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Carla Araújo


Guedes 'esquece' de trâmites e é utópico ao falar em privatizações em 2020

Ministro da Economia, Paulo Guedes, em Brasília -
Ministro da Economia, Paulo Guedes, em Brasília
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

06/07/2020 14h20

Em mais uma entrevista com discurso otimista, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou ontem à CNN que acredita que conseguirá realizar "três ou quatro grandes privatizações nos próximos 60 ou 90 dias". Acontece que não basta Guedes querer privatizar. Os trâmites necessários para a venda de estatais tornam as metas do ministro difíceis de serem alcançadas.

O próprio ministro, na mesma entrevista, reconheceu que há tempos não consegue fazer essa agenda andar. "Estamos atrasados, sim", disse Guedes. "As privatizações, fazemos um mea culpa, elas não andaram num ritmo satisfatório, definitivamente não andaram. Mas vão andar agora", afirmou.

Correios, Eletrobras, PPSA e Porto de Santos

Nesta lista de metas do ministro, segundo fontes da Economia, estariam Correios e Eletrobras, além de PPSA (Pré-Sal Petróleo S.A.) e Porto Santos. Com exceção do Porto de Santos, as outras três precisam de aval do Congresso. E o trâmite nas Casas Legislativas brasileiras não costuma ser o mais célere, ainda mais em ano de pandemia e eleições municipais.

Fontes da Câmara informaram que, "por enquanto, esse assunto não está entre os discutidos na Casa".

Não é bem assim...

Auxiliares do governo reconhecem a dificuldade de tornar as palavras de Guedes realidade, mas relativizam, explicando que o ministro avalia um cenário para o fechamento do ano, extremamente abalado economicamente por conta do coronavírus.

A ideia, segundo um auxiliar, é que, pelo menos, em 90 dias o tema volte a andar no Congresso. "O ministro quer mostrar que teremos prioridades, mas o processo de privatização do início até a conclusão é longo", afirmou um técnico. "São as autorizações para fazermos, e não a conclusão dos processos", disse um secretário da pasta.

Nos Correios, o atual presidente, general Floriano Peixoto, tem evitado qualquer conversa nesse sentido e ressaltado que trabalha para recuperar e modernizar a estatal. O general já esteve com o novo ministro das Comunicações, Fábio Faria, a quem agora os Correios são subordinados, e, segundo fontes, o assunto de privatização não foi nem colocado na mesa.

Sem Congresso, mas com muitos estudos

O caso de Porto de Santos, que está sob o guarda-chuva do Ministério de Infraestrutura, está oficialmente estimado para acontecer apenas em 2022. Segundo o ministério, comandado por Tarcísio de Freitas, "o modelo de desestatização ainda não está definido" e estão sendo realizados estudos de novos modelos de gestão e exploração dos portos no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

No fim de junho, o BNDES recebeu sete propostas de consórcios de empresas distintas para atuar no assessoramento técnico do projeto de desestatização/desinvestimento dos portos de Santos (SP) e de São Sebastião (SP). "A previsão é que os resultados dos estudos sejam conhecidos no primeiro trimestre de 2021 e que o leilão ocorra em 2022", informou a assessoria do ministério, no fim do mês passado.

O que faz Guedes ficar tão otimista?

Já há nos bastidores quem afirme que "o fantástico mundo de Guedes" está muito distante da realidade. Auxiliares do ministro, porém, tentam justificar as palavras "do posto Ipiranga" do governo Bolsonaro alegando que é preciso tratar da economia brasileira pós-pandemia.

"Não sei se é utópico, mas o ministro é bastante otimista. O que o governo não pode é aderir a um discurso de entregar o jogo. Ninguém esperava uma pandemia que vai levar o déficit brasileiro a mais de R$ 800 bilhões este ano, mas é preciso continuar a linha do trabalho", justificou um auxiliar.

Carla Araújo