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Derrubada histórica da economia em abril começa com colapso da indústria

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

03/06/2020 18h56

Quem já havia se espantado com a queda de 1,5% no PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre e se surpreendeu com o recuo de 5,9% no IBC-Br (Índice de Atividade do Banco Central), em março, ficou ainda mais de boca aberta com a derrubada da produção industrial em abril. Foi um tombo nunca visto, indicando que parte importante e estratégica do setor industrial simplesmente parou, no primeiro mês cheio de convivência com a pandemia de Covid-19.

Com o recuo de 9,1% em março, e a queda de 18,8%, em abril, a produção industrial encolheu 30%, no acumulado de dois meses, O nome disso é colapso, e o desastre só não foi pior, como previa a maioria dos analistas, porque os segmentos produtores de alimentos, higiene e limpeza e remédios registraram alguma expansão em abril.

Bens de capital, veículos e bens de consumo desabaram. Mostrando que ninguém está pensando em investir, a produção de bens de capital registrou contração de inéditos 41,5%, em relação a março, enquanto o volume produzido de bens de consumo recuava 26%, com o segmento de bens duráveis sofrendo retração de 80%. Nesse grupo, chama a atenção a produção de veículos, com um recuo de 90%, tanto em relação a março de 2020 quanto a abril de 2019.

Os demais sinais já conhecidos de abril, inclusive os do mercado de trabalho, em que as demissões, juntamente com as ocorridas em março, superaram um milhão de postos de trabalho, são de paralisações igualmente de grande porte tanto no varejo quanto nos serviços. Na derrubada geral, a agricultura é o setor que deverá se salvar, com aumento nas exportações e a manutenção do abastecimento doméstico.

Depois dos números da indústria, foram reforçadas as projeções de que o segundo trimestre representará o fundo do poço da atividade econômica em 2020. A contração prevista manteve-se nas vizinhanças de 10%.

É possível encontrar alguma recuperação, nos números já conhecidos de maio, reforçando a crença de que o grande mergulho da atividade em 2020 ocorreu em abril. Mas o alívio que pode ter acontecido no mês passado deve ser tomado com as devidas cautelas.

A base de comparação baixíssima é o principal motivo dessa previsível "recuperação", mais estatística do que verdadeira. No caso da indústria, por exemplo, as projeções são de uma quase estabilidade, de abril para maio. Mas, se comparada com maio de 2019, a queda deverá chegar, segundo as projeções correntes, como em abril, a mais de 25%.

Um exemplo dessa "recuperação" apenas estatística pode ser encontrado na evolução das vendas de veículos em maio. Em comparação com o desabamento de abril, houve alta de quase 12%, mas, em relação a maio do ano passado, as vendas recuaram espantosos 75%.

O segundo semestre, dependendo da amplitude das medidas de relaxamento do isolamento social - o que dependerá da redução dos casos de contágio, infectados graves e de mortes por Covid-19 -, deve marcar um início de uma recuperação. Não se deve alimentar ilusões, porém, com a volta de números positivos, depois de uma sucessão de tombos históricos.

Essa recuperação não terá fôlego para reverter a crônica anunciada da maior contração da economia brasileira em todos os tempos. Quando 2020 chegar ao fim, a economia brasileira, tudo indica com um recuo de pelo menos 7%, provavelmente terá voltado ao que era pelo menos três anos antes.

José Paulo Kupfer