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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

7 Prisioneiros chega à Netflix falando de escravidão nestes tempos brutos

O filme explora a relação do protagonista Mateus (Christian Malheiros) com o gerente linha-dura do ferro-velho (Rodrigo Santoro).. - Divulgação / Netflix
O filme explora a relação do protagonista Mateus (Christian Malheiros) com o gerente linha-dura do ferro-velho (Rodrigo Santoro).. Imagem: Divulgação / Netflix
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

09/11/2021 04h00

O cineasta Alexandre Moratto nem havia concluído seu longa-metragem de estreia - o aclamado Sócrates - quando em uma madrugada de insônia brotou a ideia para seu segundo filme. "Liguei a televisão e estava passando uma matéria sobre uma fábrica em São Paulo. Em pleno século 21, tinha um rapaz acorrentado. Literalmente. Fiquei muito chocado vendo aquilo", relembra.

De fato, quando se fala em escravidão contemporânea, situações de cárcere privado não são comuns. Mas isso não quer dizer que elas não ocorram. E é justamente da crueza dessa relação extrema e desumana que vem a matéria-prima de 7 Prisioneiros.

Com Rodrigo Santoro no elenco e Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, na produção, o filme entra nesta quinta-feira (11/11) no cardápio da Netflix, depois de rodar importantes festivais mundo afora.

Em 7 Prisioneiros, todas as possibilidades previstas pelo Código Penal para configurar o crime de "reduzir alguém a condição análoga à de escravo" dão as caras no ferro-velho que serve de palco para a trama.

Estão lá as dívidas ilegais de transporte e de comida impostas a migrantes que deixam suas casas à caça de trabalho. Também está retratado o cotidiano de jornadas exaustivas e condições degradantes. Sem falar nas ameaças físicas e psicológicas.

Sob esse ponto de vista, o filme é uma didática alegoria da relação que, segundo uma das sumidades no tema, o sociólogo José de Souza Martins, "vai ao ponto de fazer o patrão supor que tem um direito absoluto ao corpo do trabalhador, além do próprio trabalho, como se vê quando este é submetido à humilhação, à tortura, ao castigo e até à morte".

É importante ressalvar que o ambiente retratado em 7 Prisioneiros não é o que mais comumente se verifica no Brasil quando ouvimos falar em casos de trabalho escravo.

Em geral, o que se vê por aí - de fazendas a canteiros de construção civil, passando por oficinas de costura - são trabalhadores instalados em alojamentos precários, privados não só de saúde e segurança, mas sobretudo de dignidade.

"Eu achei que, visualmente, a ideia do cárcere privado criaria uma metáfora mais forte para o espectador entrar no filme", explica Moratto. E, mais uma vez, isso não quer dizer que a violência contida no longa-metragem não encontre eco na realidade. Pelo contrário.

Inspiração veio da vida real

Para garimpar inspiração para o roteiro, Moratto acompanhou ao longo de uma semana mais de 60 entrevistas com vítimas de escravidão contemporânea. Elas foram ouvidas por servidores do Ministério Público do Trabalho em um projeto conjunto com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Por sinal, foi ao longo dessas entrevistas que ele conheceu um dos atores que faz o papel de um dos 7 Prisioneiros - um imigrante de origem boliviana resgatado por autoridades de uma oficina de costura ilegal da capital paulista. "Ele passou seis meses ameaçado, tiraram os documentos dele. Falaram que, se ele entrasse em contato com a polícia, iriam matá-lo", conta Moratto.

Mas não é na descrição dos elementos típicos da escravidão contemporânea made in Brazil que a narrativa de 7 Prisioneiros se ancora. O filme brilha mais quando explora a contraditória relação do protagonista Mateus, um jovem negro e pobre do interior de São Paulo interpretado por Christian Malheiros, com Luca - o gerente linha-dura do ferro-velho, vivido por Rodrigo Santoro.

A história se fia, então, no embrutecimento do personagem principal. Pouco a pouco, ele deixa de ser peça descartável do tabuleiro para se converter em jogador - e sobreviver. Até porque, jovem, inteligente e ambicioso que é, tem uma vida toda pela frente.

Nesse ponto, é impossível deixar de recordar outro filme de temática parecida: Biutiful, do oscarizado diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, lançado em 2010. A trama gira em torno de Uxbal, um homem que ganha a vida como "gato", arregimentando a mão de obra de imigrantes ilegais para o submundo da Espanha.

Porém, ao contrário de 7 Prisioneiros, o protagonista encarnado por Javier Bardem passa por um processo de humanização. Talvez por estar à beira da morte, em razão de uma doença terminal. Sua jornada passa a ser uma tentativa de amenizar o sofrimento de tanta gente que se submete aos trabalhos que ninguém deveria fazer.

Se uma década atrás Biutiful trazia uma mensagem de relativa esperança, 7 Prisioneiros nos rememora que não há muito mesmo o que comemorar nestes tempos. Ainda mais em um país que vem assistindo ao desmonte de sua política de combate ao trabalho escravo, estruturada ao longo de mais de 20 anos e amplamente reconhecida no mundo todo. Menos pelo atual governo brasileiro, claro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL