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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Relação entre vacina e crescimento existe, mas projeções não são confiáveis

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

20/05/2021 10h10

Não é o tão falado risco fiscal, nem as sempre perigosas pressões inflacionárias ou da taxa de desemprego e dos impactos do setor externo. O comportamento da economia se mede agora por um único elemento: o ritmo de vacinação da população contra covid-19.

O roteiro é simples de entender: quanto mais gente imunizada, maior a perspectiva de mobilidade das pessoas. Com a abertura do comércio e dos serviços, os estoques da indústria podem fluir, acelerando a produção, e a atividade econômica ganhar impulso. Quanto mais - e mais rápido - braços forem picados com doses de vacinas, mais a economia conseguirá deslanchar.

Medir a correlação entre ritmo de vacinação e o alívio das restrições à circulação de pessoas, mercadorias e serviços passou a ser considerado crucial para projetar o futuro econômico próximo. Não por coincidência, departamentos de estudos econômicos de bancos e consultorias financeiras se lançaram na produção de um novo indicador: o do andamento da vacinação.

As primeiras tentativas de filtrar informações sobre doses de vacinas disponíveis para aplicação no Brasil e correlacioná-las com seus impactos no comportamento da economia datam de março. Logo o exercício virou uma onda e até o Banco Central entrou no jogo.

Em meados de abril, o BC divulgou simulações do nível de proteção da população com primeira e segunda doses. A premissa era a de que as doses anunciadas pelo governo seriam integralmente aplicadas. Se todos fossem vacinados com as doses anunciadas, essa proteção chegaria a 90%. Por trás do resultado, a presunção de que, assim protegida, logo a economia estaria livre do "abre-fecha" determinado por surtos de contágio, internações e mortes por covid-19.

Agora é o ministério da Economia, por meio da SPE (Secretaria de Política Econômica) que se lança no terreno da especulação da relação entre vacina e crescimento da atividade. No Boletim MacroFiscal de maio, a SPE publicou um quadro em que, num exercício econométrico, estabelece números para a correlação.

Combinando a variação das doses de vacina aplicadas a cada 100 habitantes e os níveis de mobilidade para locais de trabalho, levando em conta dados de 30 países, a SPE concluiu que a cada 10 pontos percentuais de aumento nas doses aplicadas, as projeções de crescimento da economia se elevam, na média, em 0,13 pontos percentuais, em 2021. Na mesma linha, um aumento de 10 pontos percentuais na mobilidade, leva a incrementos de 0,07 ponto percentual, em média, nas projeções de crescimento.

Somando um efeito ao outro, de acordo com o cálculo da SPE, as projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) avançariam 0,2 ponto percentual a cada acréscimo de 10% no conjunto da população vacinada. O estudo inclui dados que permitiriam concluir que a vacinação rápida e abrangente nos Estados Unidos sustentou revisões para cima do PIB, enquanto a lentidão do processo de vacinação levou a revisões para baixo do PIB da Indonésia.

É com base em parte nesse exercício que a SPE aumentou sua previsão de expansão do PIB em 2021, na comparação com 2020, de 3,2% para 3,5%. A conclusão, porém, se ampara em dados e premissas que desenham um quadro otimista da real situação brasileira.

Segundo a SPE, no dia 7 de maio, o Brasil estava em décimo quinto lugar entre os países que mais vacinaram por grupos de 100 habitantes, com o índice 22. Mas, no ranking global da Universidade de Oxford, nesta terça-feira (18), o país, ainda que ocupe a quarto posto, em termos absolutos, entre os que mais aplicaram doses de vacina, não passava, em termos relativos, da sexagésima primeira posição, com índice de 27,76 por 100 habitantes.

No RAF (Relatório de Acompanhamento Fiscal), de maio, publicado na segunda-feira (17) pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão vinculado ao Senado, um gráfico bem claro mostra uma curva em descendente. Depois de um pico de um milhão de vacinados por dia, em fins de abril, o ritmo cai consistentemente, até 665 mil doses diárias.

De meados de janeiro a meados de maio, a média diária de vacinas aplicadas é de 486 mil doses. É menos da metade do que seria necessário avançar por dia para que, até fins de agosto, metade da população estivesse vacinada, como preveem estudos de bancos e consultorias. Em São Paulo, por exemplo, a previsão oficial é as pessoas na faixa etária dos 60 anos só serão chamadas à vacinação no começo de julho.

A primeira dificuldade na definição de métricas que conectem vacinas e crescimento vem da dificuldade em estabelecer comparações internacionais. Como lembra o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do BC e referência em análise de conjuntura, em relatório semanal de sua consultoria, "nunca tivemos um lockdown verdadeiro, o que torna inútil usar dados de outros países para prever efeitos do contágio sobre a economia."

Difícil também é separar o joio do trigo nas informações oficiais de contratação, entrega de insumos, produção e distribuição de vacinas. Com grande frequência, os volumes anunciados são revistos, normalmente para baixo, causando mais lentidão no processo de vacinação e fazendo as correlações entre ritmo de vacinação e crescimento da economia errarem o alvo.

Na quarta-feira (19), doses de vacina distribuídas a estados e municípios alcançavam o volume de 90,6 milhões. Na mesma data, 54,3 milhões de doses haviam sido aplicadas. Dessas 37 milhões como primeira dose e 17,3 milhões, como segunda. Na data, no cômputo geral, nem 20% da população havia recebido a primeira dose e nem 10%, a segunda.

Razões de diversas ordens - sanitárias, políticas, logísticas, de produção - podem atrasar o ritmo de fornecimento de imunizantes e, em consequência, no processo de vacinação. A Índia, grande exportador de insumos, por exemplo, está retendo a produção local para fazer frente ao surto de covid-19 que assola o país, atrasando e reduzindo os lotes destinados ao Brasil.

A China, também grande fornecedora de insumos para a produção de vacinas, volta e meia segura lotes negociados com o Brasil, em aparente represália a declarações hostis de membros do governo brasileiro, a começar do próprio presidente Jair Bolsonaro.

Há pouco mais de dez dias, Bolsonaro insinuou, sem citar o nome, mas fazendo referências claras, que a China criara o coronavírus para deflagrar uma guerra bacteriológica. Na sequência, o laboratório Sinovac, produtor da Coronavac, anunciou atraso no envio de um lote ao Instituto Butantan. Segundo o governo paulista de João Doria, em disputa política com Bolsonaro, o atraso se devia às insinuações do presidente.

O fato é que as linhas de produção do Butantan vêm sofrendo paralisações por falta de matéria-prima para a produção da CoronaVac, assim como as da Fiocruz também enfrentam atrasos no fornecimento de insumos para a vacina AstraZeneca/Oxford. São situações do gênero, impossíveis de serem previstas, que tornam as projeções de avanços na vacinação - e na economia - pouco confiáveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL