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Quando a Bolsa vai "deslanchar" de uma vez?

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

14/07/2020 19h00

A Bolsa quase atingiu os 60 mil pontos no pior momento dessa crise. Agora, apesar de já ter se recuperado bastante, o Ibovespa teima em ficar na casa dos 100 mil, o que não parece tão animador se lembrarmos do início do ano, em que chegamos perto dos 120 mil pontos. Quando será que a Bolsa vai deslanchar de uma vez?

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. E, neste artigo, bem como no vídeo acima, no qual respondo a perguntas ao vivo sobre o tema, vou traduzir os motivos de a Bolsa ter se recuperado até aqui, porque ela não sobe ainda mais e quando devemos voltar a crescer de verdade.

Apesar de termos observado uma recuperação substancial, a maioria das projeções otimistas de bancos e corretoras apontam que o principal indicador da Bolsa brasileira deve chegar no final do ano em nível entre 100 mil e 110 mil pontos.

Dessa maneira, ou "andaríamos de lado", ou, na melhor das hipóteses apresentaríamos uma evolução razoavelmente modesta até lá, e ainda faltaria uma boa caminhada para que o preço das ações volte ao nível pré-crise.

Apesar de muitos investidores estarem se perguntando por que não há uma recuperação mais forte, o crescimento observado desde o pior momento dessa crise, quando o Ibovespa chegou perto dos 60 mil pontos (uma queda de quase 50%), já é considerado bem vigoroso até aqui. A recuperação já gira na casa dos 50% e 60%, mesmo que ainda haja uma retração acumulada de ao redor de 15% desde a máxima histórica do Ibovespa.

Por que a Bolsa subiu tão rápido?

Há basicamente dois motivos para essa alta. Os juros mundiais estão historicamente baixos e houve muita injeção de liquidez por governos e bancos centrais a fim de se evitar que o pior acontecesse.

Traduzindo, as taxas básicas de juros nos principais países estão em níveis baixíssimos. No Brasil, o Tesouro Selic, que é o investimento em renda física mais seguro, já tem rendimentos reais negativos quando se desconta taxas e Imposto de Renda.

O rendimento real é o juro do investimento menos a inflação do período. Com isso, há um forte estímulo para que o investidor busque melhores retornos nas ações e, não à toa, o número de CPFs cadastrados na Bolsa brasileira já passa dos 2,3 milhões, também um recorde.

Mas você se lembra que os governos e bancos centrais ao redor do mundo injetaram um monte de dinheiro na economia para evitar que a crise fosse mais profunda?

Aqui no Brasil, além dos cortes na Selic, houve também o pagamento de auxílio emergencial para trabalhadores informais, além de crédito subsidiado para os micros e pequenos empresários, redução de compulsórios, entre outras medidas.

Pois é. Nem toda essa liquidez, como é chamado o excesso de dinheiro injetado na economia, encontrou seu destino final, que ficou parado no sistema financeiro.

Agora, com a relativa volta do otimismo e a queda da aversão ao risco, essa nova tendência de buscar investimentos mais arriscados e mais rentáveis é intensificada pela alta liquidez global recente.

Esse é um dos principais fatores que faz a Bolsa subir com mais força.

Por que não deslancha de uma vez?

Em primeiro lugar, não podemos perder de vista que a crise de saúde pública ainda não foi erradicada do mundo. Ainda não há uma vacina e, por mais que alguns países conseguiram controlar a transmissão, em outros lugares, a situação ainda é de total descontrole.

Você conhece algum país assim?

Quando falamos de um vírus altamente contagioso, não adianta a situação estar controlada em um lugar, se o país vizinho ainda está doente. A chance de uma nova onda de infecção não pode ser ignorada, mesmo que possa parecer que não é um grande risco no momento.

Apesar de as ações estarem se recuperando, do lado da economia real não é bem assim. De acordo com o Sebrae, há mais de 19 milhões de empresas no Brasil, enquanto há ações de apenas 421 empresas na Bolsa. Mais de 600 mil empresas fecharam as portas e pelo menos 9 milhões de funcionários foram demitidos.

Eu já discuti por aqui se pode estar surgindo uma bolha na Bolsa, onde exploro melhor esse assunto. Vale a pena conferir.

Mesmo com o bom humor nas Bolsas, não podemos esquecer que, na economia real, empresas passam por dificuldades, pessoas perderam seus empregos e o PIB do Brasil deve encolher nesse ano.

Apesar de a precificação das ações embutir muito mais a expectativa de como estará a economia no futuro, que por ora aponta para um certo otimismo, a situação presente não está descolada disso e deixa a "pulga atrás da orelha": será que a recuperação veio para ficar ou ainda teremos um período difícil pela frente? Quando soubermos disso, haverá impacto tanto para os investidores, como para a maioria dos brasileiros que ainda não investem mas também sentem os impactos dessa crise.

A projeção de queda do PIB de 2020 é de mais de 6%. Para 2021, essa projeção da somatória de toda a riqueza produzida no país é de crescimento de 3,5%. Apesar de não compensar a retração desse ano, pode abrir maior espaço para a Bolsa e a economia como um todo voltarem a se recuperar de fato. E, quem sabe, o Ibovespa possa superar a máxima de 120 mil pontos.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.