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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desemprego é o maior para janeiro em quase 30 anos, mesmo com Caged melhor

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

31/03/2021 16h25

Os indicadores da situação do mercado de trabalho são traiçoeiros. Nem sempre o que eles apontam diretamente é o melhor retrato do que se passa no mundo da oferta e demanda de mão de obra. Para obter visão mais confiável do quadro atual e das tendências para o futuro, muitas vezes é preciso desagregar as informações e confrontar a consistências das séries de dados.

Discrepâncias, nestes primeiros meses do ano, entre os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que capta os dados do emprego formal, e os resultados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilios Contínua), que reúne informações sobre o conjunto das pessoas em idade de trabalhar, são talvez o melhor exemplo dessas dificuldades na interpretação dos indicadores do mercado de trabalho.

De acordo com a Pnad Contínua, a taxa de desemprego, no trimestre encerrado em janeiro, de 14,2% da força de trabalho, divulgada nesta quarta-feira (31) pelo IBGE, é a mais alta, para o período, desde o início da série atual, em 2012. Para especialistas, a situação deve piorar ainda mais em fevereiro e, possivelmente, pelo menos até o fim do primeiro semestre.

"Ajustando as séries de desemprego para um período mais longo no tempo, encontrei que a taxa do trimestre, para trimestres encerrados em janeiro, é a mais alta em quase 30 anos", diz o economista Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria iDados. Mais preocupante, para ele, é que, para normalizar o mercado, falta serem abertas vagas para quase 6 milhões de trabalhadores que deixaram o mercado nos últimos 12 meses. "Como tem muita gente para voltar à força de trabalho, e o mercado formal está sendo insuficiente para absorvê-la, a tendência, pelo menos nos próximos meses, é a de aumentar o desemprego e a informalidade", conclui Ottoni.

Segundo informou o Caged, na terça-feira (30), em fevereiro foram criados 410,8 mil novos postos no mercado formal de trabalho, "recorde para o mês em 30 anos", como comemorou o ministro das Comunicações, Fábio Faria (PSD-RN). Para o ministro da Economia, Paulo Guedes, esse resultado, que eleva para mais de 600 mil a geração de novas vagas no primeiro bimestre de 2020, "temos que admitir que o mercado formal de trabalho está se recuperando em altíssima velocidade", trombeteou Guedes.

Apesar das diferenças gritantes, nenhum desses indicadores está errado ou foi manipulado. Eles revelam, corretamente, as informações que a metodologia adotada permite capturar. Por focar no sub-mercado de emprego formal, aquele em que os contratos de trabalho são regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o Caged dá um retratado parcial do mercado de trabalho, enquanto a Pnad Contínua abrange o mercado como um todo.

A Pnad Contínua abarca o conjunto de pessoas em idade de trabalhar, reunindo as ocupadas - com carteira assinada, por conta própria, empregadores e informais - e desocupadas. Retrata também o grupo de trabalhadores subutilizados - que trabalham menos horas do que poderiam - e os desalentados - aqueles que, em idade de trabalhar, deixaram de procurar ocupação.

No mercado de trabalho brasileiro, atualmente, cerca de 60% dos empregos são considerados formais, enquanto os restantes 40% são informais. Mas, como se restringe quase integralmente aos empregos sob contratos regidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), o Caged retrata a situação de não mais de um terço do mercado. Empregados formais fora do Caged estão os servidores públicos, os empregadores e os trabalhadores por conta própria.

Também a taxa de desemprego do IBGE não dá a verdadeira dimensão das dificuldades atuais no mercado de trabalho, sobretudo em tempos de pandemia, em que se registrou acentuada redução no número de pessoas em idade ativa na força de trabalho. Considerando a taxa de participação anterior à pandemia, a taxa de desemprego seria hoje de 21,2%. O número cai a mais de 25% se forem incluídos os desalentados - aqueles que nem estão procurando ocupação. Além disso, a taxa de subutilização da mão de obra, que contabiliza trabalhadores que poderiam e gostariam de trabalhar mais horas por semana, chega a quase um terço da força de trabalho

Para complicar mais um pouco, o Caged passou, recentemente, por alterações significativas na metodologia de apuração dos dados. Até 2019, as empresas eram legalmente obrigadas a enviar ao ministério do Trabalho - hoje Secretaria do Trabalho, do ministério da Economia - formulários mensais com informações de admissão e demissão de empregados, reunidos na Rais (Relação Anual de Informações Sociais). A partir de 2020, o Caged passou a ser alimentado pelos dados informatizados do eSocial. Além disso, passou a ser obrigatório informar a contratação de temporários.

A mudança, segundo especialistas, é boa e dará mais consistência, confiança e credibilidade aos dados fornecidos. Mas, "quebrou" a série, o que se apura hoje é diferente do que se coletava antes. Por isso, comparar os dados da série nova com os da série antiga pode levar a equívocos graves de análise.

Isso fica evidente num levantamento feito por Ottoni. Num período que se poderia chamar de transição, foram publicados dados do Caged tanto com base nas informações da Rais (série antiga) quanto pelo eSocial (série nova). Foi significativa a diferença encontrada por Ottoni entre os resultados das duas séries.

No acumulado dos meses de abril a dezembro de 2019, período em que o governo publicou dados das duas séries, o saldo de contratações somou 410,8 mil novos postos de trabalho formal, pela série antiga, e 715,1 mil, pela série nova. A diferença, de 304,3 mil postos criados, fez com que a série nova apresentasse alta de 74,1%, na comparação com a série antiga.

"A nova série está gerando saldos maiores", constata Ottoni, mas o pesquisador ressalva ser ainda cedo para concluir que o novo Caged esteja "turbinando" os dados. "Além de ser uma série ainda muito curta, as instabilidades e turbulências desse momento de pandemia pedem cautela nas conclusões". Para Ottoni, tudo considerado, o conjunto de informações fornecido pela Pnad Contínua permite uma leitura mais consistente da dinâmica do mercado de trabalho do que o oferecido pelo Caged.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL