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TST concede reajuste a funcionários e determina fim da greve dos Correios

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

21/09/2020 17h15Atualizada em 21/09/2020 20h46

O Tribunal Superior do Trabalho decidiu, em julgamento realizado nesta segunda-feira, encerrar a greve dos funcionários dos Correios, que acontece desde 17 de agosto. De acordo com a decisão, os empregados devem voltar ao trabalho amanhã, sob pena de multa de R$ 100 mil por dia.

A empresa comemorou a decisão. Já o sindicato rejeitou o acordo e recomendou que os funcionários mantenham a greve. Devem ser feitas assembleias hoje e amanhã para votação.

A decisão de hoje representou também uma derrota parcial à estatal, já que ficou mantida a cláusula que prevê a correção monetária de 2,6% dos salários. Os trabalhadores, no entanto, pediam uma reposição salarial de 5%.

A Corte considerou que o movimento grevista não foi abusivo. Por outro lado, os ministros decidiram seguir a jurisprudência trabalhista e haverá um desconto salarial referente à metade dos dias de greve; nos demais dias, haverá compensação.

O fim da greve era defendido pelo ministro das Comunicações, Fabio Faria, e pelo presidente dos Correios, general Floriano Peixoto. Ambos afirmaram que a retirada dos benefícios era necessária para manter a sustentabilidade da empresa.

Cláusulas sociais mantidas

O principal imbróglio do julgamento foi em relação à manutenção dos benefícios dos trabalhadores. A estatal pretendia retirar mais de 70 itens concedidos historicamente aos funcionários.

A relatora do caso, ministra Kátia Arruda, votou para que todos os benefícios fossem mantidos, mas acabou parcialmente vencida. Prevaleceu a tese divergente apresentada pelo ministro Ives Gandra Filho, que conta com a simpatia do presidente Jair Bolsonaro.

Em um voto com mais de 100 páginas, a ministra destacou que, em seus anos de Corte trabalhista, essa foi a primeira vez que viu uma empresa propor a retirada de todas as cláusulas e direitos.

A ministra disse, ainda, que apesar de os Correios alegarem problemas econômicos com a manutenção dos direitos, há informações da própria estatal que mostram que houve aumento da procura durante a pandemia.

Ives Gandra, ao apresentar a divergência, propôs que fossem mantidas nove cláusulas, que a empresa já havia aceitado, e mais 20 cláusulas que tratam de benefícios sociais, que não representam impacto financeiro para a estatal.

Houve uma alteração no texto da cláusula que trata do plano de saúde e vale alimentação. A relatora defendeu mudar o verbo de que a empresa "pode" oferecer o benefício para que a estatal "deve" garanti-lo.

Adicional de férias e licença-maternidade como de CLT

Entre os benefícios que serão alterados está a remuneração das férias. Atualmente, os funcionários recebem 2/3 de adicional ao salário. A CLT garante ao trabalhador 1/3 de incentivo no período de descanso. Segundo os Correios, a economia prevista com a revisão será de mais de R$ 600 milhões ao ano.

A licença-maternidade também vai mudar. Atualmente, a licença é de 180 dias, e a proposta com a retirada da cláusula é passar para 120 dias, como trabalhadores do regime CLT.

Empresa não quis negociar, diz relatora

Em seu voto, a ministra Kátia Arruda destacou a intransigência dos Correios em aceitar os acordos anteriormente propostos pela Justiça do Trabalho.

"Não houve uma negociação coletiva, já que a postura da empresa desde o início, incluindo nas esferas extrajudiciais, foi de absoluta resistência", declarou. No último dia 11, a magistrada propôs um acordo. Os funcionários sinalizaram disposição em negociar, mas a estatal não.

"Houve uma patente conduta negativista para negociar por parte da empresa, eu com 30 anos na Justiça do Trabalho jamais tinha vivenciado uma conduta assim", afirmou.

Justificativa da estatal

Em entrevista à coluna na semana passada, o presidente dos Correios, general Floriano Peixoto, afirmou que a proposta feita pela estatal —de extinção de mais de 70 benefícios— estimava uma economia na ordem de R$ 800 milhões por ano.

Questionado se essa economia é necessária, já que a empresa vem registrando lucro nos últimos anos, Floriano afirmou que, apesar dos números positivos nos últimos anos, há um passivo de R$ 2,4 bilhões a ser saldado. "Os resultados positivos recentes têm reduzido esse déficit, e a nossa expectativa é a de acelerar esse processo", disse.

Floriano destacou, ainda, que os benefícios que a empresa queria extinguir foram concedidos em momentos diferentes do atual, tanto para a empresa como para o Brasil. "Para os Correios é inviável, hoje, manter em patamar tão elevado suas despesas com pessoal, pois a transformação do mercado e dos hábitos de consumo da sociedade demanda investimentos que a empresa não tem realizado a contento", disse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.