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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Liberdade", como quer Bolsonaro, abre portas para abusos trabalhistas

A liberdade da acumulação primitiva depende necessariamente da violência. Esta é uma das explicações para a neurose armamentista do bolsonarismo - Reprodução/Instagram
A liberdade da acumulação primitiva depende necessariamente da violência. Esta é uma das explicações para a neurose armamentista do bolsonarismo Imagem: Reprodução/Instagram
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

08/09/2021 11h00

Desde muito antes do sete de setembro, o presidente Jair Bolsonaro vem calibrando o discurso e mobilizando suas tropas Brasil afora sob o mote da liberdade.

É claro que tudo não passa de cortina de fumaça para camuflar a ideia de ruptura institucional e insuflar a base radicalizada.

Ainda que ele próprio reconheça a dificuldade de fazer uma virada de mesa vingar, seja por resistência das instituições do país, seja por receio de sanções internacionais, Bolsonaro precisa manter acesa a chama de um golpe para excitar seus seguidores.

Mas é fato que os atos do dia da independência testaram uma nova fórmula. Ameaças explícitas e violentas, como melar as eleições ou fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), continuaram lá. Mas a mobilização orbitou em torno de uma causa abstrata e sedutora: liberdade para fazer o que der na telha.

Mesmo que não passe de um truque de retórica, a repaginada nas palavras de ordem é importante para compreender a essência do catecismo bolsonarista.

A liberdade tão reclamada pelo presidente é a da "acumulação primitiva" - aquela coisa típica do desbravamento do Brasil colonial que, de uns tempos para cá, tenta ser normalizada.

É a carta branca para madeireiros extraírem toras de terras indígenas e produtores rurais queimarem biomas sensíveis, como prova a explosão dos índices de desmatamento desde o início deste mandato.

É a "segunda chance" para empregadores não serem punidos por submeterem trabalhadores à escravidão, como propunha a Medida Provisória 1045, rechaçada pelo Senado na semana passada.

É a porteira aberta para reter os salários dos funcionários, como sugerem as denúncias cada vez mais consistentes sobre o esquema das rachadinhas.

Como se vê, a liberdade para realizar a acumulação primitiva depende necessariamente de um grau de violência. Por sinal, está aí uma das explicações para a neurose armamentista do presidente.

A verdade é que Bolsonaro nunca passou nem perto de vestir a roupa de um verdadeiro liberal - alguém que realmente defenda o princípio da liberdade, acima de tudo e de todos.

Na economia, sua conversão aos princípios do Estado mínimo e da desregulação do mercado foi um mero casamento de conveniência com a nata do PIB para faturar as eleições de 2018.

Além disso, é no mínimo cômico imaginar que um apologista ferrenho da ditadura militar, aquele regime que - pasmem! - instituiu um sistema oficial de censura, realmente se importe com liberdade de expressão.

Sem falar na questão das liberdades individuais: as posturas abertamente preconceituosas do presidente contra gays dispensam qualquer comentário.

Como prova o núcleo ideológico do governo encabeçado por Olavo de Carvalho, o bolsonarismo puro sangue tem tanta aversão ao liberalismo como tem à esquerda.

Não é por acaso que o guru do presidente, na sua notória e mal resolvida fixação pelo orifício do tubo digestivo humano, escreveu em um de seus mais deselegantes tuítes que "por trás de todo liberal há um c* aberto implorando por uma p*** comunista".

O que move Bolsonaro e seus fiéis mais fanáticos não é a ideia de que os grilhões do Estado emperram a criatividade de pessoas talentosas e visionárias, os "empreendedores", como afirmam os liberais. O ranço do presidente contra as instituições que supostamente tolhem sua liberdade - como o STF e a imprensa - tem outra natureza.

Bolsonaro não olha para frente, como pretendem os liberais, na ânsia de superar o atraso e dar mais eficiência aos serviços públicos prestados à população que ele deveria governar.

Ao contrário, o presidente mira o passado. Uma época idílica em que supostamente havia harmonia social e respeito aos valores conservadores. Mas também um tempo em que imperava da lei do mais fortes - o cada um por si e o salve-se quem puder da acumulação primitiva. Sem mimimi. Sem encheção de ninguém.

No fim das contas, o que Bolsonaro faz é conclamar seus seguidores a saírem às ruas em nome de seu conceito bastante particular de liberdade - aquela que não conhece quaisquer limites e que já justificou intolerância, brutalidade e devastação.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL