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Paulo Guedes sai ou fica no governo? Entenda os bastidores

César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

18/08/2020 18h20

Nos últimos dias, cresceu o temor de que Paulo Guedes venha a sair do Ministério da Economia. E isso foi motivo para aumento da tensão no mercado financeiro.

Eu sou César Esperandio, economista do Econoweek, a tradução da economia. E, neste artigo, bem como no vídeo acima, no qual respondo a perguntas ao vivo sobre o tema, vou traduzir quais são as chances de o Ministro da Economia Paulo Guedes deixar o governo e por que tem se falado tanto disso.

Desde a campanha na corrida eleitoral de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes já era apontado como o "Posto Ipiranga" do então candidato à presidência, para o qual tudo devia ser perguntado quando o assunto era a economia. Bolsonaro dava a entender que quem mandaria na condução da política econômica era Guedes. O presidente apenas seguiria suas recomendações.

O fato é que boa parte dos votos no Bolsonaro vieram da chancela do mercado financeiro nessa promessa de condução da economia com responsabilidade de gastos públicos e reformas necessárias para reduzir a dívida pública, que agora está sendo testada se está ou não em linha com o prometido há dois anos.

Obviamente, todos sabíamos que o jogo político não permite que as coisas sejam tão simples assim. Resumidamente, há que se acomodar demandas de grupos de interesses, partidos e haver bom diálogo com os deputados federais e senadores, que aprovam ou não os projetos de leis enviados pelo governo.

Guedes pôde montar sua equipe praticamente como quis. Agora, parte dela "debandou". A explicação poderia ser uma decepção como o ritmo de aprovação das reformas propostas, como narra a oposição, ou poderia ser causada por objetivos pessoais e anseio de melhores salários na iniciativa privada, como prefere o governo. Na minha opinião, a verdade está no meio-termo.

Desde o começo do mandato de Bolsonaro, vários membros da equipe econômica de Guedes não estão mais presentes.

Para citar alguns casos recentes, Manuseto de Almeida deixou a chefia do Tesouro Nacional, Rubem Novaes avisou que deixará a presidência do Banco do Brasil e Caio Megale saiu da diretoria de programas da Secretaria Especial da Fazenda.

Nos últimos dias, Guedes anunciou que Salim Mattar pediu demissão insatisfeito com o ritmo de privatizações, e o secretário Paulo Uebel também se demitiu reclamando que a reforma administrativa não progride.

Guedes sai ou fica?

Ainda não temos essa resposta.

Oficialmente, Guedes e Bolsonaro vieram reafirmar o compromisso da agenda liberal e, principalmente, com o respeito ao teto de gastos, que limita o crescimento das despesas do governo apenas ao gasto do ano anterior acrescido da inflação, forçando que todos os atores públicos discutam onde usarão os recursos de maneira mais eficiente.

Talvez alguns não saibam, mas boa parte da crise brasileira dos últimos anos ocorre devido à insustentabilidade dos gastos públicos, em que, nos últimos governos, se gastou muito mais do que se arrecadou. A crise de saúde pública global apenas agravou essa situação.

Alguns atores políticos são favoráveis a extrapolar o teto de gastos. Afinal, sempre foi assim que se fez política no Brasil: gastar para ser visto e lembrado nas próximas eleições.

O problema é que isso faria o Brasil insistir na rota de trajetória de endividamento insustentável, lembrando que esse foi um dos motivos que causou o impeachment da ex-presidente Dilma Rouseff.

Por outro lado, alguns afirmam que, enquanto pouca coisa das promessas econômicas de campanha saiu do papel, como a reforma tributária, a reforma administrativa, as privatizações etc., Bolsonaro estaria mais a fim de aumentar os gastos públicos de olho na reeleição de 2022.

De todo modo, ele sabe que isso poderia significar a saída de Paulo Guedes e, consequentemente, a ruína de um dos pilares que o levaram à presidência: o discurso de reformas necessárias e responsabilidade fiscal.

Bolsonaro não tem histórico liberal e muito menos de privatizações, discurso que acabou adotando em busca da chancela da "Faria Lima", como é o apelido do mercado financeiro, fortemente concentrado nessa avenida da capital paulista.

Respondendo à pergunta se Guedes sai ou fica, por enquanto, ele fica. Mas a chance de ele sair cresceu. E isso se reflete em mau humor no mercado financeiro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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