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Carla Araújo

Doria dá mau exemplo ao ir a Miami enquanto CoronaVac trava em burocracias

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), volta a SP amanhã, depois de "bate e volta" nos EUA - Sergio Andrade/Governo do Estado de São Paulo
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), volta a SP amanhã, depois de "bate e volta" nos EUA Imagem: Sergio Andrade/Governo do Estado de São Paulo
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

23/12/2020 20h36Atualizada em 24/12/2020 10h17

A notícia da viagem do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a Miami (EUA) pode ser considerada uma espécie de piada sem nenhuma graça, se não fosse até um desrespeito com os paulistas e, porque não, com os brasileiros.

Isso porque ela aconteceu em meio a uma pandemia e um dia depois de o governo criar novas restrições no estado que não parecem ter muita lógica, já que os dias de restrição já teriam boa parte do comércio fechado por conta dos feriados. A ideia de fechar um pouquinho e abrir um pouquinho não vai resolver.

Qualquer ação para minimizar o avanço da doença é válida e necessária, mas a população precisa entender e se conscientizar de que mais sacrifícios serão necessários.

Isso, obviamente, se estende aos governantes. Se Doria cobra exemplo do presidente Jair Bolsonaro, sua imagem embarcando de madrugada para os Estados Unidos entrou para os registros de péssimos exemplos.

Justificativa controversa

Ao anunciar seu afastamento por dez dias para se dedicar à família, o governador justificou que a medida era necessária pois ele "se ausentou desse convívio durante o combate à pandemia do coronavírus".

A pergunta que fica é: que governante não teve que fazer sacrifícios (ou pelo menos deveria ter feito) para atuar no combate ao coronavírus?

E aqueles profissionais da chamada linha de frente, médicos e enfermeiros, eles não tiveram que se ausentar do convívio com a família?

Doria sentiu o baque. Quando a notícia se espalhou e, por ironia do destino, seu vice Rodrigo Garcia anunciou que testou positivo para covid, o governador anunciou nas redes sociais seu retorno para São Paulo.

No início da noite, o governo divulgou uma nota afirmando que Doria "licenciou-se por dez dias depois de um ano de trabalho ininterrupto. Comprou com dinheiro próprio sua passagem e viajou para os Estados Unidos, em avião de carreira".

"Lá, iria descansar com sua esposa e dar duas palestras sobre oportunidades de investimentos no Estado e o Plano de Retomada Econômica de São Paulo. Uma das conferências, no World Trade Center-Florida e a outra na Brazilian-Florida Chamber of Commerce, dias 28 e 29 de dezembro".

A nota repetiu ainda que "diante da notícia desta manhã de que o vice-governador Rodrigo Garcia havia se contaminado com a covid-19, Doria imediatamente decidiu voltar a São Paulo". A previsão é que o governador chegue nesta quinta-feira (24) de manhã.

Frustração

Além do bate e volta injustificado de Doria, outra notícia que teve o governo de São Paulo no foco frustrou a população brasileira, que aguardava para essa quarta-feira (23) a oficialização do pedido de registro para a CoronaVac. O pedido, no entanto, não veio. O governo alegou problemas contratuais com a chinesa Sinovac.

Em meados de dezembro, quando já tinha adiado o pedido de registro uma vez, o próprio governador anunciou que São Paulo esperava "obter o registro da vacina do Butantan até o final deste ano e iniciar a vacinação em 25 de janeiro conforme está programado".

O anúncio prometido para hoje tinha mobilizado a Anvisa, que queria evitar qualquer acusação de lentidão e estava toda de plantão. Se o pedido de registro fosse realmente apresentado nesta quarta, eles teriam 72 horas para tomar uma decisão, conforme a legislação.

Em meio à guerra política que se criou entre o governo de São Paulo e a autarquia federal, havia dentro da Anvisa o receio de que o governo de São Paulo entregasse uma documentação falha e pressionasse ainda ainda mais para tentar pregar o discurso de que há má vontade no órgão federal.

Fontes da agência nacional afirmam que o governo de São Paulo se antecipou numa tentativa de dominar a narrativa de comunicação e que essa estratégia hoje falhou. Além disso, reconhecem que há uma burocracia natural do processo e que é preciso tomar todo o cuidado com o registro, já que se trata de uma questão de saúde pública.

Mais 15 dias de espera

Segundo o governo paulista, agora, a Anvisa receberá a documentação em até 15 dias, quando analisará as informações e decidirá se aprova o uso do imunizante em território nacional.

Depois do anúncio, a Anvisa divulgou uma nota em que afirma não houve alterações das informações do Butantan, cuja última atualização foi feita no dia 21, com a inclusão do Certificado de Boas Práticas para a fábrica da Sinovac, e ressaltou que estava de prontidão.

"Para garantir que qualquer pedido referente a vacina Covid -19, seja avaliado de forma ágil, a Anvisa suspendeu recessos de fim de ano e férias que possam impactar na capacidade de análise da Anvisa".

O governo paulista ainda diz garantir que o calendário programado será mantido. Mas fica difícil acreditar, já que somente no "dia d" os supostos problemas contratuais com a fabricante chinesa Sinovac foram revelados.

Uma coisa, infelizmente, é certa, 2020 vai acabar e a prometida vacina ainda está distante da realidade dos brasileiros, que veem o número de mortos pela doença passar da marca de 189 mil brasileiros e assiste a outros países cada vez mais avançando na imunização da sua população.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.