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Efeito colateral que o seu sistema fez

Contracapa do álbum Cores & Valores, dos Racionais , de 2014 - Divulgação
Contracapa do álbum Cores & Valores, dos Racionais , de 2014 Imagem: Divulgação
Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

São Paulo, Brasil

19/08/2020 16h47

A cada quatro pessoas mortas pela polícia, três são negras
Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros
A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente
Capítulo 4, versículo 3 - Racionais MC's

Mano Brown compôs essa letra no fim da década de 1990. Mas de lá pra cá, pouca coisa mudou. Apesar de o Brasil ter passado por grandes transformações nas últimas décadas, se observarmos com atenção as estatísticas mencionadas em "Capítulo 4, versículo 3", a única que sofreu alterações significativas se refere ao ingresso de alunos negros no ensino superior. As políticas afirmativas dos últimos 20 anos criaram algumas frestas na segregação não declarada no Brasil, à revelia do genocídio em curso. É nesse contexto que a minha trajetória é escrita. Aqui quem fala é Gabriela Mendes Chaves, economista, fundadora da Nofront - Empoderamento Financeiro e mais uma sobrevivente.

Se nos anos 90 a extrema pobreza fazia a "fórmula mágica da paz" do Mano Brown ressoar como um sonho distante, os anos 2000 e suas políticas distributivas viabilizaram o acesso ao consumo (e ao endividamento) para as pessoas que foram historicamente excluídas do mercado interno. "Sobreviver no inferno" da desigualdade do século XX era a única opção tangível. O século XXI chegou com grandes promessas de conquistas que nos possibilitariam dignidade para seguir "vivão e vivendo".

É preciso reconhecer que as transformações econômicas do país repercutiram na população negra e periférica. Contudo, nenhuma foi capaz de alterar a desigualdade estrutural de rendimento entre brancos e negros no país: no primeiro trimestre de 2020, o rendimento médio das pessoas brancas foi de 3.020 reais, enquanto a renda média da população negra girou em torno de 1.712 reais (IBGE).

Nesse contexto de desigualdade e racismo estrutural, proponho falarmos sobre educação financeira. A educação financeira é um passaporte para compreendermos os mecanismos de funcionamento da economia capitalista. Como economista, eu tenho a tarefa de compartilhar esse conhecimento e traduzi-lo. Eu quero falar de futuro, mas para isso é fundamental entendermos essa estrutura econômica que nos cerca e como ela afeta nossa vida diariamente.

A NoFront Empoderamento Financeiro é resultado desse processo e representa uma retomada de poder. Desde 2018 realizamos o trabalho de popularizar a economia através do conhecimento para mostrar para o mundo e para nós mesmos que "preto e dinheiro não são palavras rivais". Não se trata de uma promessa de enriquecimento rápido. Empoderamento Financeiro se refere à conquista de autonomia econômica. Significa compreender as estruturas para, então, incidir sobre elas.

Quando Mano Brown disse achar que "`todo preto como eu só quer um terreno num mato só seu, sem luxo, descalço, nadar no riacho", ele estava totalmente correto. Por que depois de tantos anos ainda seguimos lutando tanto pela possibilidade de sobreviver? Até quando vamos precisar vender o almoço para pagar a janta? Os últimos anos podem não ter alterado a estrutura do racismo e da desigualdade no Brasil, mas permitiram que pessoas como eu pudessem atravessar a ponte e trazer ferramentas novas para casa. Não temos o domínio da estrutura, mas estamos aprendendo "quanto vale o show" e quem nos deve.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.