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Carlos Juliano Barros

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com potencial de US$ 1 tri, techs da Índia atualizam preconceito de castas

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

25/01/2022 04h00

Exibida ao longo de 2009, Caminho das Índias foi a primeira novela brasileira a faturar um Emmy Internacional, o Oscar da televisão. Sucesso absoluto no horário nobre, a trama tinha como mote um tema clássico: o amor proibido pela diferença de origens.

No caso, o problema não era propriamente a grana. Apaixonado pela protagonista vivida por Juliana Paes, nascida e criada numa família de elite, o personagem de Márcio Garcia guardava um segredo. Apesar de circular entre os ricos, ele era na verdade um dalit - a categoria mais baixa da peculiar hierarquia social da Índia.

Passadas duas décadas de século 21, a coisa mais natural do mundo é perguntar se o preconceito enfrentado pelos dalits, motivado pelo fato de eles historicamente se dedicarem a trabalhos pesados e insalubres, ainda existe para além dos roteiros de filmes e novelas.

A resposta é que ele não só persiste, como se espraia até para a pujante indústria tech da Índia - um setor de ponta supostamente orientado pelos princípios da meritocracia.

O assunto ganhou repercussão mundial depois da publicação na semana passada de uma reportagem da jornalista indiana Raksha Kumar na revista digital Rest of World. A investigação mostra como tradições milenares de segregação social são atualizadas nas competentes e baratas empresas de software da terceira maior economia asiática.

Cotas e discriminação nas universidades

Há duas décadas a Índia vem se consolidando como um dos principais pólos de tecnologia do planeta. De acordo com recente relatório da consultoria McKinsey & Co, o setor pode ultrapassar a barreira do US$ 1 trilhão em valor até 2030.

Fazer carreira na indústria de softwares é, evidentemente, um cobiçado caminho de ascensão social. A principal porta de entrada é o Instituto Indiano de Tecnologia (IIT), universidade com diversos campi espalhados pelo país.

É aí que começam os obstáculos enfrentados pelos dalits. Desde a independência da Índia, em 1947, diversas políticas afirmativas foram criadas para incluir as pessoas da base da pirâmide.

Em tese, há cotas reservadas para dalits e outras minorias tanto no serviço público como nas universidades. Na prática, não funciona bem assim. Um recente relatório produzido por uma ONG local com base no que corresponde à nossa Lei de Acesso à Informação (LAI) revelou que onze departamentos de engenharia do IIT de Mumbai, um dos maiores do país, não admitiram nenhum estudante com direito ao benefício entre 2015 e 2019. Dois deles jamais tiveram alunos que fazem jus às ações afirmativas.

Mesmo os que conseguem abrir a cancela do ensino superior não têm vida fácil. O documentário "Death of Merit" (A morte do mérito, numa tradução livre), por exemplo, conta a história de 18 estudantes que cometeram suicídio por sofrerem discriminação. No ano passado, um vídeo de uma professora ofendendo alunos por causa de sua origem social no IIT de Kharagpur, cidade da região nordeste da Índia, viralizou nas redes sociais.

Unicórnios indianos

Como em outras partes do mundo, a indústria tech da Índia projeta sobre si mesma a imagem de um ambiente competitivo em que só profissionais realmente competentes podem triunfar. Um oásis de modernidade e meritocracia em meio ao compadrio e ao nepotismo tão comuns em outros segmentos empresariais do país.

Mas o discurso não contribui para superar a desigualdade de oportunidades no país. Pelo contrário. Como sete em cada dez estudantes das faculdades de tecnologia pertencem a castas superiores, a mesma proporção se verifica nas empresas de software, afirma um artigo acadêmico citado por Raksha Kumar. Assim, o ambiente de discriminação nas universidades é transplantado para os escritórios das startups.

"Na indústria de tecnologia, o termo "reservation" (cotas, numa tradução livre) é praticamente um palavrão", define Raksha. Segundo os relatos colhidos pela jornalista, os episódios de assédio se manifestam cotidianamente: das piadas sobre o inglês falado pelos dalits à censura de seus hábitos alimentares. Sem falar, claro, no acesso restrito aos cargos de liderança nas empresas.

Quase todos os entrevistados por ela pediram para que suas identidades não fossem reveladas, por medo de retaliações. Um deles, inclusive, contou à repórter que até conseguiu ocultar suas origens de seus colegas de trabalho por um tempo para progredir na carreira. Mas acabou desistindo do esconderijo. "Hoje, pelo menos, tenho minha integridade. Sei que eles me toleram, mas nunca serei um deles", finaliza.