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José Paulo Kupfer

Suspiro do emprego no fim do ano já não se sustenta no início de 2021

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José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

28/01/2021 16h20

Se as estatísticas são como os biquinis, que mostram tudo menos o essencial, as estatísticas do mercado de trabalho são ainda mais propensas a mostrar o que não é essencial. As taxas de desemprego podem recuar não porque a atividade econômica está em alta, assim como podem avançar quando vagas estão voltando a serem abertas.

Os dados da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio - Contínua), referente ao trimestre setembro-novembro, publicados nesta quinta-feira (28), em conjunto com as informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), para dezembro, de também divulgados nesta data, mostram uma situação que pode levar a conclusões equivocadas.

Quando se observa apenas a taxa direta de ocupação ou de desocupação, os números indicam uma tendência de recuperação. Quando, porém, se olham os dados relativos, filtrados pelos ajustes sazonais, a situação do mercado de trabalho continua difícil e com tendência a piorar.

Em relatório a clientes, a grande consultoria MCM, tomando como parâmetro o mesmo período de setembro a novembro de 2019, anota que o "avanço da taxa de desocupação foi contido pela saída de pessoas da força de trabalho. No período, a taxa de participação feito o ajuste sazonal, ficou em 56,1%. Significa que apenas pouco mais da metade das pessoas em idade de trabalhar, estava na força de trabalho.

Se fosse considerada a taxa de participação existente há um ano, pré-pandemia, portanto, a taxa de desemprego deveria se situar nas alturas de 21%. Se for agregado a taxa de desalento, que expressa o volume de trabalhadores que não estão procurando colocação, atualmente da ordem de quase 6 milhões de pessoas, a taxa de desocupação sobe para mais de 25%.

Significa que um em cada quatro brasileiros em idade de trabalhar está sem ocupação. Se a esse exército for agregado o pessoal que trabalha menos de 40 horas semanais, estando disposto a trabalhar mais tempo, o desemprego relativo de mão de obra alcança um terço dos brasileiros aptos ao trabalho.

No caso do Caged, que captura informações do setor formal da economia, o quadro de relativo alívio, no fim do ano, também deveria ser relativizado. São vários os fatores que precisam ser levado em conta antes de comemorar, sem ressalvas, a criação, entre demissões e contratações, de 140 mil vagas em 2020.

Para começar, mais de 70 mil dessas vagas, metade do total, vem do mercado de trabalho intermitente, um jeito informal de trabalhar que a reforma trabalhista do governo Temer transformou em formal. Depois, há o efeito do BEm (Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda), um programa de subsídios oficiais para sustentar empregos e empresas, na pandemia, a exemplo da sustentação dos vulneráveis beneticiados pelo auxílio emergencial, que, dado o volume e a abrangência, manteve a economia pelo menos com o nariz fora da água. É preciso considerar ainda o fato de que, entre os formais, o trabalho em home office ganhou relevância, contribuindo para manter girando parte da roda dos negócios.

Para ter uma ideia da importância dos programas de sustentação de emprego e renda, o BEm, em 2020, abrangeu 20 milhões de acordos, envolvendo 10 milhões de empregados e 1,5 milhão de empregadores. Um em cada quatro trabalhadores com contratos de trabalho foram beneficiados

Dizer que a economia está melhorando, num quadro desses, é olhar um copo com água a menos da metade pelo lado mais cheio. A consultoria MCM, resume a situação e a tendência: "A desaceleração da população ocupada, em novembro, na série mensalizada, sinaliza recrudescimento da pandemia, arrefecimento da confiança do consumidor e dos empresários do comércio e dos serviços, e redução do auxílio emergencial."

A situação ainda bastante difícil do mercado de trabalho é um dos elementos que formam o caldo de uma retração da economia, no primeiro trimestre de 2021. Com a pandemia estressando o sistema de saúde e dando margem a novas restrições de movimentação de pessoas e mercadorias, e ainda sem o guarda-chuva de novos auxílios a vulneráreis, trabalhadores e empresas, a recuperação do mercado de trabalho, esboçada no terceiro trimestre e nos primeiros dois meses de 2020, não terá fôlego para virar o jogo.

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