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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PIB cresce puxado por dólar alto, mas sem força para derrubar desemprego

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

01/06/2021 12h17

Com seus pesados choques, a pandemia revirou conceitos e embaçou projeções do futuro próximo. A avaliação do comportamento da economia foi das atividades mais afetadas pelo fenômeno incomum. A variação do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre de 2021 não fugiu à nova regra.

Ao avançar 1,2% sobre o quarto trimestre de 2020, conforme anunciado nesta terça-feira (1º) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a economia "surpreendeu" com crescimento acima do previsto. O crescimento acima do previsto não pode, contudo, fazer esquecer que a evolução da atividade ainda não mostra consistência.

Na verdade, do segundo semestre de 2020 para cá, trimestre contra trimestre, o ritmo é cadente - 7,8%, no terceiro trimestre; 3,2%, no intervalo outubro-dezembro; 1,2% agora. Em relação ao primeiro trimestre de 2020, o primeiro afetado, na segunda quinzena de março, pela pandemia, a alta foi de 1%. Sobre o pico do primeiro trimestre de 2014, no entanto, o PIB de primeiro trimestre de 2021, sete anos depois, ainda deve 3,1%.

Esse crescimento, quase o dobro do esperado pela mediana das previsões, é peculiar. A economia cresceu sem aumento do emprego e com queda da renda real das famílias. Se a atividade voltou para o nível em que se encontrava no último trimestre de 2019, o derradeiro antes da pandemia, a população ocupada permanece dez pontos abaixo da situação em que então estava.

O desemprego está em patamar recorde e, de acordo com as previsões, ainda vai aumentar antes de começar a cair. Isso sem contar os subutilizados e os desalentados. Vivemos, portanto, uma recuperação sem retomada do emprego, com tração insuficiente para absorver o exército de trabalhadores que não consegue ocupação. Não é uma situação comum, mas, forçando um pouco, lembra o general Médici, presidente no auge da ditadura, a quem se atribui a declaração de que "a economia vai bem, mas o povo vai mal".

Correlacionado com as dificuldades no mercado de trabalho, o consumo —das famílias e do governo— caiu no trimestre. Por que o recuo não foi mais acentuado é um dos principais pontos que os especialistas tentam decifrar. Um ano depois de instalada a pandemia, terá a economia aprendido a operar no novo ambiente de restrições à mobilidade de pessoas e mercadorias, minimizando as perdas?

Enquanto esse debate evolui, verifica-se que o câmbio (muito) desvalorizado foi elemento chave na história do PIB do primeiro trimestre. Ainda que com peso baixo no conjunto da economia, a agropecuária foi, de longe, o principal puxador do crescimento, nos primeiros três meses do ano, com avanço de 5,7% sobre o acumulado nos três meses anteriores. É taxa de câmbio favorável na veia.

Taxa de câmbio favorável potencializou o aumento da demanda global por alimentos e bombou exportações. No outro lado da moeda, o câmbio desvalorizado impulsionou importações, o que ajuda a explicar a variação trimestral positiva de 4,6% no investimento —pense-se, por exemplo, no aumento da demanda por máquinas agrícolas, sem considerar a estranha regra que trata como importação as "viagens" contábeis de plataformas de petróleo entre o país e o exterior. Resultados mais fortes na indústria extrativa e no setor de transportes/armazenamento também se devem, pelo menos em parte, ao impulso da moeda desvalorizada.

Estatísticas comparativas sempre contam na análise de comportamentos econômicos. Com a pandemia, as bases de comparação e os transbordamentos entre datas de corte da avaliação se tornaram ainda mais relevantes. Depois do resultado do primeiro trimestre deste ano, em razão desses motivos estatísticos, a expansão da economia em 2021 chegará a 4%, mesmo que fique no zero a zero, nos demais trimestres. Se houver algum crescimento daqui para a frente, a variação final do PIB no ano avançará 5% ou até mais. Com recuo em algum momento, o número final marcará um crescimento em torno de 3%.

Economistas acostumados a acompanhar a conjuntura econômica se dividem nas projeções, assumindo números justamente entre os extremos desse intervalo —de 3% a 5% para a variação do PIB em 2021. Essa relativamente ampla divergência chama a atenção para o horizonte de incertezas à frente, entre outras, possíveis restrições na oferta de energia elétrica.

A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), entidade que reúne economias mais ricas e alguns emergentes, por exemplo, divulgou, nesta segunda-feira (31) uma atualização de suas projeções para o crescimento da economia global em 2021. Para o Brasil, a previsão é de expansão de 3,7%, abaixo dos 5,8% de alta prevista para a economia global.

Se as previsões se confirmarem, significa que, mesmo recuperando parte das perdas anteriores, a economia brasileira, neste ano, recuaria no ranking mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL