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José Paulo Kupfer

Falhas no isolamento podem levar economia a mergulhar inéditos 11% em 2020

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

05/05/2020 19h42

A evolução da Covid-19 entre os brasileiros está seguindo os piores prognósticos previstos, mesmo sem considerar a vasta subnotificação dos casos. O número de infectados cresce em escala geométrica e, em consequência, o atendimento de saúde entra gradualmente em colapso. O resultado é uma trágica escalada no número de mortos.

Nem os serviços funerários estão conseguindo absorver a demanda. O Brasil caminha para ocupar posição de grande destaque entre os países mais duramente afetados pelo novo coronavírus.

São variadas as razões capazes de explicar essa crônica lamentável anunciada. Ambientes insalubres, alta densidade em moradias de periferias e favelas, dificuldades e desigualdades no acesso a serviços de saúde já insuficientes em tempos normais, burocracias generalizadas, desorganização logística e por aí vai.

Mas o fator decisivo tem sido a baixa adesão da população às medidas de isolamento e distanciamento social, combinado com a dispensa do uso de equipamentos de proteção individual, sobretudo máscaras faciais. Pesa para esse relaxamento a atitude agressivamente refratária ao esforço de evitar contágios do próprio presidente Jair Bolsonaro. Ele é o primeiro a incentivar aglomerações e contatos sem proteção contra a propagação do vírus e suas nefastas consequências.

Outra vítima óbvia e severa da falta de consciência em relação aos danos causados pela Covid-19 é a atividade econômica. Era sabido que tanto maior seria o impacto negativo sobre economia quanto mais prolongado fosse o período no qual tivesse que se manter as medidas de restrição à circulação de pessoas. As perspectivas, nesse quesito, são as piores possíveis.

Do jeito que avança a pressão sobre os sistemas de saúde, será inevitável que os governos locais sejam obrigados a impor bloqueios mais e mais rígidos à circulação de pessoas. A capital do Maranhão, São Luís, já está em "lockdown, e Fortaleza, capital do Ceará, entrará em regime de bloqueio, nos próximos dias, antecipando o que se espera venha a ocorrer em muitas outras cidades. E o prazo desses bloqueios dificilmente será curto.

Quedas inéditas na atividade econômica, em 2020, entre 6% e 10% já eram divulgadas há algum tempo. Mas agora há projeções bem embasadas indicando até um histórico e negativo mergulho de 11% em 2020. Essa contração jamais vista seria acompanhada de uma perda de até 15 milhões de postos de trabalho e de redução de até 14% no total da arrecadação de tributos.

As projeções foram feitas pelos economistas do GIC-IE-UFRJ (Grupo Indústria e Competitividade), do Instituto de Econômica, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Utilizaram, para tanto, um modelo próprio, baseado na Matriz Insumo-Produto de 2017, estabelecida pelo IBGE, dentro do sistema de Contas Nacionais.

A abordagem permite avaliar tendências do consumo, exportação/importação e investimentos, desagregados em 123 bens e serviços, de 12 setores produtivos. Matrizes insumo-produto estabelecem as relações dentro das cadeias de produção e entre elas.

Nas suas projeções, o GIC-IE-UFRJ considerou três cenários - de referência, pessimista e otimista. A definição de cada um dos cenários levou em conta justamente a eficácia das medidas de isolamento e sua duração. Considerou também a efetividade da atuação do governo na sustentação da renda das pessoas e no suporte às empresas. Finalmente, levou em conta a velocidade e o nível de recuperação da economia mundial.

No cenário de referência, a economia recuaria 6,4% em 2020, enquanto o emprego sofreria contração de 8%. Mesmo na hipótese mais otimista, o PIB cairia 3,1, em 2020, e haveria perda de 4,4% nos postos de trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

José Paulo Kupfer