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José Paulo Kupfer

Empresas privadas iam furar fila da vacina, mas só política pública salva

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

26/01/2021 15h05

Terminou de forma inglória o lamentável episódio da tentativa de compra de vacinas pelo setor privado, com o apoio oficial do governo Jair Bolsonaro. A fabricante AstraZeneca informou ainda não dispor de doses para atender à demanda de mercado, mantendo todas as vendas para governos, até segunda ordem.

A tentativa de furar a fila dos governos, na aquisição de imunizantes, deu ao país mais um título inédito - indesejável e vergonhoso. Até o momento, só o Brasil pretendeu permitir que o setor privado adquirisse vacinas. A obrigação de destinar metade do lote que um grupo de empresas imaginou comprar ao SUS (Sistema Único de Saúde), conforme o combinado com o governo Bolsonaro, não elimina a constatação de que se tratava de uma furada de fila, ainda que oficializada.

Muito difícil entender a razão para que ideia tão sem noção prosperasse. Pode-se imaginar que o motivo principal fosse manter as empresas em funcionamento, sem interrupções ou necessidade de substituir às pressas funcionários infectados. Em reunião virtual com clientes de um banco estrangeiro, o próprio presidente Bolsonaro ressaltou que a medida poderia ajudar a aliviar pressões sobre a economia.

Talvez não tenha passado pela cabeça de Bolsonaro, do ministro Paulo Guedes, que também aprovou a ideia, e dos executivos do setor privado que a propuseram a singela constatação de que vacinar funcionários de uma dada empresa, mas deixar expostos ao contágio os empregados da sua cadeia de fornecedores e da rede de distribuição e venda dos produtos ou serviços não evitaria paralisações e colapsos no circuito produtivo.

Não se está nem falando nas questões éticas e morais envolvidas nos atos de furar filas. A verdade é que, num país em que impera a cultura do "cada um por si", é quase impossível entender a lógica coletiva imposta pela pandemia da covid-19. Precisa desenhar que privilégios na vacinação deixam expostos à contaminação, e às suas consequências, inclusive a da morte e a do colapso dos sistemas de saúde, os grupos mais vulneráveis ao vírus.

É o "cada um por si" um dos principais fatores que faz do Brasil indesejado e vergonhoso campeão mundial de desigualdades e extrema pobreza. É também o elemento que ajuda a explicar, por exemplo, a configuração inóspita das cidades brasileiras. Condomínios com muros altos e edifícios com comportas para entrada e saída, cercados por favelas, não evitam insegurança e violência.

É possível tropeçar, literalmente, em exemplos cotidianos da deletéria cultura do "cada um por si". Uma delas, aparentemente inofensiva, são as calçadas das ruas. As brasileiras, intransitáveis, construídas sem qualquer padrão, atendendo apenas às necessidades do proprietário do imóvel, que expulsam cadeirantes, carrinhos de bebê, pessoas com dificuldades de locomoção e pedestres em geral para a rua, são a norma. Nada que se compare com cidades mundo afora, em que o uso das vias públicas, inclusive calçadas, é, como diz o nome, público.

A apropriação privada da coisa pública, tipicamente brasileira, é uma expressão prática do "cada um por si". Ocorre que isso não funciona numa pandemia como a da covid-19. Quanto mais se invocar o "cada um por si", mais crescem as funestas chances de colapso no sistema de saúde e do espalhamento de crises humanitárias como as que assolam Manaus por muitas outras cidades do país.