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Carla Araújo


Bolsonaro recorre a nacionalismo para rebatizar programas e "apagar era PT"

17.dez.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia de hasteamento da bandeira, no Palácio da Alvorada - MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
17.dez.2019 - O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia de hasteamento da bandeira, no Palácio da Alvorada Imagem: MATEUS BONOMI/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

06/07/2020 17h54

Com um ano e meio de mandato, o presidente Jair Bolsonaro resolveu iniciar uma rodada de viagens pelo país e priorizar o andamento de programas de apelo social.

Há pelo menos três programas com potencial de alavancar a popularidade do presidente que estão em gestação. A maior parte foi "herdada" pelas gestões petistas. Para apagar as marcas do passado, o governo vai fazer ajustes e rebatizar alguns desses programas.

É o caso do Minha Casa, Minha Vida, vitrine política da ex-presidente Dilma Rousseff, que vai mudar de nome e será rebatizado de "Casa Verde Amarela" para tirar a "marca vermelha" da gestão anterior.

O apelo ao viés nacionalista também virá no Renda Brasil, que está em elaboração pela equipe de Paulo Guedes, com a intenção de substituir o Bolsa Família. O programa de combate à pobreza foi lançado em 2004 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante a campanha eleitoral, o então candidato Bolsonaro teve que retirar as críticas ao programa e prometer sua continuidade. Já no governo, o presidente concedeu no fim do ano passado - via Medida provisória - uma espécie de 13º salário para beneficiários.

Essa parcela adicional do benefício foi criada apenas com a intenção de fazer o pagamento em 2019 e não deve ser paga novamente. O governo inclusive operou para que a MP caducasse e assim o benefício não pudesse ser transformado em uma medida de Estado como propôs o relatório da Comissão Mista que analisava a MP.

Antes, enquanto deputado, Bolsonaro reuniu diversas críticas em relação ao programa petista. Em 2011, em discurso na Câmara, afirmou que o programa levaria o Brasil a uma "ditadura do proletariado", caso fosse mantido. "Devemos discutir aqui a questão do Bolsa Família. Devemos colocar um fim, uma transição para o Bolsa Família, porque, cada vez mais, pobres coitados, ignorantes, ao receberem Bolsa Família, tornam-se eleitores de cabresto do PT", disse na ocasião.

Agora, a ideia de Paulo Guedes para o criar o Renda Brasil é rever alguns benefícios que considera ineficiente - como o seguro defeso - e unificá-los em um só programa.

Antes mesmo de sair do papel, o programa já recebe críticas de parlamentares. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse no domingo (5), em entrevista à Globo News, que o Renda Brasil como "mais do mesmo" e não cumpre o papel de garantir a "mobilidade social" dos mais pobres.

Mudanças trabalhistas

Além dos dois programas sociais que estão em fase de elaboração pelo governo, há pelo menos mais uma medida da equipe econômica que virá carregada com o selo nacionalista de Bolsonaro: a nova Carteira Verde Amarela digital.

A ideia de Guedes é permitir o registro por hora trabalhada de serviços prestados pelo trabalhador para vários empregadores. No modelo em gestação na pasta, a previsão é de que a nova carteira não tenha cobrança de encargos trabalhistas.

O tema é alvo de desejo do presidente já desde a campanha. Depois de eleito, Bolsonaro reforçou o discurso na linha de que "menos direitos resultarão em mais emprego".

"Não adianta você falar 'tem que ter todos os direitos' e não tem emprego pela frente", afirmou o presidente ao defender a volta do debate da carteira verde e amarela.

O tema já chegou a ser tratado no Congresso, mas em abril a MP 905 acabou não sendo votada e caducou. O plano tinha o objetivo de gerar vagas para jovens que ainda não tiveram seu primeiro emprego. A estimativa do governo era criar 1,8 milhão de empregos com a medida até o final de 2022.

Bandeira jamais será vermelha

Com um governo recheado de militares e que exaltam o nacionalismo, não é à toa que o presidente se apega às cores da bandeira do Brasil e nem ao nome do país nesses novos programas.

O presidente retomou hábitos de cerimônia de hasteamento da bandeira semanalmente, costuma usar gravatas com as cores do Brasil e ainda reforça sempre que pode o slogan "Brasil acima de tudo".

Bolsonaro tem utilizado cores da bandeira brasileira até para inflar apoiadores em suas manifestações. Nesses atos, apoiadores já gritam faz tempo "que nossa bandeira jamais será vermelha", em referência às cores do PT.

Agora, ao trocar nomes de programas e rebatizar ações da era petista, o presidente tenta reforçar ainda mais essa imagem. Nada errado em exaltar as cores oficiais do país. Mas é sempre bom lembrar que a bandeira não é apenas de seu governo, mas sim de todos os brasileiros.

Carla Araújo