PUBLICIDADE
IPCA
0,24 Ago.2020
Topo

Coluna

Carla Araújo


Carla Araújo

Sem efeito imediato, zerar taxa do arroz é decisão arriscada de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

10/09/2020 13h35

O presidente Jair Bolsonaro já pediu patriotismo aos donos de supermercados para que baixem o preço do arroz, já conseguiu convencer o ministro Paulo Guedes (Economia) a buscar alguma medida que mostrasse atuação do governo no caso. Agora, resta saber se as reações às suas ações serão positivas ou não.

Isso porque, a decisão de zerar as tarifas de importação é uma manobra política arriscada do presidente. Primeiro, porque é praticamente consenso entre os economistas que a medida não surtirá efeito no curto prazo. Ou seja, o consumidor que está incomodado em ver os preços do arroz nas alturas provavelmente ainda continuará sentindo o peso do grão no bolso.

Por outro lado, o presidente tem como umas de suas maiores bases de apoio, os ruralistas, a bancada do agronegócio. E facilitar a entrada de produto estrangeiro atinge os produtores que já estão no meio da safra. Bolsonaro precisa do Congresso para tocar as suas reformas e tentar a esperada recuperação econômica.

"Obviamente, o presidente está dando uma resposta política para as coisas". A frase é de um auxiliar do ministro Guedes.

Bolsonaro está preocupado com as eleições. A de 2022, onde já é pré-candidato à reeleição, mas também com a que acontece daqui a alguns meses.

Com um mundo atingido por uma pandemia, o presidente teve que fazer concessões a agenda liberal de Guedes, abrir os cofres e ganhou popularidade com o auxílio emergencial. Não está disposto a arriscar nada pela alta de um item tão básico aos brasileiros.

Agora, pede respostas e dá ordens.

Guedes, que vive um dia depois do outro resolvendo crises, repetindo o mantra "não parem de trabalhar" para sua equipe, tenta responder.

O que poderia ser feito?

Não tem jeito. É a conta simples da oferta e da procura e de um mercado livre.

Na avaliação de um técnico da economia, a medida "vai na direção correta, mas o efeito deve ser limitado."

A explicação para a reação do mercado não ser rápida como quer o governo, é que se trata de uma commodity, com preço formado nos mercados internacionais e num cenário com o Real bastante desvalorizado.

Para técnicos, a medida pode até ajudar pelo potencial de aumento de oferta, mas não deve ter impacto expressivo na redução dos preços. "Baixar tarifa é comum nessas circunstâncias, mas não tem muito o que fazer", diz um economista.

Há algumas medidas que já foram adotadas por outros países no passado, como a Argentina, que decidiu colocar imposto sobre exportação do leite. Para o governo brasileiro, essa é uma medida ruim e extremamente intervencionista, que não está no radar. Por enquanto.

"Ninguém vai interferir no preço", têm garantido o presidente e seus subordinados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Carla Araújo