado cada vez mais ao presidente.

Ação de 'amigos'

Apesar do cargo, Wajngarten não costuma falar com os jornalistas que estão na cobertura diária da Presidência e a Secom ignora sucessivos pedidos de esclarecimentos feitos a respeito dos mais diversos temas de interesse nacional. O secretário, aliás, prioriza suas relações não apenas com sites considerados mais simpáticos ao governo, como também com emissoras de TV mais alinhadas a Bolsonaro.

Em janeiro, o jornal Folha de S.Paulo mostrou que o chefe da Secom recebe, por meio de uma empresa da qual é sócio, dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela própria secretaria, ministérios e estatais do governo Jair Bolsonaro. O jornal mostrou ainda que a Secom privilegiou clientes de Wajngarten e TV religiosas com verba publicitária.

Apesar das acusações, em abril, a juíza Solange Salgado, da 1ª Vara Federal Cível da Justiça Federal do Distrito Federal, rejeitou a concessão de uma liminar (decisão provisória) para tirar Wajngarten do cargo e disse que não via irregularidade no repasse de verbas de comunicação a emissoras de televisão diante das relações delas com a empresa do secretário.

Disseminação de notícias falsas

O tema está no centro de investigações que podem atingir o governo. Além da conclusão do relatório da CPMI, que mostrou verba publicitária direcionada para veículos suspeitos de divulgar notícias falsas, o Planalto está em meio a um embate com o Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o ministro Alexandre de Moraes autorizou a abertura de inquérito sobre o tema - em uma ação que atingiu diretamente aliados do presidente. Na semana passada, o ministro autorizou mandados de busca e apreensão em cinco estados e no Distrito Federal.

Moraes afirmou que as provas da investigação apontam para a "real possibilidade" de que o chamado gabinete do ódio seja uma associação criminosa.

O grupo reuniria nomes como o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), e o deputado estadual Douglas Garcia (PSL-SP).

Moraes afirma que o gabinete é dedicado à "disseminação de notícias falsas, ataques ofensivos a diversas pessoas, às autoridades e às Instituições, dentre elas o Supremo Tribunal Federal, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática".

Carla Araújo