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REPORTAGEM

Mesmo surpreso, ministro demitido por Bolsonaro não deve sair 'atirando'

O agora ex-ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, durante evento em Brasília (DF) em junho Imagem: Wallace Martins/Futura Press/Estadão Conteúdo
Carla Araújo

Do UOL, em Brasília

12/05/2022 14h23

Não foi apenas o Almirante Bento Albuquerque que foi pego de surpresa com a decisão do presidente Jair Bolsonaro (PL) de demiti-lo do Ministério de Minas e Energia (MME). No Palácio do Planalto, auxiliares próximos do presidente admitiram que, apesar das insatisfações com o preço dos combustíveis, Albuquerque parecia integrar a lista de ministros fiéis e que já havia passado por diversas crises anteriormente.

Albuquerque soube de sua demissão apenas na terça-feira (10) à noite. No dia anterior, tinha participado de uma reunião com o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, e continuava a determinar que técnicos da pasta buscassem soluções para tentar amenizar a alta dos preços.

O então ministro, porém, avisava das dificuldades de propostas práticas e efetivas serem tomadas no curto prazo. À coluna, após a reunião, Albuquerque disse que as medidas estavam sendo analisadas "no aspecto técnico e jurídico".

Albuquerque era um dos poucos ministros que estavam desde o começo do governo. Ao lado dele, apenas Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Guedes (Economia), Wagner Rosário (CGU) e Roberto Campos Neto (Banco Central), estão no time de Bolsonaro desde o início do governo.

No comando do MME, Albuquerque teve que administrar diversas crises. A começar pela tragédia de Brumadinho, já em janeiro de 2019. Enfrentou a crise hídrica, por conta da maior seca em 90 anos, além dos apagões no Amapá.

No caso dos combustíveis, Albuquerque vinha atuando, segundo fontes, "de acordo com suas limitações". Em março, à coluna, o então ministro disse acreditar que Bolsonaro sabia que não havia instrumentos para intervir na estatal.

Apesar da surpresa, o desgaste recente da troca do comando da Petrobras, com a indicação malsucedida de Adriano Pires para o comando da empresa, já havia deixado Bolsonaro bastante irritado.

Na ocasião, a indicação de Pires - que foi uma decisão de Albuquerque - foi vista na Petrobras como uma lambança do governo. Para Bolsonaro, foi erro do então ministro.

O episódio passou, mas o novo aumento do diesel nessa semana teria sido a gota d'água, na avaliação de uma fonte palaciana. Em sua última live, Bolsonaro fez um apelo ao presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, e a Albuquerque, para que não houvesse novos aumentos nos preços dos combustíveis. E fez um apelo irritado para que a estatal reduzisse seu lucro, que classificou como "um estupro".

Auxiliares do presidente admitem que a necessidade de um discurso eleitoral para tentar mostrar ações do presidente custou a cabeça do Almirante.

Não deve sair 'atirando'

Ao longo do mandato, Bolsonaro tem acumulado inimizades com ex-aliados. A lista de ministros que hoje criticam o presidente cresceu recentemente com declarações de ex-integrantes da chamada ala ideológica, como Abrahem Weintraub e Ernesto Araújo.

Nessa relação, porém, há outros nomes importantes, como do ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro, que chegou a tentar se colocar como adversário na disputa presidencial, mas não obteve apoio político para tal.

Integrantes do governo que conhecem Albuquerque, porém, acreditam que o Almirante deve seguir o exemplo de outros colegas de esplanada que preferiram a discrição, como o ex-chefe da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.

"Não acredito que ele sairá 'atirando'. Não é o perfil dele", disse uma fonte que possui proximidade com Albuquerque.

Alguns auxiliares, inclusive, fazem a relação com a origem militar de Albuquerque e afirmam que ele deve "como bom marinheiro, submergir".

Há quem faça ressalvas, alegando que o ex-ministro "como qualquer ser humano" pode vir a reagir caso passe a ser atacado por integrantes do chamado gabinete do ódio de Bolsonaro, que costuma atacar aqueles que se opõem a Bolsonaro.

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