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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mesmo incomodados com o STF no caso Lula, militares descartam reação

Oito dos 22 ministros de Bolsonaro são militares, a maior participação das Forças Armadas em um governo desde a redemocratização - Equipe de transição/Rafael Carvalho
Oito dos 22 ministros de Bolsonaro são militares, a maior participação das Forças Armadas em um governo desde a redemocratização Imagem: Equipe de transição/Rafael Carvalho
Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

Do UOL, em Brasília

10/03/2021 15h34

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin de anular as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi bastante criticada entre militares de alta patente, que, no entanto, preferiram em sua maioria silenciar publicamente para evitar o acirramento de conflitos.

No Ministério da Defesa, interlocutores do ministro Fernando Azevedo reconhecem que houve incômodo e estranheza com a decisão de Fachin. A avaliação é que as próximas decisões do STF possam ter "consequências para a segurança jurídica do país". "Ninguém viu com bons olhos", afirmou uma fonte em caráter reservado.

A ordem, no entanto, é não alimentar embates com o Judiciário e nem teorias da conspiração sobre a possibilidade de um novo golpe militar.

Mas algumas opiniões isoladas têm gerado debate dentro da caserna.

Um artigo escrito pelo general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva repudiando a decisão de Fachin começou a circular entre generais nesta terça-feira (9). Nele, o general —na reserva desde 2007— afirma que os desdobramentos políticos atuais podem gerar uma crise institucional que obrigue uma ação das Forças Armadas.

"A nefasta decisão do ministro Fachin, livrando Lula de suas condenações, foi uma bofetada na cara [desculpem a expressão] da nação brasileira", escreveu em texto publicado pelo Clube Militar, instituição que reúne boa parte dos oficiais de alta patente que já estão na reserva, ou seja, não têm comando de tropas.

"Influência meramente intelectual"

Generais da ativa e da reserva ouvidos pela coluna demonstraram respeito pela opinião de Rocha Paiva, mas salientam que a análise do general não deve ser vista como uma ameaça de golpe militar.

Ex-ministro do governo Bolsonaro e também da reserva, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz disse que Rocha Paiva é uma "pessoa da mais alta qualidade", mas que não acredita que a sua posição possa influir no Exército. "O Exército tem seu próprio sistema de análise de acompanhamento da conjuntura nacional", disse à coluna.

"O Rocha Paiva é uma pessoa excelente, séria, culta. É a opinião dele. O pessoal da reserva, como eu, não fala pelo Exército", completou o ex-ministro.

Um general da ativa, que já foi comandante e comandado por Rocha Paiva, afirmou que a opinião do general é significativa e que tem muita gente que pensa como ele, mas ele está longe de ser uma liderança. "Quem está na reserva há mais de dez anos não comanda tropa e não tem esse tipo de influência que muitas vezes se imagina. É uma influência meramente intelectual", afirmou.

Ameaça à democracia?

Da mesma turma do general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, Rocha Paiva é comedido nas críticas ao presidente Jair Bolsonaro e duro em relação ao Judiciário. No artigo, ele diz que o STF "feriu de morte o equilíbrio dos Poderes, um dos pilares do regime democrático e da paz política e social" e que se o país continuar no mesmo rumo chegaremos ao ponto de uma "ruptura institucional".

Em conversa com a coluna, Rocha Paiva negou que esteja pregando golpe ou derrubada das instituições, mas disse ser a favor de que "a nação vá às ruas" para evitar uma crise grave no país, que exija uma decisão (e eventual ação) das Forças Armadas.

"É claro que isso não vai para frente sem liderança. Mas, no momento em que a nação toma uma posição, a liderança aparece", afirmou.

Na avaliação de Rocha Paiva, o Judiciário deveria avaliar a atual situação "com responsabilidade política". "Imagine um conflito entre os Poderes. A quem as Forças Armadas vão obedecer? Olha o perigo. É uma falta de responsabilidade política o que o STF está fazendo", afirmou.

Amizade com Villas Bôas

Alguns generais ouvidos pela coluna para comentar o artigo do general reformado o apontara como ultraconservador e destacaram sua proximidade com o general Villas Bôas, autor de um tuíte polêmico às vésperas de outro julgamento de um habeas corpus a Lula no STF.

"Rocha Paiva é muito chegado ao Villas Bôas e sabe exatamente o que escreve e diz", afirmou um militar de alta patente que despacha no Palácio do Planalto. "Ele traduz com fidelidade o pensamento da esmagadora maioria dos companheiros", completou.

À coluna, Rocha Paiva chamou o ex-comandante do Exército de grande amigo e disse que os dois "são primos-irmãos de pensamento. "Pensemos de forma muito igual", disse.

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