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Gabriela Chaves

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como saí das dívidas após pagar de juros ao banco quase o valor de um carro

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Gabriela Chaves

Gabriela Chaves é economista e fundadora da NoFront - Empoderamento Financeiro, plataforma que ensina educação financeira a partir de músicas de RAP. Também é mestranda em Economia Política Mundial pela UFABC e pesquisadora do NEPAFRO - Núcleo de Estudos Afro-Americanos, nas áreas de gênero, raça e trabalho. Em 2020, pela Editora Senac São Paulo, lançou o livro “Economia do Setor Público”.

20/08/2021 04h00

Nos tempos da faculdade, o cheque especial se tornou praticamente uma fonte de renda pra mim. Passei seis anos endividada com cartão de crédito e cheque especial, e devo ter pago de juros para o banco o valor de um carro.

Essa é a realidade para as pessoas que vem da periferia, que têm no endividamento um dos únicos meios para conquistar suas coisas. E foi só depois de conhecer a educação financeira, e me tornar economista, que vi que quem dita o endividamento como regra é o sistema que vivemos - por isso costumo dizer o endividamento é uma das formas de escravidão moderna.

E nesse contexto de pandemia e de crise econômica, essa situação apenas se agrava, devido à inflação e às altas taxas de desemprego que o país enfrenta. Os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada em abril deste ano, confirmam essa hipótese, ao revelar que o percentual de famílias brasileiras endividadas em março atingiu 67,3%, o segundo maior patamar dos últimos 11 anos.

Diante de tudo isso e da minha experiência, separei sete dicas que me ajudaram:

1. Faça um diagnóstico das suas dívidas

Tomar consciência do valor das suas dívidas é o primeiro passo. Uma ferramenta que pode te ajudar nisso é a 'A minha vida financeira', disponível no site do Banco Central. Com ela você pode fazer um mapa da sua vida financeira, consultando informações que te ajudarão a fazer esse diagnóstico, que deve incluir o valor das suas dívidas a pagar. Com isso, você terá dado um primeiro passo.

2. Entenda seus gastos e priorize as dívidas

Finalizado o diagnóstico, você deve entender seus gastos mensais, separando da sua renda mensal o necessário para o seu sustento (alimentação, moradia, saúde). O restante você poderá usar para acertar sua vida financeira. Se você verificar, por exemplo, que restaram apenas R$ 200, é esse o valor que você usará.

Com esse valor em mãos, comece pagando os pequenos produtores (quituteiras, lavadeiras, donas dos mercadinhos, entre outros), que são as pessoas que precisam desse dinheiro para sobreviver. Na sequência, pague as dívidas com juros mais altos, pois os juros são o fermento que faz suas dívidas crescerem.

Mas tenha em mente que nem sempre é possível quitar tudo de um dia para outro. Se você tem uma dívida pequena, se organize para quitá-la em dois anos, por exemplo. Já se você tiver uma dívida maior, planeje-se para pagá-la em um prazo maior.

3. Transfira suas dívidas para instituições com menores taxas de juros

Algo que pode diminuir o valor das suas dívidas é a portabilidade delas para instituições financeiras que apresentam taxas de juros menores. No site do Banco Central você encontra uma lista das taxas de juros praticadas pelos bancos. Pesquise qual instituição oferece as menores taxas e tente negociar com ela a transferência da sua dívida.

4. Corte gastos e tente fazer uma renda extra

Com pouca renda, muitas pessoas acabam recorrendo ao endividamento para comprar o básico para sobreviver. Faça uma análise dos seus gastos, e veja quais deles você pode reduzir. Veja também se há alguma forma de obter uma renda extra.

5. Evite contrair novas dívidas

A partir do momento em que você saiu de uma dívida, tente não fazer outras. Isso vai te ajudar a dar "um respiro" para se organizar financeiramente e a evitar futuros endividamentos.

6. A educação financeira é a chave para uma melhor qualidade de vida

Quanto mais bem informados estamos, maiores as chances de ter uma vida financeira melhor. E a educação financeira é uma chave importante desse processo, pois com ela ganhamos mais autonomia, aprendendo a gerenciar nossas finanças e a escapar de ciladas e da armadilha do endividamento.

Existem diversas iniciativas por aí, como a própria NoFront - Empoderamento Financeiro, que dialoga diretamente com a população periférica e negra, na qual você pode aprender e se informar sobre economia e finanças, tanto através dos cursos, quanto das redes sociais - e através de letras de rap.

7. Cuide da sua saúde mental

Gosto de pensar que falar de dinheiro também é uma forma de autocuidado. Vivemos em uma sociedade que nos ensina desde cedo que valemos o que temos, e quando estamos em uma situação de endividamento, temos uma sensação de fracasso.

Não podemos deixar esses momentos nos abater, e entender que essa situação é temporária. Para lidar com isso, busque apoio psicológico, pois cuidar da sua saúde mental deve ser uma prioridade em sua vida. E existem diversas organizações que oferecem esse tipo de serviço sem custos!

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL