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Atividade, medida pelo BC, em maio, é ducha fria na ideia de recuperação

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

14/07/2020 16h17

O fundo do poço, para a economia brasileira, na pandemia de Covid-19, ocorreu em abril. Mas, em maio, apesar de números positivos do comércio e da indústria, a atividade econômica permaneceu perto dele. Essa é, em resumo, a conclusão que se pode extrair do resultado do IBC-Br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central), em maio, divulgado nesta terça-feira (14). O indicador subiu 1,3%, em relação a abril, mas ficou 14,29% abaixo do dado de maio de 2019.

Enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, voltava a bordejar 100 mil pontos, seguindo sua trajetória de descolamento da economia real, os analistas do mercado financeiro classificavam o IBC-Br de maio como uma ducha fria nas expectativas otimistas para a recuperação da economia, trazidas sobretudo pelos números do varejo, em maio. As projeções, de fato, apontavam alta de 4,5% no IBC-Br de maio, bem acima do dado efetivamente anunciado.

A verdade é que, mesmo com altas fortes da indústria e do varejo, em maio sobre abril — 7%, no caso da indústria, e 19%, no caso do varejo ampliado —, a distância, em relação a fevereiro, ou seja, na comparação com o período anterior à pandemia, continua elevada. Com os resultados de maio, o varejo ampliado ainda se encontra 15% abaixo do nível de fevereiro, enquanto a indústria permanece 21% abaixo. Os serviços, menos influenciados pelas transferências de renda propiciadas pelo auxílio de emergência a vulneráveis e informais, continuaram descendo a ladeira, em maio.

Além de levar em consideração a acentuada alteração nos parâmetros comparativos, advindos do autêntico colapso de oferta e de demanda ocorrido nos primeiros tempos da pandemia, analistas mais rigorosos já haviam percebido a heterogeneidade dos dados do varejo em maio - eles divergiram muito por segmentos e por Estados. Com isso, puderam se manter mais cautelosos quanto à "recuperação" enganosamente propagandeada. A propósito, no acumulado dos primeiros cinco meses de 2020, o IBC-Br ainda permanecia 6% abaixo do nível em que se encontrava no período janeiro-maio, em 2019.

Projeções apontam números da atividade em junho melhores do que os de maio, mas ainda assim sem força para reverter as perdas registradas pelos desarranjos na produção e nas vendas, entre meados de março e abril. Se o IBC-Br do mês passado tiver subido em torno de 6%, como estimam os analistas, o número ainda marcará queda de 6% sobre junho de 2019, e de 12% no segundo trimestre de 2020, na comparação com o primeiro.

José Paulo Kupfer