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Carla Araújo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Irônico, Mourão diz que Bolsonaro pediu que ele baixasse preço da gasolina

Carla Araújo

Jornalista formada em 2003 pela FIAM, com pós-graduação na Fundação Cásper Líbero e MBA em finanças, começou a carreira repórter de agronegócio e colaborou com revistas segmentadas. Na Agência Estado/Broadcast foi repórter de tempo real por dez anos em São Paulo e também em Brasília, desde 2015. Foi pelo grupo Estado que cobriu o impeachment da presidente Dilma Rousseff. No Valor Econômico, acompanhou como setorista do Palácio do Planalto o fim do governo Michel Temer e a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência.

e Fabíola Cidral, do UOL em Brasília

17/11/2021 16h36

Simpático e descontraído, o presidente em exercício Hamilton Mourão chegou pontualmente às 10h para a entrevista com o UOL em uma sala ao lado de seu gabinete no Palácio do Planalto. A programação inicial previa apenas 20 minutos de conversa, mas o próprio pediu a sua assessoria que permitisse a continuidade da conversa.

Aos 68 anos, Mourão, que está como presidente em exercício por conta de viagem ao exterior do presidente Jair Bolsonaro, não fugiu de perguntas e polêmicas, mas escolheu em alguns momentos a ironia como forma de demonstrar sua relação com o presidente. Em outros, em tom sutil, fez críticas a Bolsonaro.

Disse que toda vez que o presidente viaja faz questão de leva-lo ao aeroporto e sempre faz a mesma pergunta: "Alguma determinação? Alguma ordem?"

"A última que ele me deu era para baixar o preço do combustível, diminuir a inflação e fazer o dólar cair. Estou tentando fazer isso ao longo desses dias. Cinco dias para fazer isso. Ele queria voltar com tudo resolvido. Lamento informar, mas não consegui", afirmou, em tom de ironia.

Mourão rebateu também as críticas de que em um último evento no Palácio do Planalto ele e Bolsonaro mal se falaram. "Nós tínhamos conversado antes. E eu, durante eventos, eu não gosto de ficar conversando porque eu considero um desprestígio com a pessoa que está ali discursando. A não ser que seja uma coisa importantíssima que ocorra naquele momento", afirmou.

'Se não fosse leal, poderia ter articulado o impeachment'

Em um dos momentos em que falava de sua relação com Bolsonaro, Mourão citou a possibilidade de ter articulado um impeachment do presidente, mas destacou que Bolsonaro sabe que pode contar com sua lealdade.

"Tivemos aí alguns atritos em alguns momentos. Isso é normal, não vejo problema nisso. Agora, o presidente compreende perfeitamente que ele tem a minha lealdade. Então ele não precisa temer nada de mim. Com todas as crises que foram vividas, acredito que eu fosse um político de outra estirpe eu teria negociado ali dentro do Congresso um impeachment do presidente. Como eu não sou, ele sabe que tem essa situação tranquila", afirmou.

O vice-presidente não escondeu que sua relação com Bolsonaro é distante, disse que troca poucas mensagens com Bolsonaro e que "de vez em quando o presidente manda "umas mensagens no WhatsApp". "Já ficou [bravo], já ficou. Mas agora ele entendeu qual é o sentido das minhas declarações", afirmou o vice-presidente, sem se esquivar de divergir de Bolsonaro.

Sem oposição a Bolsonaro

Mourão elogiou o ex-ministro Sergio Moro, disse que o ex-juiz tem "luz própria", mas negou qualquer possibilidade de fazer oposição a Bolsonaro.

"Dentro da minha ética, eu jamais poderia fazer isso. Em primeiro, iria dividir parcela do grupo ao qual eu pertenço e que apoia o presidente Bolsonaro. Então eu não faço isso em hipótese alguma", declarou.

"Sou milico", mas quero ser senador

Mourão tem evitado cravar seu destino político, mas admitiu convites de partidos para que dispute um cargo no ano que vem e, depois de certa insistência, afirmou que seu caminho mais natural é disputar uma vaga ao Senado.

"Se eu tiver que concorrer a um cargo, para mim, minha visão seria o Senado, seja pelo Rio Grande do Sul, meu estado natal, seja pelo Rio de Janeiro. Essa é a decisão que eu terei que tomar após eu definir se vou continuar na política. E por qual lugar eu vou concorrer", disse.

Mourão destacou sua ligação com o Exército e disse que ainda não se considera um político, pois não foi "picado ainda pela mosca da política".
"Eu sou milico. Eu passei 46 anos da minha vida dentro do Exército. Você bota mais 5 anos de aluno de Colégio Militar. São 51 anos usando uniforme. Sou filho de militar, então eu nasci dentro da instituição militar. A minha vida não teve esse viés político, diferente de outras pessoas. A política não me picou dessa forma ainda. Por isso que eu não tomei essa decisão".

Cargo de presidente?

Questionado se tinha o sonho de ser presidente da República, Mourão disse que essa pretensão não está na sua "linha da vida".

"Eu tenho um tempo ainda, três ou quatro meses para definir a minha vida. Você colocou aí: 'você quer ser presidente?'. Não é o momento. Não está na minha linha da vida essa situação. Não vejo oportunidade para isso no presente momento. E, em um momento futuro, eu já estarei com uma idade um pouco mais avançada. E eu considero que não é o mais o caso de disputar um cargo dessa natureza", disse Mourão, que está com 68 anos.

Neste momento, Mourão citou o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, "com quase 80 anos de idade" e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será "o candidato do PT também já beirando essa faixa etária no momento da eleição".

"Na minha visão, acho que a pessoa para governar um país complicado como o Brasil tem que ter muita energia ainda. Tem que estar atento 24 horas do dia, não pode estar dormindo, não".

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