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Gabriela Chaves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com auxílio menor, governo inviabiliza sobrevivência de parte da população

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Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

01/04/2021 04h00Atualizada em 01/04/2021 16h45

Estamos vivendo um colapso generalizado. Com recordes progressivos de mortes, temos um colapso no sistema de saúde. Com aumentos progressivos nos preços dos alimentos básicos, temos um colapso de segurança alimentar. A essas questões trágicas, soma-se a ineficiência e o descaso político, que propõe medidas pífias e não alcança a raiz do problema que estamos enfrentando.

O auxílio emergencial proposto para o ano de 2021 deveria ser motivo de vergonha por parte dos governantes do Brasil. O benefício que varia entre R$ 150 e R$ 375 é incompatível com as necessidades dos 27 milhões de brasileiros que estão em situação de extrema pobreza, de acordo com o cálculo da FGV.

Como o governo espera que as famílias sobrevivam com um auxílio médio de R$ 250? Pelo cálculo do DIEESE, o custo médio da cesta básica no Brasil atingiu R$ 551 em fevereiro de 2021. Isso sem contabilizar o gás de cozinha, que beira a casa dos R$ 100, ou até mesmo o custo do aluguel que vem aumentando de forma exorbitante. Como as autoridades esperam que as famílias em situação de vulnerabilidade administrem as quantias propostas?

Não podemos comprar o discurso de falência do Estado brasileiro. O colapso que estamos vivendo é resultado da intensa agenda de políticas liberais que se acelerou no Brasil a partir do impeachment de 2016. Trata-se de uma política que contrapõe o lucro e a vida, priorizando sempre o primeiro.

Precisamos entender urgentemente que, quando falamos de questões econômicas, o cenário sempre pode piorar, e muito. Em três meses sem o auxílio emergencial milhões de pessoas voltaram a sentir o gosto amargo da fome, as mortes por COVID-19 explodiram e o país afundou em um caos muito pior do que o previsto.

A agenda econômica em curso empurra as famílias para o endividamento e prejudica diversas conquistas sociais muito importantes das últimas décadas. Tal consideração é fundamental para que o campo da educação financeira se estabeleça de forma honesta e realista. A verdade é que o governo brasileiro está, neste momento, tornando inviável a sobrevivência de parte expressiva da população.

Para sair dessa crise, precisamos, enquanto cidadãos, também aceitar que um impeachment não é como um "paredão" e a democracia não é como um reality show da TV brasileira. Apesar do descontentamento com o atual governo, precisamos relembrar o passado ditatorial do nosso país, proteger e fortalecer nossa estrutura democrática. Parece óbvio, mas tal discussão não vai avançar com base em hashtags ou "panelaços". Precisamos da ação e resposta urgente das instituições que zelam pelo pacto democrático de 1988. Ações autoritárias e que ferem a constituição devem ser denunciadas, ainda que internacionalmente. Ditadura nunca mais.

Tem gente com fome no Brasil e essa pauta não pode mais esperar. De outro modo, passaremos a contar, além dos mortos pela covid-19, também os mortos pela fome.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL